Thursday, April 01, 2010

Contos Grotescos





(O elevado nível literário é o que caracteriza "Set", conto classificado em quinto lugar no "I Concurso Literário Contos Grotescos - Prêmio Edgar Allan Pöe". Nele, a ressurreição de um instinto assassino é narrada com rara maestria)
- Texto acima retirado do site - Contos Grotescos -  "I Concurso Literário Contos Grotescos - Prêmio Edgar Allan Poe"




SET


Meu nome é Zayin. Um signo, dos mais potentes. Símbolo sagrado para os filhos de Abraão (o imaculado que significa o Zayin) por mim vilipendiado e desonrado. Meu sobrenome – Neves. Zayin Neves. A sétima letra hebraica – Zayin. O Neves invertido – Seven. E além do nome duplamente assinalado sinto que tenho a alma horripilante do meu duplo, o deus Set. O horripilante assassino que há dentro de mim ressuscitou na noite em que vi a mulher com o Zayin tatuado no lírio da pele. A ruiva do Bar Sossego. A tatuagem dela na nuca raspada, abaixo dos cabelos de fogo, o símbolo


Acho que nos olhamos por pura identidade. Ruivos. A pele enferrujada, os cabelos vermelhos e os olhos azuis como duas contas de vidro. Na mesa ao lado, quando ela se curvou para ouvir melhor um senhor que tentava falar mais alto que a música, sem conseguir, brilhou a tatuagem diante dos meus olhos. Negro no branco e acima os cabelos curtos - chuva de fogo. Estremeci. Um desejo que rasgou meu plexo solar de forma dolorida. Um desejo. Eu, o campeão de desejos nunca realizados. Eu, o abandonado. Eu, o órfão, órfão sempre. Eterno órfão no sótão negro.
Um verso de Dante em chispas na memória, tal qual a fagulha elétrica que produz o encontro de dois fios desencapados... Nas chispas da memória entre o azul do atrito de fios desencapados - eu - o menino no sótão mal cheiroso. Só, entre as réstias do sol que entra pela janela. Um e outro raio clareando a tessitura prata da aranha que era minha companhia. Lendo livros que tumultuaram todos os neurônios em uma guerra caótica:
O certo o errado.
Deus e o demônio.
Céu e inferno.
Guerras e amores aflitos.
Uma sucessão de símbolos.
Um menino perdido no sótão com Clarissa, a aranha confidente. Ela seguia meus passos rangentes pelo quarto pequeno, e observava meu caminhar, e respirava uníssono para não acordar-me nas noites. Sentia até mesmo a alegria em seu ego aracnídeo massageado cada vez que meu olhar celeste palmilhava cada milímetro da sua teia.
O verso de Dante sacode o mar interior.
Não. Nunca tive um Virgílio a palmilhar o reino da escuridão que se chama viver.
Ela estanca diante da minha mesa. A moça tatuada.
- O senhor já escolheu?
- Uma Bohemia.
Na hora de pagar a conta não consegui me conter.
- Que horas termina teu turno?
- Dez da noite...
- Se importa se eu te esperar? Meu carro é aquela Pajero, cor violeta...
Aponto para a rua. Diante do bar o carro embaixo de uma árvore, no escuro noturno, com sua cor estonteante – violeta - sétima cor do arco-íris.
- Ok!
Ok. Amava o século das condescendências.
Sorriso fast-food.
Tudo à mão na hora que se quer...
Ok, ok ok ok ok ok ok ok ok ok
Fui dizendo ok da minha mesa ao interior do carro, liguei o rádio.
We are de champions, my friends...
Há quanto tempo não ouvia Queen?
Noite sete de confusão interior.
Quase viro a chave na ignição e esqueço a ruiva tatuada que deve deixar dentro de alguns minutos o trabalho. O ódio vence. Desligo a chave.
O casarão nas imediações do Lago Barigui era herança da mulher para quem meu pai me entregou em adoção, ela era enfermeira. Aquela que me alimentava pouco e me trancava no sótão escuro. Na meia-idade, quase chegando à velhice, cativou um solitário.
Na adolescência a guinada súbita e o estranhamento. Ficar rico de repente. Minha mãe postiça era alma gelada. Sem têmpera. Sem cor. Bege. Nada mais cruel que uma pessoa bege. São as pessoas bege que criam os monstros, são as pessoas bege que descolorem todas as pinturas do paraíso.
Para que eu pudesse ter uma vida sempre calma, ela disse sim ao senhor embora estivesse brilhando no olhar a ausência do amor e do desejo. Mas já havia fantasmas demais no meu sótão, vômito de harpias, coco de morcegos, mênstruo das serpentes antigas.
Quando a ruiva abriu a porta e me olhou e sorriu como uma ovelhinha que segue o carniceiro, meu pensamento voou até meu quarto, para lembrar se "por puro acaso" lá estava uma caixa com pequenos envelopes de estricnina. Sim, estava.
