Wednesday, March 30, 2005

PRÊMIO SESC DE LITERATURA - RESULTADO


Meu romance - Cereja & Blues - ficou entre os 26 finalistas do Prêmio Sesc de Literatura, um prêmio nacional que vai premiar a primeira colocada com a publicação de seu romance pela Editora Record.
A vencedora é Eugênia Zerbini - com o romance - As netas de Ema.


Fiquei muito feliz, feliz com a notícia de que entre os 305 romances que concorreram, o meu ficou entre os 26 finalistas. No juri estavam Carlos Heitor Cony e José Castello, acabei de receber a notícia via e-mail.
Cereja & Blues é um romance escrito, reescrito, rebuscado, modificado, que escrevi em 1.995, e que reescrevi no ano passado para enviar ao concurso. Este resultado é uma afirmativa, um incentivo, de que preciso criar meus espaços, escrever escrever escrever escrever.

Saturday, March 12, 2005

Misantropo




Tempestade à vista, vento abissal.
Recolher as roupas do varal.


Penetrar a gruta de cristal
Onde a voz de Deus ecoa.


Incenso, cantata de Bach.
Equilíbrio = solidão total.


Bárbara Lia

Friday, March 11, 2005

da saudade




Seguir o fio de Ariadne.
Em asas de Ícaro
singrar, desertar.


- 0 sol não derreterá
minhas asas de sonhos -
Abraçar-me-á – calor de pele morena.


Solidão deste labirinto é fugaz.
Madrugada longa.
Solidão de gelo.


Amanhã – o amanhã sempre chega.
A saudade será – granizo.
A felicidade – pedra.


Bárbara Lia

-sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol

imagem - Ariadne by Sir John Lavery, 1886 

Monday, March 07, 2005

céu de vidro




Cacos de mim
serpenteiam a senda sonora
onde naufrago rubra
-estilhaçada-

Quebrei vitrais góticos.
Figuras bizantinas.
Taças de licores.
Pratos gregos.

Quebrei negras janelas
de castelos escoceses.
Geadas de agosto
com meu olhar de fogo.

Quebrei o coração de argila
onde guardo o anjo
com asas de topázio.
Quebrei seu olhar, verde de espanto.

Tudo aniquilo
com este amar selvagem.
Eu, branco rio,
Espuma-esperma do cosmo.

Fiz amor com a vida.
Raios colorindo a alma.
Fúria celeste espargindo
em redemoinhos de sóis.

Estilhaçando vitrais,
taças, coração de argila,
asas de topázio do anjo,
catedrais.

Não mereço o céu.
Quebraria o vaso branco
do maná eterno. O cálice
onde se bebe a poesia de Deus.

Quebraria pingentes azuis
de cascatas celestes,
e nuvens espelhadas
onde patinam anjos.

Não mereço o céu.
Quebraria o sol-gema
que é o coração do Pai.
E o mundo anoiteceria – Mea culpa!

Quebraria a rio de cristal
onde Cristo lava
o sangue das chagas.
E a lágrima-rubi de Madalena.

Sou céu de vidro
estilhaçado.
Tudo aniquilo
com furor da alma.

Tenho a força do amor
elevada à potência das estrelas.
Só o carinho suave
de suas mãos de artista

alteraria a rota
da poeta ardente.
Manipulando o vidro
na fornalha quente.

De tuas mãos de artesão
brotaria uma rosa lírica,
azul, assim, de harmonia.
Cândida. Etérea. Cristalina.

E o anjo me plantaria
em um ritual de lua
& sinfonia, para sempre,
em seu jardim.


- Bárbara Lia -

imagem - cenário de um espetáculo de Pina Bausch

¨¨¨¨

Sunday, March 06, 2005

Aves de arrebentação



Pássaros renascentistas
Libertados por Da Vinci.
Invadem as minhas pálpebras
Que meditam em silêncio
De monja e
Louvam as aves
Do terceiro milênio.
Mão destra de Leonardo
Pinta o sorriso
De uma Monalisa escura.
A aurora ausente
Do meu olhar
Que ele colore
Com luz de Florença.
E sobre músculo sofridos
Estriados de saudade
E febre de amor
Pulsa a inocência poética
Das mulheres que venceram
O jugo secular
E cruzaram as linhas
E romperam os laços
E abriram os braços
Aves de arrebentação
A flanar entre
As azaléias púrpuras
E o grito ardente
De libertação.


