Thursday, March 17, 2011

MARCOS PRADO





curitiba

vou acabar com a vida de um vício por mês
fumo meu último cigarro pela primeira vez
treme minha mão por um copo pela última vez
nunca mais encontrei a canalha da cannabis
acho que ela foi morar na tumba do lapis
do pó eu vim, vi e venci
e não retornarei ao pó


curitiba
você é a única droga
que eu vou admitir na minha vida

(marcos prado , antonio thadeu wojciechowski e walmor góes)



Ultralyrics. Curitiba. Travessa dos Editores. 2005


Marcos Prado 


MAIS 3 POEMAS DE MARCOS PRADO:



a mentira é a melhor é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo


mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
bethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?


 
NÃO SE ANULE
 
Não salte dessa janela, meu poema,
resista.
Não mergulhe nesse tacho
de banha velha já tão podre.
Não se mate
Nessa corda cheia de nós
nessa merda sem vida.
Se mate, salte, mergulhe
se isso construir, destruir.
Seja teimoso e continue.
Não fale sozinho, fale.
Não se anule.

Não quero regras
para teu bote de tinta
e fala,
quero a tua voz
com tom de explosão nova,
como soco na cara.

(É preciso agora e aqui
não se atirar
nessa lama em coma.)

Olhe atento para o lado
depois olhe de cima
depois mergulhe
com fibra e olhos abertos
persistência de pulso pulsando
preparado para tiro na cara
faca que fura pulmão fácil
riso de não, sarcasmo portátil.

Meu poema
eu quero que você

resista!

 

TRISTES HOMENS AZUIS
 
não é blues, tristes, não é mesmo
a tristeza não faz um homem azul
o branco é branco, o negro é negro
ninguém é triste, não há blues
só existem, tristes, os tristes homens azuis

eles se vestem de branco e de negro
e os outros vêem azul
porque não são brancos nem negros
os tristes homens azuis

ninguém nasce azul
não se põe no mundo
alguém azul
mas quando a noite baixa
se levantam
os tristes homens azuis
 
 
Marcos Prado de Oliveira (Curitiba, 15 de Dezembro de 1961 – 31 de Dezembro de 1996) foi um poeta, músico, ator, jornalista e agitador cultural brasileiro.
Personalidade extremamente vigorosa e carismática, que à sua volta agregou um time excepcional de criadores. Dono de uma extensa cultura artística em geral que com seus parceiros compartilhava, dedicava-se com paixão ao trabalho de recuperação da cultura popular brasileira, especialmente a música dos anos 30 e 40.
Desde 1978 divulgou sua poesia dentro dos mais variados formatos, unindo a força expressiva de sua dicção com música, artes plásticas, teatro, cinema e, especialmente, uma presença pessoal que fazia de suas aparições públicas verdadeiros happenings...

Para ler a trajetória do poeta que eu - ADMIRO PRA CARAMBA - segue o link: