Friday, December 21, 2007

POESIAS - ROLLO DE RESENDE















Pela madrugada
o vento levantando
papéis carbono

Pela madrugada
alguém enfiando
uma argola em seu mamilo.

Eu penso no poema de um lírico
que morreu num hospital
anônimo como indigente:

Ir no seu barco
para o fundo
ou para a leveza


De madrugada tomamos o expresso
e vimos uns outros tantos
entornando vômito.

Choveu.
O ar está úmido e fresco
e ainda assim engolimos a seco.

Ilustres anônimos
a madrugada é nossa.
Podemos ir cantando alto.



***



Da sua viagem
ao Himalaia traga-me
um floco de neve.


***


rosa
não usa
ziper

rosa
usa
botão

***


quando éramos crianças
usávamos azul-marinho
na escola

eu ainda não conhecia
o mar.



***


peixes de aquário
não sabem
do mar


***


peixes de aquário
podem vir a saber
do mar
através de sustos, cismas,
miasmas
ou ainda símbolos
primitivíssimos que ascendem
no tempo
registrado em suas
pequeninas células
ictioplasmáticas.


***


Stella me quer andarilho.
diz que
com lenço de batik na cabeça
............pareço um andarilho.
um que ela conheceu
................no trem para corumbá
e que come goiabas com ela
na plataforma,
..............segundo uma fotografia.

.................................claro,
..........................um andarilho.


por mais que permaneça aqui,
estarei sempre
..............só de passagem

enquanto
a luz do sol ah! tingir-me


**


companheira de viagem

fomos à ilha, a minas

ao pantanal

mas precisávamos terminar

o roteiro

ao redor de nós mesmos

companheira de viagem


vem ser

companheira de vigílias.



***




por enquanto não sou o homem das lonjuras.
então, rendo graças a esses objetos
que agora me deixam:
a colher de pau quebrada ao meio;
a panela de barro rachada, vazando sobre
o fogo;
a mochila que devolvo ao tião, esgarçada.
tudo isto
transforma-se
no livro
que não é.

me livro.




*****************


um segredo meu
é um segredo do mundo
enumerando coisas independentes?
:a componente sádica dos dentistas
:pivetes mostrando seus pintinhos
quando passamos de carro na avenida
:ser a versão longínqua de meu pai
segundo jane
:o acorde apocalíptico das cigarras
no fim da tarde

qualquer revelação mínima
é uma revelação do mundo


***


estou nas últimas reservas
.........................das sementes.
caminhando ao largo desta rota:
"...meu amor, pasqualone, ri..."
eu adquiri uma alma
....................violácea neste cansaço
logo à frente,
..............dou meia volta vamos ver
...............................e refaço os gestos
de algumas cenas perdidas.

o que quer que se repercuta?

eu já estou
na palha das sementes


ROLLO DE RESENDE
(1.965-1995)