Saturday, April 28, 2012

PRÊMIO CATARATAS DE CONTOS E POESIAS


Recebi uma bela notícia da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, sobre o PRÊMIO CATARATAS DE CONTOS E POESIAS. Minha Poesia "Holocausto dos Livres" ficou em Segundo Lugar. A entrega do Prêmio será durante o Salão Internacional do Livro Foz do Iguaçu - 2012.
A poesia abre as asas e me leva para todo lugar. Até o final do ano duas antologias especiais, uma delas é parte do Projeto - Café, Leite Quente e Poesia. Evento que inaugurei com Edson Falcão no final de 2010 com o tema Sublime x Pitoresco. Alguns poemas sublimes vão entrar neste livro. Projeto organizado pelo Elisson Silva no Paço Liberdade, espaço do SESC aqui em Curitiba. O fio da Poesia não desata. VIVA A POESIA!

Thursday, April 26, 2012

Parisbiru


Peabiru na Primavera - Foto de Adelaide Ganassin


Peabiru é o meu refúgio mágico. Minha Pasárgada. Éden antigo. A felicidade andava colada ao meu ombro direito quando eu vivia ali. Eu vivi ali dos cinco aos dezesseis anos. Foi ali que cursei todo meu ensino básico. Quando eu fui para o Ensino Médio (atual) meu pai decretou que minha inteligência ia ser desperdiçada se eu cursasse a Escola Normal. Acho que meu pai desviou meu destino que era para ser professora desde sempre e escritora há muito. Tenho uma parcela de culpa pelas minhas exageradas notas em Matemática. No último ano do Ginásio eu tirei dez em três bimestres e no último, como eu já havia mesmo passado de ano, eu tirei 9,5. No ano que o Brasil se sagrou Tri-Campeão no México, comecei a estudar o Científico na vizinha cidade de Campo Mourão. De ônibus de linha, com minha irmã Tere, Solange a filha do Prefeito, Delcimar que era filha do dono do cartório, a Eugênia, uma pessoa de uma candura imensa que eu nunca mais vi. Meu pai era um sonhador que vivia mergulhado em livros e só saia para medir terras (ele era agrimensor) quando o dinheiro estava acabando, naquele ano ele foi à luta para possibillitar que duas de suas filhas viajassem todos os dias para concluir o curso. No final do segundo ano ficou mais prático ir viver em Campo Mourão, onde os filhos foram em busca de trabalho, inclusive eu, aos dezesseis anos. Aos dezenove anos eu me formei em Estudos Sociais. Havia deixado para trás aquele reino encantado, que se chama Peabiru. Um destes lugares para onde as pessoas sempre voltam, onde todos tem histórias, memórias, ligações. Uma cidade que para mim sempre foi bela, apesar da pobreza, apesar da infância de menina com sequelas de poliomielite, apesar da ausência de coisas que as crianças tem hoje em dia. Havia a montanha de serragem de uma laminadora onde a gente descia como quem esquia na neve. Haviam as beneficiadoras de café, e nos tempos de total falta de grana, escolhíamos café, os filhos todos ao redor de uma mesa imensa. Havia o Cine Vera e filmes todos os domingos, pois meu irmão mais velho era o Alfredo da nossa cidade... Qual no filme Cinema Paradiso, ele era o moço que projetava os filmes. A primeira vez que minha irmã me tomou pela mão e mostrou o menino bonito, vestido de verde, além de  uma cerca verde, em uma cena que lembra - Grandes Esperanças. Aquele filme de poesia verde com Ethan Hawke. O mistério de uma infância só mesmo os anjos entendem. A poesia Chá para borboletas que evoca o quintal da vizinha. O Tejo que nunca passou pela minha aldeia, na tarde em que adentrei um riacho lindo, de água rasa, coberto por galhos imensos de uma árvore exótica. O medo das vacas na chácara do leiteiro. A chegada do caminhão de mudança naquela casa pequena que era a última de uma rua que ficava de frente para a rodovia e aquela resposta do meu irmão protetor, quando eu apontei a sequência de casas lá no alto e perguntei...
- O que tem lá?
E ele respondeu sem titubear...
- A fazenda Santa Rita.
Eu tinha onze anos e via aquelas senhoras de rostos pintados que atravessavam a cidade em charretes como se a gente ainda vivesse em um filme de faroeste. Elas eram as prostitutas e viviam naquele aglormerado de casas, que por um tempo eu acreditei piamente que era a Fazenda Santa Rita. A cidade com seus costumes, a vida rígida.
Bateu este banzo, este texto que alguém pode até dizer - piegas - mas, encontrei toda gente neste tal de Facebook; Na comunidade com o nome da cidade, que alguém comparou com Paris, preciso saber quem para dar o devido crédito. No final, todos os que passaram a infância e adolescência lá sabem que lá é uma cidade Luz, nossa Meca, nosso lugar... Acho que vou retirar da gaveta aquele livro de memórias e retomar o traçado dos momentos de ouro, a risada do pai ecoando pela sala, o barulho da máquina de costura da mãe uma canção de beleza, meu irmão imitando o Elvis em um topete, as minhas irmãs enfrentando pai e avó para usar uma mini-saia e as estrelas cadentes rasgando as noites silentes.

