Tuesday, April 30, 2013

A arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua Antologia Poética - Antologia organizada pelo poeta de Maputo Amosse Mucavele




Editada pelo Movimento Literário Kuphaluxa, organizada por Amosse Mucavele. Prefacio do Prof. Paulo Seben de Azevedo, UFGRS. Capa do pintor cabo verdiano Mito Elias. 


Os Poetas:

Micheliny Verunschk , Eduardo White, Alberto Estima de Oliveira, Ana Mafalda Leite, Bárbara Lia, José Luís Hopffer C. Almada, José Inácio Vieira de Melo, Léo Sidónio de Jesus Cote, Danny Spínola, Donizete Galvão , Luís Carlos Patraquim, Abreu Paxe, Luís Ferreira, Il Bonde, Luís Serguilha, José Luís Mendonça, Paula Virgínia Andrade Vasconcelos Lopes, Mia Couto, Alberto Riogrande, Rita Dahl, António de Névada, Camila Vardarac, Marília Miranda Lopes, Maria Ângela Carrascalão, Frederico Ningi, Jorge Melícias, DINA SALÚSTIO, Gociante Patissa, Cláudio Daniel, Emmy Xyx, Filinto Elísio Correia e Silva, José Carlos Moutinho, Jorge Arrimar, Yao Jingming, Maria Teresa Horta, Mario Lúcio Sousa, Miguel Almeida,Nina Rizzi, João Melo, Lau Siqueira, Frederico Matos Alves Cabral, Guita Jr, Cláudio Portella, Vera Duarte, Victor Sosa, Sangare Okapi, Zetho Cunha Gonçalves, Luis Avelima, Rolando Chagas Alves, Izidine Jaime, Alberte Momán Noval, Marcelo Ariel, Conceição Lima, David Capelenguela, Dinis Muhai, Lurdes Breda, Margarida Filipa de Andrade António Fontes, João Rasteiro, Eduardo Quive, Fernando Aguiar, Décio Bettencourt Mateus, Maria João Cantinho, Wilmar Silva, Jõao Tala, Mbate Pedro, Aurelino Costa, Luís Kandjimbo, Ademir Assunção, Miguel Ángel Alonso Diz, Victor Burity da Silva, Amosse Mucavele, Maria Helena Caldeira Marques de Morais Sato, J.A.S.LOPITO FEIJÓO, Carlos Marreiros, Affonso Romano de Sant'Anna, Adelino Timóteo, Ary dos Santos Vera Jardim, João Maimona.

***

"Ousado projeto, grandioso, como compete a quem empunha a pena do "Luís de Ouro" ( Carlos Drummond de Andrade), "Camões, grande Camões" (Manoel du Bocage) e quer dizer ao mundo as novas armas e os novos varões assinalados que da ocidental praia lusitana; da americana praia brasileira; das africanas praias guineenses; cabo-verdianas, são-tomé-e-principenses, angolanas e moçambicanas; das indianas praias goenses; das chinesas praias macauenses; e das oceânicas praias timorenses; por mares, ares, sites navegados à exaustão, passaram ainda "além da mágoa" e "em esforços e guerras" — com a palavra — "conquistaram" novas formas de expressão."

Fragmento do Prefácio - A arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua Antologia Poética  -
Paulo Seben - Doutor em Letras e professor adjunto de Literatura Brasileira do Instituto de Letras da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritor, publicou, entre outros, Tango da Independência (1995), Caderno Globo 33 (2002), Poemas Podres (2004) e Dicionário Gremista (2010). Ultimamente, tem adaptado, para neoleitores, clássicos da Literatura Brasileira e Universal.

Sunday, April 28, 2013

Adamare







Adamare - coleção 21 gramas - Seguindo com as publicações no ISSUU 

Saturday, April 27, 2013

No Sofá de Jung n° 1


foto: Cesar Barreto




Um casal em lua de mel no Rio de Janeiro voa em direção ao Pão de Açúcar. Uma mão grande e branca alcança a mão da mulher e segue junto no voo. Depois, entra na vida deles como parte de um triângulo estranho.
Antes, em um restaurante a decoração incluía fotos antigas. Uma das fotos tinha anotações no verso dizendo que era alguém de Peabiru e eu achava que era minha mãe... A dona do restaurante não se importa que eu leve os adereços da mesa.
O sonho era sépia.

