Thursday, February 26, 2009

Para ler de manhã e à noite



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Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

BERTOLT BRECHT

Saturday, February 21, 2009

Como respirar nuvens

Magritte

....

Amava
como quem soluça
gesto repetido
dolorido
.
Para estancar
o trotear do ar
enchia-me de sustos
.
Só a ti
amo
como quem
respira
.
amo
sem sentir

nutrida
sempre .
.
Só a ti
amo
sem perder
o ar

o rumo
o lugar
;
Só a ti
BÁRBARA LIA

The Reader



The Reader é baseado no livro de Bernhard Schlink, de 1995. O livro tem alguns toques autobiográficos, segundo o autor. O filme, dirigido por Stephen Daldry, traz o encontro perfeito entre os atores David Kross e Kate Winslet. Como dançarinos que nunca se perdem na coreografia, como quem decorou todas as entranhas do labirinto. É assustador e ao mesmo tempo envolvente. O roteiro dos amantes e a própria paixão sai de foco quando chegam os questionamentos - O que mais importa? A lei ou a moral? O filme mostra o choque entre a geração pós-guerra e a geração que vivenciou e protagonizou o holocausto. A ênfase na importância dos livros captura os amantes dos livros e penso que só quem é leitor vai ter uma afinidade maior com este filmes, o peso que é dado, o merecido peso ao ato de ler, à importância disto na vida de alguém, no caso, na vida de Hanna, personagem de Kate Winslet. O livro faz parte da paixão, incorpora-se a ela e acaba por tornar-se um rito, um fetiche dos amantes. O livro, uma ponte que está acima das mazelas humanas e dos julgamentos.
O Leitor

estante #9


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Ponto de Oiá
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ela habita o nome
com que a batizaram
senhora de espadas
é chispa e chibata
em carne de escravo
é céu em desagrado
..
ela investe a noite
que não tem começo
luz de lobisomens
quando lança o raio
muda de endereço
faísca sem cansaço
.
ela inventa a hora
em que predomina
dona do ambiente
da vida dos ventos
ela participa
feitiço de pimenta
.
ela aumenta a fonte
de toda memória
risca sobre a areia
é faca de um magma
que a pele incorpora
íntima de artérias.

Wladimir Cazé
Micro afetos, edições K - 2005

Thursday, February 19, 2009

Uma imagem para Lia #5

O mar by Paula - minha primeira filha:

Leque de nuvens para o deus das ondas
.
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O leque de nuvens se reflete
na areia e mármore.
Alento de tarde pagã.
.
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Distante a carranca do deus das ondas
escureceu o mar.
.
.
O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim
.
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feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.
Bárbara Lia
in O sal das rosas

Monday, February 09, 2009

Uma imagem para Lia #2


foto - Tahiana Cláudia
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Acordei com desejos de unir fotos de amigos com minha poesia. Recebi algumas fotos de minha amiga Ana Mestre e entre elas uma que casa com algumas poesias do livro - A última chuva - Minha filha Tahiana é comissária e fotografou o céu acima das nuvens neste Azul. Quando vi a foto lembrei minha poesia - Mãos de abrir nuvens - que está nesta publicação do site Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=204

Uma imagem para Lia #1

foto - Ana Mestre (Portugal)

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A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade e
as cicatrizes de concreto.
No mundo não há quem leve,
como eu, este solar crepitar na alma.


Bárbara Lia

in A última chuva

Saturday, February 07, 2009

Juliana






Juliana é minha sobrinha bailarina, atuou por um tempo na Verve Companhia de Teatro - uma companhia maravilhosa que existe em Campo Mourão. Pude ver três espetáculos da Verve, a cada apresentação da Ju em Curitiba. Para mim eternamente Ju. Para a companhia - Juliana Pepinelli. Uma flor. Esta menina de cabelos negros. A outra bailarina de cabelos claros é Mariusa Bregoli, este é o espetáculo Gambiarra, vi também Truveja pra nós chorá e (C2H4)n - Plástico.
Literalmente - um show.

Isadora Duncan


"Meu corpo é o templo da minha arte. Eu exponho-o como altar para a adoração da beleza." - Isadora Duncan (1877 - 1927)

Thursday, February 05, 2009

Antonio Gades








"Yo no voy a anunciar la retirada, para nada. Me iré como he venido, como el viento. Ocurrirá cuando tenga que ocurrir, por selección natural, por propio convencimiento"

Antonio Gades

1936-2004

- bailarino espanhol de Bodas de Sangue e
Carmen.

Wednesday, February 04, 2009

Borgianas








DEUS NO ORVALHO

(para Jorge Luis Borges)


Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço - Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primaveras, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa.
A lágrima desce solar
ao lábio carmesim,
e o peito arde de amor e luz.