Wednesday, April 25, 2012

poesia roubada


Quando encontro uma frase, um texto, um poema que amo, eu roubo para mim...
Quantas poesias a gente lê e pensa - é tudo que eu queria dizer...
Hoje eu encontrei esta bela poesia do Miguel Torga no Facebook, o meu amigo Leonardo Paiva de Pedralva postou e eu "roubei"... e lembrei a canção do Milton Nascimento, a ARTE, que seria de nós sem a ARTE?




Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo, 
Não respondas 
Às urgentes perguntas 
Que te fiz. 
Deixa-me ser feliz 
Assim, 
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria... 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada.

(Miguel Torga)





Monday, April 23, 2012

Dia do Livro






Hoje é dia do livro. Decidi presentear os leitores da minha página.
1 exemplar do livro - A flor dentro da árvore - Poesias
1 exemplar do livro - Constelação de Ossos - Romance
3 livros artesanais - Chá para as borboletas, NooN e Para Camille, com uma flor de pedra.
A escolha de qual livro deseja receber é de quem comentar primeiro. Basta deixar o nome e o título... e enviar um email para mim, com o endereço para remessa.

Feliz Dia do Livro a todos!

e-book: sim ou não?



Nos últimos meses recebi meia dúzia de convites para editar meus livros em e-book. As editoras que estão entrando neste mercado apostam neste caminho. Eu vejo o e-book da mesma forma como vejo os livros tradicionais e foi a minha resposta a um dos que fizeram a proposta para mim. Colocar no site Amazon, é legal, mas, as pessoas seguem adquirindo livros de autores consagrados. E as editoras não se propõem a divulgar sua obra, é uma tarefa que acaba sobrando para você. Acredito na mudança que ocorre, pretendo algum dia publicar neste formato. Para um futuro breve, sim. Analisar com cuidado e tentar um editor que confie na tua obra e diga que viu potencial nela, e por esta razão, ele mesmo a publique. Na verdade não tenho como investir nestas demandas por ora. Tive outra crise de hipertensão em março e isto está preocupando a mim e meus filhos. Tudo que tenho e que a Literatura concede eu investia na Literatura, no momento tudo que tenho e o que não tenho vai para médicos, remédios e plano de saúde...
Voltando ao e-book... Um pequeno livro meu está no Site Germina. Lindo, eu adorei esta possibilidade. No entanto, ainda não me encantei com as propostas. Para isto é preciso tempo. Esperar que alguém confirme o diferencial de seu trabalho, então, colocar os poemas em livros digitais. Deixar os livros impressos para as bibliotecas, os museus do futuro? Não, não creio. Os livros são eternos.
Hoje é Dia do Livro! Tudo a ver falar em livros e Tolstoi.
Sigo pensando nisto, na importância dos livros. Meus amigos e infância, companheiros de juventude, abrigo na maturidade. Estou imprimindo os livros da coleção 21 gramas em seu formato definitivo. É vital para mim sentir entre os dedos, a materialidade, esta poesia em algum lugar que não seja minha alma e a internet. Não sou blogueira e não creio em uma categoria = poesia virtual = poesia é poesia. Não importa o veículo onde ela trafega para chegar do autor ao leitor. Não existe divisão, não há como fatiar a poesia. Sou toda palavra, sou tão palavra que não curto os concretistas e não sou fã da dita Poesia Visual. Gosto dos descaminhos do verbo, dos labirintos das metáforas, dos vôos que as imagens imprimem, palavra a palavra.