- Bárbara Lia -


Este poema está no meu livro "O sorriso de Leonardo" - Kafka edições baratas.


imagem do filme - never let me go


Saturday, March 05, 2005

8 de março

Fiz um chá de cerejas, gosto de cerejas, gosto de chá de cerejas, cerejas no bolo, cerejas no martini... Então escolhi cerejas e convidei a Jane Bodnar para estar aqui neste chá de cerejas com as borboletas, pois tá perto o nosso dia e quero convidar para o chá quem tem o perfil da mulher brasileira.
Jane tem um companheiro - Samuel - uma filha - a Luisa - batalha o pão de cada dia e escreve poesia.
Ah! faz yoga. Coisa que eu também deveria fazer... Jane é zen, calma, e tem belos poemas. Captei um que está em um pequeno livro que fizemos durante o Festival de Teatro de Curitiba em 2.002. Com poemas dela, meus, Pedro Carrano, Raul Penido, Renato Terra Azul, Carlos Barros e Paulo Venturelli.
- Poesia em cena - esta é a cena da Jane:


Coreografia

O roteiro das águas me assombra
quisera eu ser o coração de um pássaro
alojado em turbina, explodir em vôos
pulsar em beija-flor.

- Jane Bodnar

na fotografia: Jane Bodnar, Stella Posetto Rezende e Rollo de Rezende:

Friday, March 04, 2005



FRIDA KAHLO
Lembro o livro que lia meio à bruma de um tempo sem norte, lembro as palavras de Frida Kahlo e lembro minha alma espelhada em sua alma. Lembro que aquela carta que ela mandou para Diego Rivera era a carta da minha vida, de todas as vezes que amei e de todas que amarei, se tiver que amar ainda:“Minha noite é um grande coração batendo”. Minha noite era um coração maior que o coração de todos os poetas russos ou não-russos que andaram rasgando a carne, estourando os tímpanos, os russos, os belos russos, os russos que rasgaram a pele para escrever poemas e dormiram feito anjos, anjo Iessiênin. Neve... neve, não lá fora, não nas ruas de pedras de Curitiba. Havia neve dentro, um desabrigo, eu havia dito adeus a tudo, meus velhos disseram adeus, à minha revelia. Perder tudo e girar duas vezes os 360°. Isto inaugura dentro estas travessias de remos contra a correnteza. Eu não sei se alguém entende este emaranhado-catarse-cachoeira de coisas desconexas. Caetano Veloso disse que toda prosa tem que ser caótica. Eu quero o caos, eu vim para inaugurar o caos, eu quero o caos e só amo a escrita de quem provoca o caos, de alguma forma desestrutura, pois já saturei das estruturas, e foi naquele tempo que eu lia Frida Kahlo que eu queimei todos os contratos que eu tinha com esta sociedade materialista minimalista grotesca arquejante mortificante decadente hipócrita e franzina. Voei nas asas de seus véus da cor do México e decidi que era a reencarnação de Frida, pois, eu nasci quase um ano depois da morte dela, e tenho sido tão ela e tão parecida em tudo.Tivemos pólio, eu e Frida e ficamos sendo olhadas como as coitadinhas que nunca casariam. Quem disse que Frida e eu queríamos estes contratos? Queríamos a vida... Desejos! Liberdade! Cores! Muitas cores! E assim, incendiamos de desejo os meninos pela vida, e fomos mais mulher que muitas mulheres perfeitinhas, e eu fui Frida sempre, sem saber que Frida eu era, e fui colhendo coincidências, e fui ficando sempre mais, sempre mais perplexa e abismada. Eu tive os três filhos que ela desejava ter, e que ela chorou em telas, em cada aborto, em desespero de ver se perder o sonho, telas-gritos, os filhos sonhados antes, por Frida, eu os tive, como se neste tempo eu tivesse esta missão apenas. Três que de tão lindos e perfeitos e amigos eu nem consigo descrevê-los, escrever poemas em louvor e nem sei se conseguirei um dia. E eu me vi naquela tela de cinema, em uma noite, eu gelei na poltrona da Cinemateca, gelei ao me saber Frida, pois ela cortou os cabelos quando brigou com Diego, ela cortou-os curtos curtos. Eu havia acabado de cortar os meus cabelos, eu havia inaugurado o jeito de ser Frida, quando tive a primeira discussão com “meu Diego”. Diante de algo assim, estremeço. Eu não tenho ainda certeza – quem é Diego? Meu Diego Rivera terá que ser qual o de Frida, abraçar a pequena pomba, cuidar dela, e amá-la sim, sem ter medo de amar uma mulher sem medo, inteligente e livre. Eduardo Galeano disse isto quando fez sua leitura de Boca Del Tiempo, eu ouvi essas palabras - anotei-as em minha agenda - os homens tem medo das mulheres que não tem medo. O que fazer? Continuar livre, talvez procurar o real Diego... Pois já cansei de ouvir os anjos dizendo assim e meu Diego dizendo assado. Esquecendo os Diegos. Se fizerem o exame de DNA da minha alma vai ser 99,99999999% Frida Kahlo, este mínimo que me falta se faz filtro, as tintas filtrando em uma tela de nuvens, transformando telas em poesia, será por isto que Fernando Koproski disse que meus poemas parecem pinturas?
- Bárbara Lia -