Thursday, December 27, 2007

O SÁTIRO SE RETIROU PARA UM CANTO ESCURO E CHOROU

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O prodígio, a festa

Havia rosas na chuva
sob o portão da nossa casa.
Cascas de arroz pelo chão,
calendários, sermões, letras mortas;
Editais pregados nas paredes,
recuerdos, datas e aniversários.

Agora a letra viva
aclama e canta em festa o dia da volta

pródiga, agradece

(Um lobo arisco se afasta
arrastando na boca um pedaço de crepúsculo;
contra o albedo da lua vidra o olho
refletido em cacos de vitrais).



EROS HÓRUS

Teu desejo em mim
beija-flor na axila

sol negro de públis revolto
seios amados nas auroras do sonho

e quanto éramos febre
na usura de amar

olhos abertos na cama
ficando cinzas ficando

às vezes albatroz
outras, revoadas de colibris

teu desejo em mim
úmida flor de enseada

e dorso sabendo
à pêra e trigo

dorso que só a sombro do meu tronco
soube cobrir de sol



AUSÊNCIA

Calcei os teus chinelos
tomei o teu banho
cantei a mesma canção
chorei à janela do alpendre
como choravas
regando as plantas
com o meu pranto
pela última vez.

Agora conto da penumbra
na vigília impotente
venho arrastando-me
pelo teu cheiro
de lavanda nos móveis
e por teus olhos em toda parte

(Ontem colhi violetas
e outras flores sem importância
tingir o meu dia, tanger um sentido
na célula branca da inconstância)


O SEGREDO DO SILÊNCIO

"Jogavam-se nas tumbas sementes de painço e papoula
para nutrir os mortos que chegavam voando - - pássaros".
(Czeslaw Milosz)

Não pises assim a minha relva.
Não a manches com os cabelos
nem sais amargos dos teus olhos.
Só pés de brisa enluarada
poderiam supor pisá-la.
Seja leve, delicado
e até breve.
Não ores, não estou ali.

Alguém tocou o sepulcro e lhe deu este nome?
Canteiro.


Alguém tocou o meu corpo e lhe deu outro nome?
Semente.

Plantado à cabeceira do canteiro com cruzes,
sou árvore.

Árvore!

Depois,
pássaros me disseram que serei pássaro.
Depois vento, depois nuvem
então anjo, o teu arcanjo.

(Arcanjo
te abençoarei
sim,
saberei quase todos os segredos)


MÁRCIO DAVIE CLAUDINO
Curitiba - PR