Sigo em dúvida quanto aos e-books, com a certeza absoluta que milhares seguirão adquirindo e-books de Paulo Coelho e livros/chá de capim cidreira. O que é afinal um livro de auto-ajuda? Um chá que dá uma sensação de bem estar em um segundo e depois os sintomas estão todos lá. A única coisa que cura o Homem passa pelo AMOR. O único real, assim, com letras grandes. Neste final de semana assisti ao filme - A última estação. Uma maravilha que joga para debaixo do tapete as coisas pequenas, as dúvidas, todas as alegrias e insatisfações. As grandes causas diluiram - uma a uma. Nada como um filme assim para apontar o essencial. Enquanto não defino meu caminho quanto aos e-books, sigo imprimindo os artesanais e A flor dentro da árvore. O novo livro de poesias (fotogramas em flor de algodão) deve encontrar uma editora "normal", bem como o romance que terminei em 2012. Não vou publicar o título, quem sabe eu esqueça a promessa de nunca mais participar de concursos e o envie para um concurso de romances. Enquanto os dias navegam cinzentos, construo um novo enredo, mais que atual, em tempo real. Envolve uma garota sem memória, as comunidades autossustentáveis e otras cositas más...

"as coisas pequenas vazam
choro por elas, uma noite talvez..."

versos da minha poesia - O que me pertence.

Deixo os e-books para o futuro e fico meditando os passos de Tolstoi...


Sinopse do filme - A ÚLTIMA ESTAÇÃO:
1910. Yasnaya Polyana é propriedade de Leon Tolstoi (Christopher Plummer), no entanto ele rejeita a propriedade privada e defende a resistência passiva. Por isto, apesar de ser um dos maiores escritores do mundo, alguns o vêem como algo maior, um santo vivo. Já bem idoso vive lá com Sofya Andreyevna (Helen Mirren), sua esposa. Tolstoi centra a atenção em espalhar sua doutrina com o seu melhor amigo, Vladimir Chertkov (Paul Giamatti), que funda o movimento mundial tolstoiano, cujo quartel general fica em Moscou. Lá Chertkov entrevista Valentin Bulgakov (James McAvoy), que, apesar de ter 23 anos, ambiciona ser o secretário particular de Tolstoi e consegue o cargo. Como Chertkov está impedido de ver Tolstoi, cabe a Bulgakov ir até Yasnaya Polyana e servir de ponte entre Leon e Chertkov. No caminho Bulgakov para em Telyatinki, uma comuna tolstoiana criada por Vladimir Grigorevich como centro do movimento. Lá todos são iguais, seguindo os ensinamentos de Tolstoi. No dia seguinte, Bulgakov chega em Yasnaya Polyana e sente logo que Leon e Sofya divergem bastante. Apesar dela não exigir ser chamada de condessa e Tolstoi, obviamente, não querer ser tratado como conde, há um ar aristocrático em Sofya, que há anos não aceita os objetivos do marido, desde que seu trabalho como novelista se tornou secundário. Após algum tempo, Chertkov vai até Yasnaya Polyana e fica claro que ele e Sofia se suportam (na melhor das hipóteses), pois ela acredita que existe um novo testamento, no qual seu marido cederia seus bens (inclusive os direitos autorais de seus livros) para o movimento mundial tolstoiano.

Friday, April 20, 2012

a flor dentro da árvore - bárbara lia

detalhe do vestido de emily dickinson em foto de annie leibovitz


“A real cicatriz você tem?”


