Friday, July 24, 2009

Constelação de Ossos


Lynx Constellation

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Acordei com o vento astuto a sacudir a cortina.

A fresta da janela concedia a chuva abrupta em meu corpo.

Corpo que já não tinha forças para estender a mão e fechar o vidro.

Desejei que toda a chuva carimbasse uma nova vida.

Uma vida na qual eu me tornasse o anjo d’água.

A realidade ressuscitou o gosto do ontem na garganta

– uísque com guaraná –

E a força das mãos de Heleno, que me subjugava na hora do sexo.

Sexo.

Sexo apenas.

Seus olhos verdes ejaculados e lascivos presos em mim

– a boneca de pano entorpecida de álcool –

Sopro de ternura em uma curva trouxe a última gota de dignidade.

O sexo dele extraído das entranhas ardendo entre as minhas carnes.

Pude ouvir o barulho da descarga do banheiro.

Era um rito que me deixava triste.

Como se ele me despejasse em jatos.

Como se eu fosse flor de cacto.

– última fonte de água em uma terra árida –

Mas, ele se livrava de mim após saciar a sede.

No silêncio das noites iguais um oco em minha alma.

E eu buscava a antiga e enterrada ânsia

– Um amor que me vivificasse –

As mãos de Heleno na braguilha a terminar de fechar o zíper.

O olhar blasé em minha pele chamuscada de desesperança.

Não ouvi minha voz, onda leve morrendo, um sopro em si bemol...

– Deixe a chave sobre a mesa da cozinha. Não volte nunca mais!

– Lyn?...

– Você ouviu. Deixe a chave.

– Esquece isto, Lyn, durma.

– Se sair com minha chave conto tudo para tua mulher.

– Duvido!

– Adeus sua mordomia. Vá, Heleno, e não volte nunca mais.

– Assim? Vá e pronto?

– Vá. Estou cansada demais para velhos refrões. Acabou.

A dor no olhar dele me fez acreditar que ele me amava, afinal.

Lívido, deu meia volta e saiu.

Bem mais simples do que eu pensava.

Indolor.

Ânsia infinita de ter dez anos.

Antes da noite da despedida na capela.

A dupla orfandade.

Antes, quando era só infância de mel e perfumes.

O jardim de seda de Layla e Amir.

A sagrada inocência entre as flores e o aroma do pão sírio.

Bárbara Lia

(Constelação de ossos - fragmento do romance inédito)