Thursday, June 02, 2016

Aniversário de Ana C.


Ana Cristina Cesar
Rio de Janeiro, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983




Século passado, estava na biblioteca do MUMA e à procura de poesia para ler meus olhos e mãos foram puxados para um exemplar de - A teus pés - foi esta a manhã que me revelou Ana C. 

Sai procurando livros e poemas de Ana Cristina Cesar, eu estava começando a escrever (na metade da minha vida) e ela havia começado quando aprendeu a falar. Sempre me assusto quando penso que ela é apenas três anos mais velha que eu. Eu sempre toco a delicada sensibilidade da essência de uma pessoa que de tanta vida preferiu a morte... Eu digo pessoa por estar cada dia mais machucada com tanta guerra entre os sexos, e abraço uma humanidade despida de sexo e penso nas coisas que podem ser iguais, na possibilidade de uma trégua e um lugar onde ser sensível não seja sinônimo de fraqueza. Eu mesma estou retalhada n'alma e ainda sustento o mundo com a ponta de um dedo e sempre pensei que o desmoronamento das possibilidades é que joga contra o paredão alguns poetas, Penso nisto quando evoco Sylvia Plath e penso nisto quando lembro Ana Cristina. A leveza dela permanece, como o fog de Londres, como as nuvens que a acompanhavam enquanto ela pedalava em alguma rua do mundo, 
O ofício do poeta é pensar, é digladiar com o mundo e nesta guerra alguns decidem que esta merda de mundo não vale a pena, e eu acho que a liberdade de viver ou morrer não macula nada. Pensar, tocar as arestas sangradas, sofrer... Meu neto tem apenas seis anos e já me disse um dia: você pensa demais... É o que fazemos, e pingamos pensamentos como quem quer entender o que ninguém entende, Há metafísica no ar, Então, não peçam para descartar a metafísica, Não sou o Esteves do poema Tabacaria... 
Mas, isto não importa... importa que há algumas décadas nasceu uma poeta que aprendeu bem cedo que é a palavra a nossa arma de guerra, para a vida e para a morte.