Tuesday, February 21, 2012

Constelação de Ossos - Bárbara Lia








FÓSSEIS ROSAS PROFANADAS



O ar raspando o sangue seco da alma. Alma mutilada a minha. Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas. Minha alma um painel de Pollock. Onde ainda não cicatrizara, a tinta escorria espessa. Por muitas noites eu não dormia. A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante. Não sei se algum dia vai esgotar o amarelo de Van Gogh. Como se ele tivesse a chave secreta da desesperança, em forma de girassol. O meu interior borrado, sangrado de cores ardia ao vento, o pulmão ardia ao respirar lufadas de ar puro entre medo e delírio. Raul segue pela Estrada Graciosa, um caminho antigo calçado de pedras, onde abismos se abrem, onde um trem trafega, onde pássaros desnudam suas lágrimas. Quatro passos necessários para aprumar o esqueleto. As nuvens se ordenam atrás das bananeiras. Olho o bangalô e sinto uma ternura de gênesis. Projeto de éden, o recanto de Nyx. À entrada da varanda um tapete tecido em barbante azul cobalto. As pedras da entrada são claras, justapostas formam um desenho branco assimétrico.
A varanda pequena adornada de bebedouros ao redor onde um beija-flor pousa, beija a água adocicada e se vai. Uma rede da cor do trigo maduro. Raul bate na porta, três toques, a porta está entreaberta. Ela não está na casa, eu penso. Silenciosa como um anjo, pousa das alturas ao nosso lado.  Aparece do nada, com um avental verde e um vestido indiano marrom, à nossa esquerda. Primeira visão de Nyx: Olhos negros, pele queimada de sol, cabelos branqueados de lua.  Combina com a cena, com a manhã e o bangalô. Meu corpo ressente a tensão da viagem na garupa da moto de Raul, tiro a jaqueta de couro negra e deixo florir azul a minha blusa. Sopra uma brisa amena da serra e junto uma certeza de que foi excelente aquela idéia de Raul – viver um tempo ali, entre o verde e os pássaros. Senti isto quando desci da moto e pisei a trilha branca com aquela reverência de quem entra em um templo.  Digo olá à minha nova casa e à sua dona que lembra uma sacerdotisa hindu. Tudo evocava o jardim de seda:  Incenso de lavanda a espargir um perfume suave. A tessitura do tapete de barbante de algodão. Com esta imagem de templo zen adormeci. Acordei com uma réstia branca de sol entrando pela fenda da cortina.  Lembrei o sorriso de Raul ao despedir-se e das folhas que ele espalhou pela calçada de entrada quando saiu com sua moto. Eu, vendo o vôo ocre das folhas como lenços de saudade. Pensava na loucura – aceitar uma interrupção abrupta na minha vida para estar ali na casa branca pequena, incrustada na Serra do Mar.
Sei que Nyx medita.
Ouço o som de sua voz a entoar um mantra.
O lugar onde Raul me depusera era ideal para descansar, mas terapia da alma não estava em meus planos.
Estava cansada demais até mesmo para pensar em recomeço. Um fóssil eu era. Meu espírito calcificado jamais voltaria a ser uma rosa virgem em flor. Se uma gota de Deus pingasse em minha língua eu voltaria a florir? Mas, não sabia mais quem era Deus e quem eu houvera sido. O Tei Gi foi minha primeira visão ao sair do quarto.  O quadro diante de mim no pequeno corredor. Ao barulho da porta que se abre, Nyx cessa seu mantra e vem em minha direção.
– Bom dia, Lyn!
Sorrio sem forças para dizer nada. Ela me aceita. Integra-me à cena, como se eu vivesse aquela vida natural desde sempre. Cada célula minha reclama um cigarro.
– Vamos preparar o café?
Nyx me envolve e me abraça, ela anda lentamente e quando precisa fazer grandes caminhadas utiliza uma bengala. Suas mãos cálidas em meu ombro fazem as incertezas ruírem. Vai me dizendo, a caminho da cozinha, onde coloca suas vasilhas e seus mantimentos. Deve ser assim nos mosteiros, as tarefas divididas. Pela janela da cozinha vejo o beija-flor em um vôo eletrizado a bicar o hibisco rosado em uma ternura aveludada. A cor dele é cinza indefinível. Nos dias que se seguiriam eu veria beija-flores verdes, negros, rajados e até mesmo de um azul cobalto. Uma variedade de cores em seu balé de espasmos e as flores oferecendo-se brancas, lilases, vermelhas, como noivas tontas de felicidade oferecendo-se ao amado. Eu veria pássaros debandando na chuva, rasgando as águas em um nado singelo. Eu veria a lua flutuante em suas fases imutáveis, noite após noite diante do meu olhar, na varanda. Eu ouviria o murmúrio das águas deslizando pedras. Aquele era o primeiro dia, de carinho de Nyx e café meio ao verde pululante. Ela diz que me concederá um mimo. Que poderemos tomar café naquela manhã, mas, que ela sempre toma chá. Com o tempo, ela jura que eu não sentirei falta da cafeína, que amarei as ervas e os chás e meu corpo agradecerá por isto. Meu pensamento duvida. O café fica pronto rapidamente. Percebo os gestos calmos dela e tento imitá-la. Comer lentamente, sem pressa, o pão de centeio com a manteiga cremosa. Sentir o sabor. Tão diferente das minhas manhãs anteriores, que começavam ao meio-dia. Beber aquele pingado e comer um pão com manteiga na panificadora da esquina. O balcão de um azul desbotado. Eu equilibrando-me naquela banqueta onde não podia recostar-me. Recostei na suavidade da fina almofada fixa no encosto da cadeira na casa dela. Por um instante pensei nesta falta de cuidado que temos com nossas vidas. Nyx parecia ler meus pensamentos. Sabia que eu estava me sentindo segura. Não mais como quem se equilibra acima do nada. Acima do nada, sempre.
– O que te veio como primeiro pensamento nesta manhã?
Pensei em dizer que primeiro me veio o sol pela fresta da cortina. Depois, falar da falta que senti do cigarro. Mas, quando dei por mim eu já havia balbuciado como se a voz não fosse minha.
– Pensava se uma rosa calcinada pode voltar a ser pétala viva - Pétala e não pedra.
– Quando as chuvas alcançarem as raízes.


Bárbara Lia
Constelação de Ossos (Vidráguas / 2010)