Monday, June 09, 2014

Love is Louder





Shane Bitney Crone


Shane Bitney Crone e Thomas Bridegroom

"Bridegroom" é um lindo documentário que vi e fiquei em estado de graça. O subtítulo é - Uma história de amor inigualável. Sobre o relacionamento de Tom & Shane. Sobre a morte acidental de Tom e de como Shane foi proibido de ficar com ele no hospital e como ele foi impedido de ir ao funeral da pessoa com quem viveu uma história de amor verdadeiro por seis anos e com quem pretendia viver a vida inteira. É a história de dois meninos que cresceram em lugares conservadores - Montana e Indiana - e se encontraram na Califórnia. E o filme poderia ser um relato que gerou um movimento encabeçado por Shane, onde ele pretende que as leis considerem - iguais os que amam igual. Ninguém pronuncia a palavra poesia, mas, este é um movimento essencialmente poético. O amor nunca é considerado nas convenções sociais. Apenas os dogmas e os regulamentos. Estas coisas que a sociedade leva nas costas como um pássaro morto e fétido há milênios. Eu queria apenas encontrar algo que me deixasse sentada por algumas horas. Pois eu voltei a cair e não posso colocar em risco minha perna esquerda, considerando que a direita é minha perna de Frida Kahlo, então, eu preciso ficar uns dias bem quietinha pra curar hematomas... Comecei a procurar no Netflix, onde raramente encontro filmes que me atraiam e dei de cara com o documentário, não conhecia e fui sendo sugada para um lugar onde algo indefinível foi sendo materializado. Lembro que há alguns anos eu respondi a algumas perguntas que entraram na antologia O que é poesia? Ainda hoje sinto um estranhamento quando leio o que falo sobre o que é poesia, eu até esqueço o que disse... Pois, Amor e Poesia não cabem em conceitos. Eles são esta coragem poética de apenas - ser humano. Isto que Tom & Shane souberam cultivar com cuidado. Fica aquela sensação de que o mundo é mesmo esta - coisa horrível - que nunca permite que o amor se estenda. Que sempre é preciso cortar suas asas. Ou, o amor incomoda demais esta aura de podridão que viceja, e o amor é sempre isto, um cochilo no paraíso, um passeio pelo coração das rosas. Acho que quando Shane seguiu para a Califórnia ele acreditou que seria menos pesado ser gay naquele lugar, jamais esperava que aquele menino com rosto de anjo lavasse dentro toda mágoa que ele trazia pela rejeição de tantos. E nem que eles saberiam amar e amar, com cuidado. Que quando eles sentissem vontade de dizer - eu te amo - em um lugar público, eles apenas dariam três toques em algo sólido. Para mim isto alterou o misticismo de bater três vezes na madeira para espantar coisas ruins. Ou então, o amor é apenas isto: Uma simpatia que varre a maldade para longe. Pensei em como eu estava me reeducando emocionalmente ao chorar como criança durante o documentário, pois, lembro de acreditar neste tipo de encontro. De ver alguém que altera o ar. E lembro que estava nadando no limbo e esta história de amor deu uma lavada nas dúvidas. Amor é isto. Tom & Shane sabiam. E amor é algo que só pode ser definido a dois, mesmo o não dito, mesmo apenas o pensado e existem anjos que colhem pensamentos e conectam os que se amam... Sim. É isto. O amor é certeza, não de sentimentos, sensações e trocas pequenas... É uma certeza de humanidade partilhada, de química entre corpos que também são matéria e também compromisso tácito. Bater três vezes na madeira para se declarar, roubar um beijo em Paris, querer viver e nunca partir, e mesmo quando partir... Ficar.