Bárbara Lia

Thursday, April 25, 2013

50 Tons (POÉTICOS) de Cinza. A Poesia Nossa de Cada Dia. 50 Poetas falam do Cinza.


CINZA & CINZAS - 50 poetas   - O cinza de cada um.






A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade
e as cicatrizes de concreto.
No mundo não há quem leve,
como eu,
este solar crepitar na alma.

Bárbara Lia
A última chuva / ME-2007



Poeira, cinzas
Ainda assim
Amorosa de ti
Hei de ser eu inteira
Hilda Hilst




vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
                      coxas imberbes & brancas.
           vou dilapidar a riqueza de tua
                      adolescência. vou queimar teus
                      olhos com ferro em brasa.
                vou incinerar teu coração de carne &
                                 de tuas cinzas vou fabricar a
                                 substância enlouquecida das
                                           cartas de amor.

Poema XIV, Roberto Piva




            Sombra dos dias que virão


A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
Me vestirão com cinzas da madrugada,
Me encherão a boca de flores.
Aprenderei a dormir
Na memória de um muro,
Na respiração
De um animal que sonha.

Alejandra Pizarnik




5.

mais um dia
que pode ser
cinza
ou branco
sem cor até
um pedaço de céu
pela janela
ínfimo trisco
de céu

Karen Debértolis



CHOVE

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Ana Cristina Cesar
Novembro 65. Do livro Inéditos e Dispersos






A água se ensina pela sede;
A terra, por oceanos navegados;
O êxtase, pela aflição;
A paz, pelos combates narrados;
O amor, pela cinza da memória
E, pela neve, os pássaros.

Emily Dickinson

                                    


AS CINZAS DO NEAL

Delicados olhos que pestanejavam Rockies azuis são cinza
mamilo, costelas que toquei com o polegar são cinza
boca que a minha língua tocou uma ou duas vezes é cinza
bochechas ossudas suaves na minha barriga são escória, cinza
lóbulos e pestanas, palma máscula, coxa de liceu,
braço bicep de baseball, oho do cú anelado em pele sedosa
tudo cinza, tudo cinza outra vez.

Allen Ginsberg
Agosto 1968


DECISÃO


Dia nublado: dia cinzento

fico
de mãos bobas
esperando o leiteiro

o gato de uma orelha
lambe a pata cinza

e ardem brasas em chamas

lá fora, vão ficando amarelinhas
as folhas da trepadeira
uma fina fita de leite
embaça garrafas vazias na janela

nenhuma glória provém

duas gotas se equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na casa ao lado

ó se arca de espinhos

o gato afia as garras
o mundo gira

hoje
hoje não irei
desiludir meus doze engalanados examinadores
nem cerrarei meu punho
na ironia do vento.

SYLVIA PLATH

the translation by ELSON FRÓES was published in the newspaper POIESIS nº 38, Rio de Janeiro, Brazil, l996, page 7





INTERIOR


Espalha uma festa tímida
A lâmpada em nosso quarto.
Calma dourada e cinza, 
Silêncio e suave enfarto!

Longe do mundo, a hora roubada
Pedimos, quem saberia
Que o amor é uma flor atrasada
A abrir no que resta ao dia.

E se o mundo entrasse em cena
Com ciúmes e malícia,
Partiria com uma vénia
Levando pena e um sorriso

Hart Crane
- tradução de Selphi Alter
                                                           





A Extraordinária Aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha
_fragmento.



Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta²,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.

¿O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.






EPÍGRAFE

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz. 
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis. 

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão, 

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu: 

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
- Esta pouca cinza fria. 

Manoel Bandeira





O LEÃO


Flor carnívora
ele aquece a paisagem:
sol sobre cinzas
sal
sugem.
Apenas uma carícia
cabe no seu nome,
faro aceso
a contrapelo,
e uma mulher de luz
chupa-lhe o mastro.
Simétrico e circular,
o seu rugido
fere tulipas,
pequenos coleópteros,
enche copos, cálices, calas.
Ácido e doce
amamenta todas as suas fêmeas.
Depois dorme,
cidade inexistente.






"Eu sorvo o haxixe do estio
E evolve um cheiro, bestial
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes - de cinza e brasa."

Pedro Kilkerry





Uma manhã enevoada, em julho. Um gosto de cinza voa no ar, -um cheiro de lenha exalando-se da lareira, -as flores maceradas, -a desordem dos passeios, -a garoa dos canais pelos campos –porque não agora os brinquedos infantis e o incenso?