- do livro O Sal das Rosas

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O ALEPH AZUL DE BORGES

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Deixastes aqui teu coração
- Aleph azul
povoado de tigres brancos
e miragens,
que pulsa como esta Milonga Del Angel,
nesta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –

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Nuvens brancas a acenar certezas:
teu coração Aleph azul
permanece – no suave ritmo del sul.
Deixastes um Livro de Areias
- tu’alma -
nós todos virando páginas
deste deserto metafísico - noturno e trágico -
que leva à aurora nítida do reino da poesia.

..
Deixastes aqui teu coração,
Aleph onde trafegam signos vários,
e mesmo que tenhas imprimido sonhos
em grego, sânscrito ou aramaico,
deciframos – em alfa –
tuas mensagens de estrelas.
És um vaso vazio de segredos,
pleno de sóis & luas & signos da nobreza,
em uma azul sinfonia que teces
entre seus dedos, enquanto apontas:
.

A eterna água, o ar eterno,
flanando em um vale de sombras
e a inscrição brilhante com fios de ouro
- não existe tempo –
Guardiões do impossível
levamos ao pescoço a ampulheta
como homens-bombas
explodindo a vida,
sem seguir teus passos-acordes.
.
.
Cegos, não percebemos,
a inutilidade da areia que cai em conta-gota,
teu coração quer nos gritar isto -
Aleph azul que guarda segredos rojos.
Alguns o folheiam em prece, como anjos.
Eu o folheio, deslumbrada,
com a mesma cálida e reverente ternura
com que olhava abismada a estrela Vésper.
.
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Azul como teu Aleph coração.
Seta e sinal em meu caminho:
A estrela Vésper
e o Aleph azul de Borges.

Bárbara Lia

Monday, February 02, 2009

Claricianas




Para te escrever eu antes me perfumo toda.

Clarice Lispector (Àgua Viva)

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CLARICE
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Dois corações selvagens
na selva do impossível
tão perto que o respirar
deles é transfusão de sangue.
Depois da noite nuclear –
amantes

rompendo o ventre
da laranja mecânica -
a mostrar viva as entranhas

do céu,
nego-me a escrever versos

para amores lúgubres
plenos de tédio
de flacidez no olhar e no abraço
no passo e no sorriso
Depois de deus...
Quem me levará ao paraíso?
Prefiro o inferno na selva.
Dois corações selvagens

Perto.
Perto.
Perto.

(do livro - A Última Chuva)

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p/ Rebecca Loise



A porta do elevador se abre e todas as paredes mostram o rosto dela e as palavras. Clarice jovem, Clarice adulta, Clarice em suas últimas fotografias. A penumbra azul traz de volta um pensamento recente: O céu não é baunilha, luz, campos e regatos. O céu é uma penumbra. As mais belas horas vivi na penumbra. E Clarice me sussurra na penumbra "sinto que sou muito mais completa quando não entendo" e "viver ultrapassa todo entendimento". Entrei na penumbra azul da exposição de Clarice sabendo que em mim, como em tantos, nada permanece igual depois que se respira "o mistério e a chave do ar" - Clarice.
E a Estação da Luz fechou por alguns instantes (segurança papal). Não eu não quero ver o Papa, quero ver a palavra viva, fluída, que são regatos escondidos em gavetas escuras. E chorar lendo o poema de Drummond, que resume Clarice no último verso: mistério e chave do ar.
Há que se escolher o ar, e respirar puro. A exposição no Museu da Lingua Portuguesa - A hora da estrela - é pura penumbra, e ao mesmo tempo luz. As fotos que ela tirou em sua polaróide. E as inúmeras fotos de Clarice, sua obra, seus passos, seu itinerário completo. Não pude fotografar como fotografei a exposição da obra de Guimarães Rosa. Em um momento da entrevista dela, ela se confessa cansada. Impressiona. E como ela se mostra humana, frágil, impressiona. Então respiro o ar, a penumbra dos gestos e palavras e o pensamento volta. Vivi instantes de céu, na penumbra asséptica entre verdes lençóis, quando o filho nasceu e contra todos os prognósticos, viveu. Acordar em uma certa madrugada, esquecida de onde estava, da penumbra ver a luz pequena que cai sobre a mesa o vulto do amor a compor poemas - Céu. A penumbra de um porão salpicado de pétalas e poesias, a penumbra sempre... E toda a atmosfera delineia esta idéia que anda vagando em mim - é bem estranho o céu, é uma penumbra, caminhei pelo céu esta tarde. pelas relíquias, documentos, acervo pessoal, cartas, e sorrisos discretos dela. Clarice, a estrela.


(maio/2007)

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LENDO CLARICE LISPECTOR
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Mulheres
Sofrem meio às rosas
Espinhos escondidos
Em seus cabelos
Seios nus
Beijados pelo amado
Lençóis ao vento
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera


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Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre


Bárbara Lia


(do livro - O Sal das Rosas)