Signo de Salomão
Na palma
Napalm na pele
Da alma
Tatuagem recebida
No berço
Caligrafia de Deus
- Risco estrela -
Que oblitera a pele canela
O mel de flor evaporada
Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete
Em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore/2011

el río de mi aldea



El Tejo nunca pasó por mi aldea.
Tierra roja y sol.
El río me bautizó niña
Quedaba al final de la calle
En la chacra del lechero.
Primero a abrazar y helar
Las delgadas piernas.
Río con gusto de Dios.
Adulta, crucé ríos de dimensiones marítimas.
Puentes inmensas que no conducían a Dios.
Dios vive en las pequeñas cosas.
Los grandes ríos son catedrales.
Dios, a veces se exilia.
Recorre millas
Para acariciar ángeles
En arroyos tristes.

Bárbara Lia
Cantata Fugace - 21 gramas/2012




Paul Cézanne








Tuesday, April 17, 2012

Série: Os Manequins


(...)

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

(...)
Luisa Neto Jorge
fragmento do poema - Difícil poema de amor.
http://www.truca.pt/raposa_textos/palavras_124_luisa_neto_jorge.html

Série: Os Manequins


corset laced manequins



o manequim de dentro reflexo do manequim de
fora. Se você me olha bem, me vê também no
meio do reflexo, de máquina na mão.

Ana Cristina Cesar

Série: Os Manequins

Via Blush



Os Mannequins de Munique
Sylvia Plath




A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.

Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

tradução - Cláudia Roquette Pinto



Série: Os Manequins

imagem - hippie chic designs



Afinidades


A costureira, moça, alta, bonita
ancas largas,
os seios estourando debaixo do vestido,
(os olhos profundos faziam sombra na cara),
morreu.
Desde então, o viúvo passa os dias no quarto olhando pro manequim.

Murilo Mendes
                                                    

Saturday, April 14, 2012

Poesia = Interesse Vital e Universal



Poeta quer dizer possesso. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como uma flor ou uma estrela.

Teixeira de Pascoaes, Portugal - 1877/1952

A estátua de Teixeira de Pascoaes situa-se na freguesia de Gatão, Concelho de Amarante - Portugal

Thursday, April 12, 2012

7 quedas


"Foi a maior cachoeira do mundo em volume de água, isso mesmo, foi! Isso porque em 13 de outubro de 1982 as comportas da recém criada Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas para a criação da represa de Itaipu inundando as quedas d’água. Para se ter uma ideia de sua grandeza basta compararmos a taxa média de fluxo anual dela com as Cataratas do Niágara (a maior em volume de água atualmente), a Sete Quedas tinha um fluxo de 13.300 m³/s enquanto as Cataratas do Niágara tem hoje 2.407 m³/s. Ela se localizava na fronteira entre o Brasil e o Paraguai fazia parte do Rio Paraná, hoje ela esta localizada no fundo do lago artificial de Itaipu.
As Sete Quedas podiam ser consideradas uma das maiores maravilhas naturais, era uma verdadeira pintura de Deus. Era Constituída por 19 cachoeiras principais divididas em 7 grupos de quedas. A cidade de Guaíra foi construída em 1940 para aproveitar a potência turística da região, foi nessa época que o Brasil e o Mundo começaram a conhecer o Salto Guaíra (outro nome dado ao Salto de Sete Quedas)."

(Hoje recebi um e-mail de um ex-colega de trabalho, Silvio Galli, relembrando uma viagem de 1974, quando visitamos este lugar lindo em uma excursão. Visitei 7 Quedas e sempre penso nisto como uma dádiva, ter tido a chance de conhecer esta maravilha da natureza que deixou de existir)

Wednesday, April 11, 2012

“O pedigree do mel não diz nada a uma abelha”
Emily Dickinson



O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada

Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore / 2011
pg. 10


A flor dentro da árvore
Poesias
Bárbara Lia
ed. do autor
apresentação do poeta Sidnei Schneider
capa - quarto de Emily Dickinson em Amherst
 
vendas - edicoes21gramas@gmail.com

Tuesday, April 10, 2012

A síndrome dos sonetos

Garden under snow - Paul Gauguin


A Neve

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"