Rimbaud






Descoberta


Creio na grande descoberta.
Creio no homem que fará a descoberta.
Creio no temor do homem que a fará.

Creio na palidez de sua face,
em sua náusea, no suor gelado sobre seu lábio.

Creio em seus encontros incendiados,
reduzidos a pó,
queimados até a última cinza.

Creio nas cifras dispersadas,
espalhadas sem lamento.

Creio na pressa do homem,
na precisão de seus gestos,
em seu livre arbítrio.

Creio nas lousas fracassadas,
nos líquidos derramados,
nos raios esmaecidos.

Afirmo que acontecerá,
que não tardará
e que ocorrerá na ausência de testemunhas.

Ninguém saberá, disso estou segura,
nem a esposa, nem a parede,
e nem mesmo o pássaro – poderia cantar.

Creio na mão que não se sustenta,
creio na carreira despedaçada,
creio no trabalho de muitos anos desperdiçado.
Creio no segredo levado à tumba.

Estas palavras fazem-me velejar sobre as regras.
Não buscam apoio em exemplo algum.
Minha fé é forte, cega e infundada. 


Wisława Szymborska


(in Todo caso, Varsóvia, 1972, trad. do it. joão monteiro)
(in Ogni caso, trad. italiano Pietro Marchesani, Milão, Libri Scheiwiller, 2009)





                           A perdição




porque estou arrependido
de cinzas cobrirei a cabeça
os pés lavarei com água benta carismal
com cacos de telha a epiderme rasparei
porque estou arrependido
a boca encherei de pedregulhos
as costas açoitarei
um cilício na cintura o sexo prenderá
os rins amortecendo
em cruz abertos braços jejuarei
7 dias 7 noites
comendo pão ázimo de judeus
gafanhotos mel
porque estou arrependido
conhecerei a Av. São João
da Cruz ou Evangelista não sei
e na primeira praça pública me despirei
em sinal de humilhação
porque estou arrependido
vomitarei nas portas das igrejas
nos umbrais dos cemitérios defecarei
que tudo é pó diz o Testamento
e se quiserem saber por que estou arrependido
não me perguntem.

– ah, perdida geração,
o último avião passou e nos esqueceram
na plataforma nos deitamos
esperando
esperando
esperando
Orlando Parolini




Esquecimento

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!

Florbela Espanca





recolher as cinzas
soprar
(memórias)
é tempo
de esvaziar 
a casa 
que 
o esquecimento
quer entrar
mas não encontra
lugar

Nydia  Bonetti





FÊNIX

Esgota-me até o osso,
Mas não agora, não ainda.
Deixa-me que antes eu repita
A história de antigas religiões
E que eu exercite minha fé,
Mesmo que Deus não exista.
Arranca-me o que possuo
Antes que venham os outros
E que tua força me soterre
Sob um monte de cinzas.
Faz-me livre de perguntas,
Como se nada mais pudesse ser dito.
Dá-me o abraço do adeus
Na hora que me foi prometida.
Eu terei retornado à minha origem,
Selando em mistério o indício da partida,
A cabeça despovoada de nuvens,
As chagas caladas em cicatrizes.

Mariana Ianelli
(Do livro Fazer Silêncio, ed. Iluminuras, 2005)




**

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.
Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.
Passa também uma escola – o mapa – o mundo de todas as cores
Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis.
A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se
Em amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da infância.
América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.
Sempre me perdia, não era fácil voltar.
O navio estava na sala.
Como rodava!

Carlos Drummond de Andrade
Fragmento do poema  - América.




domingo nublado 



alguma coisa grita
 
nesse quarto que boia
em outro oceano: meu caderninho azul
 
já chega ao fim (nunca
terminei um tão rápido
as páginas coloridas
com frases para mim
 
mesma). essa gente não entende
pra que servem os domingos
nublados — lá em casa
as janelas ficam abertas
para deixar o cinza à vontade
meu pai diz pode colocar
à mesa, eu dobro guardanapos
mamãe espalha pratos, marina
 
escolhe talheres, a tv murmura
baixinho: o almoço chega da cozinha
 
numa panela muito quente
e a grande surpresa ao levantar
a tampa — as tardes de domingo
são pequenas joias

