Sunday, March 16, 2014

pequeno tesouro dentro de um livro antigo





"Vigilate, state in fide, virilites, agite, et confortamini"
(Epístola B. Pauli ad. Corinthios, I, XVI, 13).



Completas, hoje mais um ano de existência.
Menina e moça, és, ainda e sempre, menos moça que menina.
É que toda essa tua finura morena de mameluca é de uma nobre durabilidade:
vem da "velida" que el-rey Dom Denis encerrou,
como pétala da "frol dos ramos", entre as páginas do Cancioneiro;
e vem dos músculos firmes e tisnados de Bartira,
esticados pelo arco ao sol livre e forte do Planalto...

Completas hoje mais um ano de existência.
Parece que sou eu - e não és tu - que envelhece.
Porque estou todo em ti e, estando em ti, eu sou o efêmero e tu és o imperecível.
Não sabes como eu vivo só de tua vida! E sempre.
Tenho a impressão de que te vi nascer (e nascer para mim)
num dia como o de hoje, mas de há muito tempo já...
e de ter estremecido de ternura com teu primeiro estremecimento
no teu berço feliz, todo verde de folhas,
e todo rítmico, embalado de água...
de ter rezado ao teu lado, quando as mãos de um santo jesuíta
(novo Batista de um novíssimo testamento)
se ergueram para o céu, mais brancas do que a hóstia,
para do céu tirar e baixar sôbre ti,
como uma benção pura, este nome que tens...
de ter enrubecido ao teu rubor de noiva,
quando sob teu véu flutuante de garoa,
davas teu corpo morno de argila e mel, ao Bandeirante enamorado...;
de ter chorado em cada lágrima secreta de teus olhos,
quando, por uma tarde lívida de inverno,
mandastes a todos nós morrer de amor por ti...

Não sabes como eu vivo só de tua vida! E Sempre.
Sempre. Em cada tremor de tua péle,
cada palpitação de tuas veias,
cada arrepio de teus nervos,
cada ritmo dos teus gestos
e cada fuga de teus pensamentos,
- eu estou sempre todo dissolvido
numa presença imperceptível, sim,
mas, múltipla, esparsa, inumerável, permanente...

Completas hoje mais um ano de existência.
Eu te queria dar...
Mas... àquela que tudo me deu
- mãe, namorada, noiva, espôsa, amante, filha -
que poderei eu dar que seja "meu"
que não tenha sido seu,
que não passa, portanto, de uma pobre,
melancólica devolução?...
Que poderei eu dar?...
- Apenas este meu
sagrado orgulho de ser sempre, e todo, e ùnicamente teu,
minha Santa Cidade de São Paulo!

Dia da Fundação de S. Paulo, de 1944
GUILHERME DE ALMEIDA.

*Recorte de jornal com o poema acima, encontrado dentro do romance - Êle - de Didi Fonseca. Adquirido via estante virtual do sebo - incunulabo - Sampa.