Sou Poeta. As “antenas da raça” desabam antes que o raio penetre, pela extremada sensibilidade. Antecipam. Sou dos “antecipados”. Dos que atrapalham a trama das estrelas. Fulminada, sempre. Meus poemas são perguntas, imaginação, projeção.
Devo escrever sobre os meus
“raios passionais”? Não as paixões que vivi depois que me assumi poeta, mas a
memória de uma garota que queria ter um único amor (foi o que pedi à estrela
Vésper ainda menina-moça e poeta sem saber). No meu primeiro romance publicado (Solidão Calcinada), eu dei meu nome à jornalista que narra a vida das ancestrais. A Bárbara do livro encontra o homem de sua vida ainda no colégio, o pai dela é um guerrilheiro que desaparece nas brumas da ditadura militar, a mãe morre no cárcere. Na vida real sou filha de um radical de direita que foi Integralista, é o drama íntimo. Mas foi quem me apresentou poemas desde o berço, foi quem me falou sobre Liberdade, Poesia e admirava a minha inteligência. A Bárbara do livro é jornalista, meu segundo desejo. O primeiro sempre foi - ser escritora. Ao contrário do sonho da garota que seguia pelas ruas marrons rumo ao colégio a dialogar com a estrela Vésper, vivi muitas paixões. Talvez nunca escreva relatos de autoficção inspirados na realidade, talvez apenas os oitocentos poemas de amor fiquem como - instantâneos - fotografias que registram o quanto sou passional. E, por ser contraditória, sou essencialmente platônica.
Dois momentos levam uma
poeta de setenta anos a meditar sobre o Amor. Um casal russo real. Um menino
russo (ficção) que ama ao primeiro olhar um rival das pistas. O rival disfarça
menos (ele também se enamorou). Eles conseguiram amolecer corações pelo mundo
inteiro.
É isto: nos últimos
dias a ficção e a realidade derreteram meu coração cansado.
Ainda estou na casa de
campo. Dizem os fãs da série "Heated
Rivalry".
I’m going to the cottage.
(Spoiler). Disse
o menino russo ao telefone quando o amor venceu a batalha e ele escolheu –
ficar ao lado. Fiquei pensando na razão de uma série sobre dois jogadores de
hóquei encantar tantas pessoas pelo mundo. Pequenas frases, a forma como eles
se descobriram ao abrir as portas para o desejo. O consentimento. Ter certeza
de que não ultrapassa linhas, que não invade o outro. Sem desafinar. Numa
dança. Uma ternura rasgada, erotismo doce, jamais pornografia. A certa altura
Ilya confessa que - amou ao primeiro olhar. Isso fez um rude menino russo cheio
de traumas, adoçar olhar e voz e gestos diante do rival. E ele faz como deve
ser a postura dos homens pelo mundo. Ele pergunta. Ele pede consentimento. Beleza
é o nome que a gente dá a tudo que é Poesia. Sem Poesia não é possível deitar
ao lado, beijar nenhum lábio, sentir Amor. Por isso muitos não querem deixar – a casa de
campo.
É possível que o amor
seja o “stupid canadian wofbird” que
assusta Ilya na noite, diante da fogueira ,e leva Shane a tranquilizá-lo. É só
um pássaro. Um mergulhão. Às vezes é preciso que o amado diga que o amor é
leveza, é só um pássaro, com um canto que assusta. E não um lobo na escuridão.
Ainda estou na casa de
campo.
O casal de escaladores
que alça ao topo do Empire State eclipsou dois momentos: a copa do mundo e o
casamento de Taylor Swift. Absolute Cinema.
Eu assisti ao
documentário “Skywalkers – uma história de amor” e lembrei a audácia da dupla
quando as imagens começaram a aparecer no meu Instagram. Cena linda e
estonteando. Vertigem. O que eles nos trazem é a vertigem da vida, é a coragem
de quem – caminha no céu.
O encontro de duas
pessoas predestinadas a dizer algo ao mundo. Sensíveis como todos os artistas,
alçaram seus corpos ao único lugar onde viver era possível, por acaso da vida,
ambos russos, ambos prontos para amarem-se. Angela viu sua mãe – trapezista de
circo – abandonar os sonhos quando o casamento acabou. Aquele homem com quem
voava sem redes em trapézios deixou de ser parte de sua vida e ela desabou.
Criada como futura acrobata, Angela tem as ferramentas, seu corpo de ginasta
pode contorcer-se entre ferros de prédios e antenas em qualquer lugar do mundo.
Ela decide não terminar seus dias como sua mãe. Ivan Beerkus descobriu que
subir em altos prédios o ajudava a encontrar o ar. Fugindo do ambiente
sufocante de sua casa ele virou um escalador, cada vez mais alto, cada dia mais
reconhecido como alguém que tem um diferencial. Ambos foram atraídos um ao
outro. A única garota que ousava realizar performances nas alturas. O homem
magro e corajoso que aprendeu que existe um lugar onde é possível respirar. O
documentário é lindo. A travessia de ambos entre as escarpas e as armadilhas do
amor. A insubmissão de uma garota corajosa que colide com o desejo dele de
proteger quem ama. O capítulo inicial é mais potente que uma subida em uma
antena em Nova Iorque.
Eles tentaram dizer ao mundo que o mais importante é o Amor e a Paz no Mundo. Cá estamos com vertigem, com o coração aquecido, e é doce saber que há tantos anos eles “caminham no céu”, literalmente. A coragem nas veias, o amor ao lado. "O Amor é como a altura. O medo nunca passa. Você só aprende a encará-lo melhor". Angela Nicolau.
"Heated Rivalry"
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