Alice Sant'Anna




se estes versos resistirem à minha tentação/ faça-os em pedaços agora mesmo/ cada fragmento desses caídos no chão/ terá começo e fim no seu meio


joguei fora tudo que escrevi três vezes
e trinta e três vezes reescrevi
sempre o mesmo sobre o mesmo há meses
desejo de estraçalhar o que escrevi


não entendo, eu até levo jeito
sempre tenho comigo uns versinhos
tão bonitinhos, tão engraçadinhos
que dão até um nozinho no peito


se eu fosse suicida, já teria feito
o que, no fundo, todo mundo sempre quis
assim me transformaria em perfeito
e deus e diabo: todo mundo feliz


quando a poesia se transforma em papel
sempre um trouxa transforma em roupa suja
talvez eu queira transformar a merda em céu
e, com mel, não me alimentar da dita cuja


se nasceu pó, volte logo ao pó que é
e a noite, como o poema, vire cinza
ninguém nesta terra é o que quer
aqui, aquele que é bom, não vinga


pode também que eu seja apenas vagabundo
ou um solitário que aprendeu no verso
que isso a que chamam de mundo
não é o centro das atenções do universo

Marcos Prado






Cinzas



No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.


Adélia Prado






tarde cinza
toda azaléia
arde em rosa









CICATRIZ


Minha vida é feita de cacos velhos
que reconstruo pelos muros do meu quintal.
Paisagens e cinzas que ergo
quando a sombra da Norma lilás
cobre minhas lembranças na tarde sozinha.
Minha vida é feita de cacos velhos
entre cercanias de vizinhos curiosos
quando minha sogra louca
clama do tempo em exaustão.
Minha vida é feita de cacos velhos
que cortam a minha pele,
dilacera,
quando os manuseio,
em busca do inexistente sertão. 

 

 

Miguel Carneiro







ARTE

a Antonio Cicero


Poemas são palavras e presságios, 
pardais perdidos sem direito a ninho. 
Poemas casam nuvens e favelas
e se escondem após no próprio umbigo. 
Poemas são tilápias e besouros, 
ar e água à beira de anzóis e riscos. 
São begônias e petúnias,
isopor ou mármore nas colunas, 
rosas decepadas pelas hélices 
de vôos amarrados ao chão. 
Resto do que foi orvalho,
poema é carta fora do baralho, 
milharal virando cinza
pelo fogo do espantalho.

De: SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002





Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?

Mário Quintana








A claridade coroa-se de cinza

A claridade coroa-se de cinza, eu sei:
é sempre a temer que levo o sol à boca.

Eugénio de Andrade
Contra a obscuridade, 1988                             








Outra noite
Outro sono
Como se eu sonhasse o sonho
De outro dono
Outro fumo, uma outra cinza
Outra manhã

Fragmento de Outra Noite – Chico Buarque







CORES

preto preto preto.
são as unhas sujas
na banca de frutas.


branco branco branco.
o sorriso cúmplice
de manhãs de sol.


preto cinza preto.
a tinta que turva
a lua do poeta.


cinza carmesim.
é a maçã e a sombra
traçadas pelo pinel.

Marilia Kubota
Do livro: Esperando as Bárbaras, Blanche, 2012, Curitiba/PR






fênix para uma quarta-feira de cinzas

ao ivan e gianna


perguntam-me quem sou
coração? mente? sol? soul?
e sei, sou de tudo um pouco
poeta, santo, profeta, louco

artífice de mim, me conheço
me faço onde me aconteço
são os outros minha ternura
e não a minha envergadura

amigos fiz para toda a vida
ida na subida e na descida
e aconteça o que acontecer
todo dia será dia de colher

sim, abri mão das sementes
como os versos estão contentes!
e já que estamos aqui nessa lida
vamos brindar à nossa vida!

um tanto mais de luz e céu
e deciframos a língua de babel
hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!

Antonio Thadeu Wojciechowski








"Lembre-me quando você estiver na praia
e quando pintar coisas brilhantes, e poucas cinzas
Oh minhas poucas cinzas ! Coloque o meu nome no quadro
Pra que meu nome sirva pra algo no mundo ... "

Federico Garcia Lorca






Pomba



Arrulhos cio
céus pertur
         bados

asas cinzen
tas
cinza Afrodite
ave!

(amor cegueira
exata).

