Tuesday, July 05, 2016

As minhas mulheres...



Elas vieram a mim em bandos, primeiro a família Piccoli: Pietra, Esperança, Serena e Bárbara. Vieram para falar da Solidão Calcinada que as mulheres enfrentam quando dizem sim ao anjo da liberdade. Foi dolorido. Era a catarse minha. Queria expurgar minha culpa daquela crença da infância, eu não era culpada, mas me sentia assim. Eu me sentia culpada por acreditar, na adolescência, que os rebeldes dos anos sessenta eram terroristas. Foi a minha penitência. Eu sempre quis publicar meu primeiro romance com este tema, e consegui. No outro livro eram apenas duas: a garota que cantava em um bar e a poeta que foi viver meio à natureza. Elas eram noturnas, a deusa da noite (Nyx) e constelação mais apagada do céu (Lynx). Constelação de Ossos o filtro da minha alma, eu estava me sentindo marginalizada, me sentindo qual a garota à qual só sobra a rua, um palco, e a amiga/poesia. Depois, em um rompante louco, terminei de cerzir o que pode até mesmo ser o meu primeiro livro publicável, pois recordo que a ideia surgiu antes dos dois que foram lançados. As Filhas de Manuela é uma saga que traz como metáfora a maldição nossa de cada dia: o ser mulher, levar pela vida esta sombra sangrada. Em um rompante sem nexo elas seguem por quase dois séculos arrastando isto que incomoda, a força de ser quem pulsa vida, e não se dobra. As Filhas de Manuel tem oito livros encadeados, em uma espécie de epopeia, onde cada fala apresenta um ciclo de perdas e redenções. É isto. Até aqui encontrei duas dissertações dos meus romances já editados, e eles falam da Literatura escrita por mulheres, e a leitura é sempre a da certeza de que em minhas cenas só há espaço para - elas. As que chegam fortes, as que lutam por cada grão de liberdade. Já não é o modelo patriarcal, já não é mais a feminista que luta por ocupar o lugar, é alguém que ocupa e ponto final. Coloca-se ao lado. Digo tudo isto sobre estas mulheres dos romances que escrevi, pois hoje eu vi um corpo, envolto no sangue placentário, era forte, era alvo e pulsava. Há uma única personagem, pela primeira vez. Ela está a sós, e tive medo dela. Ela acabou de nascer e eu a temo. Quando veio a mim pelo sopro da criação, era menina ainda, é menina, só a vejo ali, uniforme escolar, primeira menstruação, um amor platônico pelo professor. Ela se apresenta e eu sei que agora eu vou desaparecer, segurando sua mão úmida ainda do sangue dos nascituros, e vamos adentrar o desconhecido... Ela exige que eu construa uma cidade, quase como em Dogville, e ela chega como em Dogville com assustados olhos azuis, e ela chega com enigmas. O que ela não sabe é que já sei a última cena, e entre a primeira e a última cena de uma vida bem longe do banal, décadas e quiçá um encontro, destes que nadie explica, uma espécie de mistério que cada um vive uma vez na vida. Talvez ela já seja a minha personagem preferida...

imagem: Nicole Kidman em Dogville