Canto da Neve


Estendi a toalha branca sobre tudo
No pátio pequeno, de luxos desnudo
O silêncio da casa a dizer-me com dor
Da morte do homem velho, o pastor

Guardador de rebanhos raptor de Deus
Guardador de rebanhos de alma natural
Que falta sinto da tua voz e olhos teus
Eu que morro sempre como lesma ao sal

Alberto Alberto sopro de natureza e sonho
Amigo das lavadeiras, rios e animais
Espectador do crepúsculo de antanho

A cada ano que estender minha toalha alva
Junto uma lágrima em forma de estrela dalva
A gritar em dor a brancura dos meus ais

Bárbara Lia
soneto da série - O fim do futuro.


Durante o ano de 2011 vivi a sindrome dos sonetos, escrevi uns dez sonetos, emprestando a voz dos personagens dos poemas de Fernando Pessoa, em tom de despedida... no soneto acima a Neve canta a sua saudade de Alberto Caeiro. No Jornal Rascunho edição março 2012 (link ao lado) é possível ler mais três sonetos desta fase...

Thursday, April 05, 2012

Cenários


praia do cassino - foto eduardo wilckboldt

- cenário de um dos encontros entre Pablo e Serena no livro Solidão Calcinada -


Bairro Peixoto (Copacabana-RJ) foto Cris Isidoro
Bairro onde vive a personagem Bárbara de Solidão Calcinada. Não é minha biografia este livro, mas, até alguns amigos que sabem que nunca vivi no Rio de Janeiro leram o livro e pensaram que era minha vida. Ainda não contei a minha história.


Centro Histórico de Curitiba - Largo da Ordem - foto Washington Cesar Takeuchi
A personagen Lynx do meu romance - Constelação de Ossos - atravessa a extensão desta rua de pedra em uma das cenas do livro. É o ambiente da cantora de bar, ela trabalha e vive nas proximidades...


Estrada da Graciosa, dá acesso ao bangalô da personagem Nyx, de Constelação de Ossos, na Serra do Mar



Hotel e Restaurante Nhundiaquara - Igor, Lynx e Nyx almoçam neste lugar em uma das cenas de Constelação de Ossos