Orides Fontela





ap. 


na minha casa você pode flagrar alguém
se escondendo da rotina num quarto escuro
e batendo a cinza do cigarro na janela
enquanto espia as roupas dançando em silêncio
no varal da área
às três da madrugada
você pode flagrar alguém preocupado
segurando uma caneca com vinho vagabundo
dormindo fora de hora
pensando demais na vida
e no tédio que é
essa falta de paixão.

Bruna Beber





6.
todo anjo é cinza e fumaça 
nada pode a casa de batismo em chamas
o mar guarda os nomes que quer
e, então
afina suas horas para o dizer
o único corpo que não cessa

Ângela Castelo Branco




Rompe a manhã, senil
Semeada de escombros.
 
Perde-se o meio dia entre nimbos
Escura
 Perde a tarde
Sabendo a cinza e sepultura.


O poeta carrega a noite sobre os ombros.

Dylan Thomas






BAJO PROGRAMA

Pequenas peças, algum lirismo
que a ironia mediatize entretanto
pouco caso como o resto — uma
pessoa que surja de repente e
da qual note-se apenas o cigarro,
aliás, a cinza que tomba enormemente,
manhãs, mais do que noites.
A flor ausente.

Carlito Azevedo




O  CHAFARIZ

Parece que saí de algum sonho, de alguma caverna
de algum lugar inóspito e aquecido
Imobilizado feito os corpos de Pompéia
virei uma estátua de cinza  
Sou uma miragem entre os edifícios
mas tenho a realidade dos fantasmas
a errância dos bardos
a necessidade dos mendigos  
Minha imobilidade é um artifício  
A todo tempo oscilo
entre a inércia do meu corpo
e a fluidez do rio que abrigo
                                 Iracema Macedo





O MEU SENTIMENTO É CINZA
    O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão. 

Fernando Pessoa






A candeia está apagada.
E na noite gélida
eu me vesti de cinzas.

Cora Coralina





MOMENTOS




Há momentos tão brancos
Com que borro minha pele
E escrevi
Há dias tão cinzas
Que assombro céus
Condenso paredes
Escuto fantasmas
Nas folhas em pauta
Me reencosto à Lua
Nua de carne
Com lágrimas impuras
Brinco com estrelas
Anoiteço
Há dias tão vermelhos...

Carmen Silvia Presotto





Assim é o medo 


Assim é o medo:
Cinza
Verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.
(...)

Henriqueta Lisboa





 
Não é a água (O) que se bebe
                                  Para Antonioni & Bergman, no Orvalho, sobre a Terra






]

Para encantar pedras mais leves,
dizer
à chuva: eis: ele, o Orvalho em chamas

Mesmo Se espessamente
caindo sobre nós

O
lodo
O
escorpião

não escondeu seu mal para nascer
O
Anjo sobre a Terra?

A fome

Não sonha com a abundância?

E o pão,
não foi um dia o filho?

Vê sem agonia o que te diz o início deste dia:

se com a Sombra foram tuas as Asas que ascenderam à Lua, tua Poção de Chamas
insistir
na devoção pela Ausência,
soprar
as cinzas
para criar um bosque de sussurros

orado

junto ao fogo
pela Água da Luz apagado: eis: Tu, o Orvalho humanizado


À Noite, não é a água O que se bebe

 Vicente Franz Cecim








o tamanho da casa
é o mesmo

são três casas
em solo diferente

1. no solo de areia
há um castelo pequeno

2. no solo de cinza
há uma casa de relâmpagos

3. no solo do negro-azul
há Berlim com pão de açúcar

Rodrigo de Souza Leão








ZEN LUNÁTICO



Transfiguro Marte 
Tentando ver Plutão
O rife de metáforas são cupins
Comendo a folha do papel
Na noite me encontro e medito
Os vagabundos iluminados são lunáticos
Buscando um *Kazeon Bossatsu
Ou um Buda sensei
Desmaterializo a realidade caótica
E mergulho no orvalho que é um haicai
Montando um ikebana de aliterações
No sopro da cinza que o sol falece.


Cássio Amaral.





O idioma é a única porta para o infinito,
mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.
Guimarães Rosa





cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.
Mário Benedetti






Presença em Pompéia
 
Esta conta não pagarás:
— ficará sob uma cinza que não sabes.
 
Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.
 
Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.
 
Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.
 
Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.
 
As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'água:
— a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.
Cecília Meireles