Friday, March 01, 2013

O Verão das Musas #2 - Nise da Silveira






Dra. Nise da Silveira, psiquiatra que criou o Museu da Imagem do Inconsciente. Pioneira que usou a arte como terapia. Doutora Nise acreditava naquilo que Artaud dizia, classificando a esquizofrenia como – um outro estado do ser – estes loucos como Artaud e Van Gogh e tantos. Viver não é apenas instante de chás à sombra. Este retorno ao quintal da infância é uma fuga secreta - eu vivo em um outro estado do ser. Eu tenho grilhões e chispas solares. Em mim as velas queimam como vulcões e a brisa invade como furacão. Isto é bem mais que um coração & alma pode suportar, muito mais. Então a poesia é o meu ópio, a terapia, o refúgio, como na infância, era a minha revoada por quintais, perseguindo borboletas e criando reinos imaginários. A vida retalha as costas com seu chicote enquanto eu canto árias azuis. Quem não entende isto, não deve vir ao chá, não deve ler poemas à meia-luz, não deve beber um vinho em um túmulo branco e perguntar à lua – afinal pra que mesmo tudo isto?


Quando visitei a exposição do Museu do Imagem do Inconsciente, em sua passagem pelo MON em Curitiba, fui tocada por uma espécie de alumbramento diante das telas de Fernando Diniz... 

O Verão das Musas traz esta pequena alagoana, personagem de Memórias do Cárcere - romance de Graciliano Ramos. Nise ficou 18 meses detida no presídio da Frei Caneca, um dos prisioneiros era Graciliano. 
Em 1995 Nise publicou - Cartas a Spinoza. 
O legado de Nise da Silveira inspira e nos toca com a força de aço de uma pequena mulher alagoana que optou por curar pela Arte, dialogar com seus ícones e mudar o comportamento de muitos dentro das Instituições. 






“ Agora, aqui em segredo, ouso supor que você tenha descoberto os poderes do imaginário e de suas possibilidades de organização, admirando, contemplando longamente as pinturas de seu contemporâneo Rembrandt. De certo não lhe escapou que Rembrant não se prendia à realidade objetiva, segundo preferiam
grandes mestres da pintura holandesa de sua época. Não estaria ele buscando no claro escuro do imaginário segredos muito íntimos, aspirações inefáveis?
Se numa tela célebre Rafael representou Platão com o indicador voltado para o alto e Aristóteles com o indicador voltado para terra, Remblandt exprimiu talvez coisas mais distantes, pintando Aristóteles com a mão respeitosamente pousada sobre a cabeça de um busto de Homero cego.
Ainda ontem a noite, pensei muito em você, mergulhado na contemplação do Doutor Faustus, ou imóvel, diante do Filósofo com o livro aberto, olhos perdidos, muito além das letras impressas, tranquilo, sentado ao lado de uma escada que se alonga em movimento espiralado não se sabe para onde.
Perdoe tanta ousadia. A sua menor discípula,
Nise”

Nise da Silveira

Cartas a Spinosa
Francisco Alves, 2º ed., 1999