Wednesday, April 04, 2012




Para Camille, Com Uma Flor De Pedra

Em seu artesanal, delicadamente amarrado com fita de cetim laranja, recebi "Para Camille, Com Uma Flor De Pedra", esculpido pelos dedos hábeis de Bárbara Lia, querida escritora paranaense, das que honram o solo fértil e abençoado, barro que enlameia de emoção, quais as estátuas de Camille e Rodin.
A flor de pedra de Camille é branca, o solo pisado é duro, marmóreo, esculpido em cinzel de prata, em ágeis pinceladas no teclado moderno, contemporizando com o rústico - liso e firme das estátuas em tenro amor-paixão dançando nos olhos vítreos e catalogados azuis de Camille pela ótica não menos carmim de Bárbara Lia.
Camille em francês, Bárbara em português. Distintas línguas, mesma linguagem do amor, da dor, da alma transfigurada em poesia. Assim se apresenta nossa poeta maior: Com Uma Flor de Pedra Para Camille e lia em seu rosto qual performance de Rodin a copiar o sereno das mãos feminis em seus arquétipos e ideais.
Na progressão da obra, Bárbara Lia narra o sofrimento de Camille, uma obra com início, meio e fim. Narrativa poética trágica. Uma estética, uma arte revelando outra arte. A dramaturgia. Um sentimento desvelando tantos outros em pequenos textos ajeitados nas poucas páginas, como perfume francês, menores frascos, melhores fragrâncias e estas são com notas florais, ornando mármores e barros, gentilmente, trabalhados e talhados por mãos de vontade de amor.
Passeando pelos jardins, Sakountala, Rua Notre-Dame-des-Champs, L'Implorante, L'âge Mür (não podem faltar rosas), Hamadryade I com "guirlandas de nenúfares", Hamadryade II "rio petrificado e Danaê alva no ateliê escuro", Le Dieu envolé com todas as pedras talhadas "ignorando o burburinho e voando na sombra" levando almas até Nióbide blésse com o cio insuportável dos felinos, os loucos acordam suas almas sentidas e acenam à Latona, a Deusa da noite clara, num clamor tardio, era tarde, o líquido vermelho escorregadio levou o amor a desaguar em cinzas nos jardins de Ville – Èvrard, nada a fazer, os lençóis de seda se evaporam e o olhar vazio se perde no vácuo dos dias, esperando a Senhora da Noite, levar com pugência seu parto, sua dor, o amor não acabado e vilipendiado pelo egoísmo do amante, que não tinha pés nem mãos, Camille era suas mãos é pés, seu caminho, por isso temia, por isso aniquilava. O horror da superação foi maior, neste instante, mas o verdadeiro se instala pela História e segue nas letras dos poetas sinceros da arte do amor esculpido em tenras folhas amarradas pelos cetins, que a pedra imberbe não corta, respeita e se encolhe. Pois pedras são areias escorrendo pelas mãos, quanto mais seguras, mais escorrem e não morrem, formam o uno indivisível neste deserto de frio de vento forte em ventre vazio.
Com Uma Flor de Pedra. Damos à Camille, neste instante, toda flor e perfume, na maciez da seda, novo amor, novo lume. Mulher solidária, amante da arte, está frente ao tempo ido e louvamos Camille, estorvamos espinhos, acenamos às rosas e passeamos pelos jardins de Ville-Évrard, calmamente, loucamente amando e criando fantasias, através do amor humano e real. Bárbara, só temos a agradecer, por ter suscitado esta história, para que a pudéssemos reviver, em outras esferas, outras eras, com mais pudor, mais alvorecer, mais luz e lume a aquecer os corações partidos, que se agigantam fugindo dos redemoinhos do egoísmo ancestral. Podemos passear pelos cenários, podemos interagir e sentir podemos, antes de tudo, partilhar.
Bárbara mergulhou nas ondas de Camille (The Wave - 1897) e trouxe nas bordas das marés textos rebordados, estranhamente buscados no fundo d'alma.

Professora Kátia Torres Negrisoli – Adamantina (SP)



Sakountala
 
 
Cinzel de prata esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de cabelo do amor

Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão.

Rodin!
Rodin!

Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-

esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito

Tantos pés
emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora

Sei!
Tudo isto
é mármore!


Antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado

Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore.

Bárbara Lia
Para Camille, com uma flor de pedra
21 gramas - inventário poético by Bárbara Lia
texto de apresentação Kátia Torres Negrisoli
desenho da capa: Brenda Santos - http://oscaprichosdemaria.blogspot.com.br/

Tuesday, April 03, 2012

A poeira do tempo - Angelopoulus



A verdadeira utopia é a terceira asa do anjo.
Não encontro um vídeo com legenda em português.
O enredo deste filme de Theo Angelopoulos - Um cineasta americano, de ascendência grega, realiza um filme que conta a sua história e a dos seus pais. O filme se desenrola na Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e E.U.A. Uma história que é, ao mesmo tempo, uma grande viagem por acontecimentos dos últimos cinquenta anos que marcaram o século XX.
A história de amor de seus pais traz uma dança ao lado de um rio, separações e reencontros. Na atualidade o cineasta, recém-separado, luta para entrar em contato com a própria filha. Não o contato físico, mas, aquele conhecimento de alma a alma, o encontro necessário. Willian Dafoe e Bruno Ganz estão magníficos neste filme. A poesia baila e é a poeira do tempo. O cineasta morreu há pouco tempo, e a frase dele imprime a importância deste filme...
“A casa é onde nos sentimos em equilíbrio”

+ sobre o cineasta Theo Angelopoulus:
http://abraccine.wordpress.com/2012/01/27/theo-angelopoulos-1936-2012/