Monday, November 21, 2005

chá para as borboletas
















la vie en harmonie - marcio melo



CHÁ PARA AS BORBOLETAS
(BÁRBARA LIA)



TRANSPARÊNCIA


No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.


Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.


Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.


PULMÃO DE DEUS


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida



perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.



DIÁFANA


O som do oboé abafa
a melodia da caixa de música.
Cristal filtra o raio lilás
do sol que adormece.


Bicicleta atirada na calçada,
velhinho com olho antigo
no horizonte.


Abraço a vida quando o dia acaba
refrescante e calma.


cerro cortinas diáfanas
beijo tua foto desejando beijar tua alma.



MISANTROPO


Tempestade á vista, vento abissal.
Recolher as roupas do varal.


Penetrar a gruta de cristal
onde a voz de Deus ecoa.


Incenso, cantata de Bach.
Equilíbrio = solidão total.



SEGUNDA MORTE


O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.



Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.


Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.



LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS



O leque de nuvens se reflete
na areia de mármore.
Alento de tarde pagã.


Distante, a carranca do deus das ondas
escureceu o mar.


O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim


feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.


(Alguns poemas do livro "Chá para as borboletas"
ainda inédito)