Saturday, October 15, 2016

VentreLinhas




VentreLinhas
por Bárbara Lia


Um livro é uma espécie de corpo. Tece-se, como os recém-nascidos que só vemos quando está completo o ciclo da gestação e eles rompem tudo e se materializam diante de nós. Percebo isto depois de lançar alguns livros e de passar grande parte do meu tempo organizando esta enormidade de poemas que escrevo há uns vinte anos. Meu novo livro – Forasteira - traz em si a essência fêmea. Busquei uma imagem de mulher para a capa: a imagem do grande Egon Schiele  (seated woman in underwear). Há algum tempo o meu amigo Fernando Koproski disse do seu desejo de escrever a apresentação de um livro meu. Lembrei-me disto enquanto finalizava o livro e enviei para ele a epopeia forasteira. Mais de uma década de amizade e, senti-me honrada, abençoada e privilegiada por ter recebido aquela declaração linda de irmandade poética que é a apresentação do livro. Fernando afirma que somos irmãos por parte de pai. No mundo poético, onde tudo é possível, sou filha de Florbela Espanca e Vinícius de Moraes, ele diz. Foi o toque de leveza, e de beleza, que fechou o ciclo e a saga de – Forasteira.
Uma tarde, recebi uma ligação da editora Carmen Presotto - poeta que batalha dia a dia pela divulgação da poesia e que conheci em uma manhã de sábado em Porto Alegre, na edição 2010 do Festipoa. Ao telefone, Carmen estava entusiasmada e eu até podia tocar a euforia do novo quando ela disse que Forasteira inspirou uma coleção e o título da coleção seria VentreLinhas. A coleção abria com meu livro e seguiria com a edição de poetas mulheres que escrevem na página Vidráguas. A coleção teria sempre uma capa com uma imagem feminina. E, cada livro da coleção traria um homem apresentando os poemas. Nada mais natural que se chamasse VentreLinhas. Todo livro nasce de um ventre metafísico e isto independe se de homem ou de mulher.
A razão de uma coleção de livros escritos por mulheres? Se o mundo todo colocasse homens e mulheres lado a lado, sem distinção, dispensaríamos as coleções para mulheres, as antologias só de mulheres. Quando pensamos – igualdade – não se inaugura, ao redor, a igualdade em tudo. Não há divisão de sexos na Arte, pois a alma da beleza não tem sexo. Não se pode ignorar, no entanto, a disparidade de atenção que a escrita das mulheres recebe em relação à escrita dos homens. Creio que este estigma da desigualdade demora a ser varrido totalmente, ainda. Está impregnado, é preciso lutar, seguir, e – colocar-se ao lado dos homens - para que o futuro dos textos (em prosa e verso) escritos por mulheres. tenha o mesmo olhar e as mesmas oportunidades. Enquanto isto é preciso quebrar a desigualdade com coleções e antologias. Por isto, saber desta coleção me deixou bem feliz.

Longa vida à coleção VentreLinhas.


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