Sunday, November 02, 2014

Todas as tardes de maio serão tuas - Bárbara Lia


Edgar Degas





Alma mais cansada que bailarinas de Degas
Alma translúcida de luz eternizada por pincéis
Alma desgastada de pingar como vela acesa
O que pode ser apenas lágrimas pelas mariposas mortas
Cegas pela luz: viver é magoar corações
Ferir a cada manhã - mesmo sem querer –
E viver com a liberdade atada presume ir cortando gargantas
E viver não traz candura como insistem os livros sagrados
Viver soa como sino de igreja na hora da elegia
Um morto a cada toque do ângelus
Um morto por dia para que um homem tenha a audácia de ser livre
Isto soa triste e parece e é...
O que se pode fazer se um homem livre mata uma pessoa por dia
(Pode até que seja ele mesmo)
Enquanto outros - não libertos - demolem aldeias inteiras
Escravizam órfãos e incineram os pátios da esperança
Um homem escravizado fecha as portas e as comportas das fontes de água
Ergue barricadas ao redor do verde
Impede o casamento das libélulas e o voo de algum pássaro raro
Um homem livre existe – quiçá - a cada milhão
Um homem aprisionado a gente encontra a cada esquina
Mais de cem em cada quadrante de quinhentos metros
Milhões em um estádio e dezenas na coxia das estrelas
A estender a perna a cada estrela que sai do palco, vestida de bailarina,

Pincéis de Degas flanando ainda ao redor

Bárbara Lia
Livro inédito: Todas as tardes de maio serão tuas.