Monday, May 16, 2016

As Filhas de Manuela




Manuela acredita que o orvalho é lágrima das estrelas. Lava suas toalhinhas íntimas e depois de secas espera pelas lágrimas das estrelas com o desejo de esculpir em seu sexo a força vibrante e estremecida dos astros. Nas noites deita as toalhinhas na pedra escura diante da porta da cozinha.  Lenço rústico estendido – cor de algodão cru – na madrugada calada. O vento ondulando o tecido ao clarão da lua - um mínimo mar de algodão ondulado. Nas manhãs ela recolhe o pano refrescado pelo vento virgem. Sente na pele o atrito das estrelas em céu rascante – seu sexo inexplorado.
Sempre sonhava com uma estrela raspando o teto do mundo e acordava com aquela imagem na retina - invisível tatuagem que só ela via pregada nas paredes caiadas da casa. Gosta de sentir colado ao seu corpo virgem o tecido suave com a aura seca da lágrima evaporada, pernoitada lágrima de uma estrela qualquer.

As Filhas de Manuela - Bárbara Lia
Menção honrosa na primeira edição do Prémio Fundação Eça de Queiroz (Portugal)
Imagem: Ocais do porto de Paranaguá - Miguel Bakun
**Manuela é a personagem que inicia este romance no ano de 1839... Ela poderia emergir subitamente de uma tela de Miguel Bakun, nosso pintor mais incrível... Uma menina que se envolve com um homem da Armada Nacional que veio ao sul combater os Farrapos e o encontro dos dois engendra uma saga de mulheres amaldiçoadas que levam atrás de si uma sombra da cor do sangue... Realismo mágico, protagonistas femininas como tem sido sempre em meus livros. As mulheres da estirpe de Manuela dirão da vida, do amor, da morte, conquistas, saudade, sacrifício... Atravessando séculos, bruta aventura em prosa**