Thursday, July 28, 2016

meus dias com Clarice


Sempre quis abraçar um projeto com prazo e impor uma disciplina. Sigo sempre no limite das asas, e hoje pensei em algo: ler os contos de Clarice - um ao dia - e escrever uma impressão, um poema, uma frase, um ensaio se preciso for... dada a largada... que seja voo, que seja lúdico, que seja intenso como ela, que seja um rito, e tenho dito...

Friday, July 22, 2016

a flor dentro da árvore

foto by Kátia Torres Negrisoli




“Remando no Éden”

Um olho de Emily
É Deus
O outro é Fera
Um olho é Eva
O outro é Lilith
No branco rosto
Lábio granito
Do branco vestido
Vaza uma luz que emana
E entontece
Nada a fazer
Depois de remar no céu
Nada mais a fazer
Quando se bebeu
Versos estrelas
- Auroras gestadas
Carta de voo de pássaros
Palavras de arcanjos
O ocaso em uma copa
O silêncio do oceano laminado

O tosco me agride
Tudo o que é rude
Um passo atrás
A cada farpa
A cada sílaba Bárbara
Sibila frase agulha fina
- Avesso de Sibila –
Sífilis purulenta
Na pele da poesia
– Letargia –
Um passo atrás
Um véu
Dois véus

Uma estrada
Um muro
Um jardim
Uma porta
Pétrea e escura
Uma cama
Uma escrivaninha
Um quarto branco
Arco íris na retina
Uma luz difusa
Uma musa?
Emily...
Ninguém mais.

Bárbara Lia

Wednesday, July 20, 2016

A complicada beleza - Fernando Koproski

by Daniel Castellano


Dias propícios para ler um livro. Como na canção: um dia frio /  um bom lugar pra ler um livro. E melhor ainda: três livros. A trilogia do poeta e escritor Fernando Koproski: A complicada beleza. Belas dedicatórias, como esta:

para minha amiga e grande poeta Bárbara as aventuras em versos desse jardineiro incurável
com carinho

As capas são obra de arte, fotografias de Daniel Castellano. A ousadia lírica do Fernando, escrever um romance em versos. Já pensei nisto e nunca iniciei esta louca empreitada... Já estou caminhando ao lado de Narciso no primeiro livro da trilogia. Feliz por ter amigos cujas vidas pulsam no mesmo ritmo poético. Somos o que somos, como ele escreveu, jardineiros incuráveis. A flor da palavra, o jardim da beleza, a complicada beleza.

A trilogia é composta por:

- Narciso para matar
- Crônica de um amor morto
- A teoria do romance na prática
(7 Letras)
sobre a trilogia, no paraná online:

para adquirir os livros:

Thursday, July 14, 2016

R.I.P. Babenco





5 Dias para morrer
para Hector Babenco


morreremos loucos, Ana
os sapatos
novos
em cima da mala
— mala notte
o dia, a pior
foto: olhos úmidos
no vídeo
flashbacks:
a virilha imunda
do marinheiro
os eletrodos frios
nas têmporas
as pílulas coloridas
peixes
num aquário
cujo vidro
quase se quebra
toda vez
que o tocamos
sim, Ana
morreremos loucos
mas
esta noite
dormiremos
juntos

Ademir Assunção




“Doce como o massacre de sóis”
(Emily Dickinson)


Oito canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras
Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco
Lembro um filme de Babenco:
Ana e o vôo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre
Bárbara Lia
do livro - A flor dentro da árvore


Mínima homenagem ao diretor de cinema argentino que faleceu ontem.
Héctor Eduardo Babenco (Mar del Plata, 7 de fevereiro de 1946 - São Paulo, 13 de julho de 2016)
Gosto imensamente deste poema do Ademir Assunção, em dois momento o poema dele e o meu dialogam com a personagem Ana do filme - Coração Iluminado. Gracias Babenco, Descanse em paz.

Monday, July 11, 2016

Todas as tardes de maio serão tuas




nomear este estio virulento, esta esterilidade abrupta
vai ser sempre estranho como naquelas gravuras
onde uma silhueta vazada permeia a cena
estarás sempre ali como um presságio
ou o tudo que eu não via que eu não vi
e chorar isto vai ser jogar de novo o tempo pelo ralo
então eu calo então eu calo o tempo do estio bravio
os anos sáfaros em que estavas em mim
e - ao mesmo tempo - 
ausente na superfície das coisas pétreas


Bárbara Lia

Tuesday, July 05, 2016

As minhas mulheres...



Elas vieram a mim em bandos, primeiro a família Piccoli: Pietra, Esperança, Serena e Bárbara. Vieram para falar da Solidão Calcinada que as mulheres enfrentam quando dizem sim ao anjo da liberdade. Foi dolorido. Era a catarse minha. Queria expurgar minha culpa daquela crença da infância, eu não era culpada, mas me sentia assim. Eu me sentia culpada por acreditar, na adolescência, que os rebeldes dos anos sessenta eram terroristas. Foi a minha penitência. Eu sempre quis publicar meu primeiro romance com este tema, e consegui. No outro livro eram apenas duas: a garota que cantava em um bar e a poeta que foi viver meio à natureza. Elas eram noturnas, a deusa da noite (Nyx) e constelação mais apagada do céu (Lynx). Constelação de Ossos o filtro da minha alma, eu estava me sentindo marginalizada, me sentindo qual a garota à qual só sobra a rua, um palco, e a amiga/poesia. Depois, em um rompante louco, terminei de cerzir o que pode até mesmo ser o meu primeiro livro publicável, pois recordo que a ideia surgiu antes dos dois que foram lançados. As Filhas de Manuela é uma saga que traz como metáfora a maldição nossa de cada dia: o ser mulher, levar pela vida esta sombra sangrada. Em um rompante sem nexo elas seguem por quase dois séculos arrastando isto que incomoda, a força de ser quem pulsa vida, e não se dobra. As Filhas de Manuel tem oito livros encadeados, em uma espécie de epopeia, onde cada fala apresenta um ciclo de perdas e redenções. É isto. Até aqui encontrei duas dissertações dos meus romances já editados, e eles falam da Literatura escrita por mulheres, e a leitura é sempre a da certeza de que em minhas cenas só há espaço para - elas. As que chegam fortes, as que lutam por cada grão de liberdade. Já não é o modelo patriarcal, já não é mais a feminista que luta por ocupar o lugar, é alguém que ocupa e ponto final. Coloca-se ao lado. Digo tudo isto sobre estas mulheres dos romances que escrevi, pois hoje eu vi um corpo, envolto no sangue placentário, era forte, era alvo e pulsava. Há uma única personagem, pela primeira vez. Ela está a sós, e tive medo dela. Ela acabou de nascer e eu a temo. Quando veio a mim pelo sopro da criação, era menina ainda, é menina, só a vejo ali, uniforme escolar, primeira menstruação, um amor platônico pelo professor. Ela se apresenta e eu sei que agora eu vou desaparecer, segurando sua mão úmida ainda do sangue dos nascituros, e vamos adentrar o desconhecido... Ela exige que eu construa uma cidade, quase como em Dogville, e ela chega como em Dogville com assustados olhos azuis, e ela chega com enigmas. O que ela não sabe é que já sei a última cena, e entre a primeira e a última cena de uma vida bem longe do banal, décadas e quiçá um encontro, destes que nadie explica, uma espécie de mistério que cada um vive uma vez na vida. Talvez ela já seja a minha personagem preferida...

imagem: Nicole Kidman em Dogville