Minha sala poderia ser a sala de um apartamento do centro de Nova Iorque. Minha sala se dava ao luxo de ter um quadro de Portinari, um piano branco e uma leveza que fez a menina arregalar os olhos. Jogo meu charme...
- Vinho?
- Nooooosssaaaaa! Que linda a tua casa.
- Olhando esta estrutura de pedra antiga ninguém imagina um mundo moderno aqui, não é?
Por um momento imaginei um instante normal: um homem e uma mulher, o vinho, uma trepada cinematográfica, descobrir a temperatura da pele, embora eu pressentisse que ela era uma daquelas pessoas que armazenam gelo na superfície, estas que quando se abraça nada se sente.
Na segunda vez que derramei o vinho na taça dela, derramei a morte, e esperei que ela morresse silenciosamente no sofá.
O silêncio da noite era quebrado pelo som alto da sinfonia, para que não ouvissem o meu cavar à luz lilás da lua, abaixo do imenso pé de ipê.
No meu banheiro cinco estrelas eu tocava meu corpo, o sexo murcho, sem demonstrar nenhuma reação, desde o instante no bar quando pedi a cerveja até o instante que a última pá de terra a soterrou.
Coloquei uma roupa esportiva e fui correr no Parque Barigui.
Depois do crime, da manhã estranha, do almoço inquieto, do banho e do chá de melissas. Lembrei Flor. Flor de Lis. A menina do sobrado ao lado da casa tétrica onde me enfurnavam no sótão - tardes e noites – a casa onde eu vivia como um abandonado. Aos sábados a madrasta abria as asas e se fazia humana, e eu podia brincar no quintal de Flor, diante do olhar de sua mãe.
Flor de Lis foi o meu refúgio divino naquela infância de pedra.
Acho que o último comboio que levou Deus para sempre do meu mundo foi o mesmo que levou Flor de Lis.
Nada me faria esquecer Flor.
Ela saltitando na única neve curitibana, seus braços abertos e a neve, seu gorro branco branco branco, suas mãos me chamando para o quintal, e nossas mãos meninas tecendo o boneco eternizado naquela foto que adorna o meu quarto:
- duas crianças, um boneco de neve, uma casa azul ao fundo –
Uma alegria pequena na minha face sempre tão agressiva.
No tempo -  das tardes de Lis - eu me recolhia ao sótão, ao fúnebre ar daquela casa, e me enrolava naquela colcha de retalhos, de tantos retalhos de tantas cores, que eu já decorara cada milímetro e dormia esperando o sábado. E desenhava a flor que era seu nome, e meu quarto era inundado da flor da real flor da monarquia francesa. A vida era leve com Flor, e só sobrou mesmo voltar à companhia da aranha, depois do drama, do fim. 
Lembro que não chorei, pois estava estático - dentro e fora.
Uma mão de ferro embalsamando cada músculo meu.
Não me lembro de mover um músculo, nem uma lágrima, nada.
Minha infância e suas perdas ininterruptas.
Pai Mãe e Flor.
A ferida mortal no cérebro extirpou-a tão rápido da cena, com raiz e tudo... Ficou a doçura de histórias e tardes e uma foto que prendeu meu olhar pelo resto de um sábado inteiro. O que Flor diria a seu amigo louco? Minha náusea ao lembrar a menina e a vida pura fez com que eu corresse e vertesse minhas golfadas no banheiro. Vomitar até sentir que eu saíra de mim. Depois guardar a foto dela entre as toalhas perfumadas.
Nos jornais por meses a pergunta era sobre o desaparecimento. A cada dia eu acordava com toques de campainhas e toques de celulares, mas, depois era só o bem-te-vi e olhando da janela eu via a árvore e as folhas lilases beijando a terra e o ar calmo das manhãs foi lavando o medo.
Matar, no entanto, é soltar o trenó do alto da montanha de neve.
Eu havia acionado a minha descida ao inferno, sem Virgílio, sem Dante, e pior, minha Beatriz estava mesmo no céu, com nove anos e um vestido azul.
Só lembrava depois de cada morte que sempre era sete, que eram peles de lírio e que eu tinha um rasgo de lucidez, pois apanhava as vítimas sempre onde não havia ninguém, testemunha alguma, sempre na solidão, eu a mulher branca e o ódio antigo.
A gótica chorando sentada no monumento do centro histórico. Largo da Ordem. O cavalo babava silenciosamente. Nunca entendi aquele cavalo que baba, que simbologia estranha.
Fim de tarde de um dia sete na Estrada Graciosa. A moça parada e o carro quebrado. E o mesmo jeito estranho de segurar os cigarros – como a madrasta - não como todo mundo entre os dois dedos. Ela segurava como a madrasta. Unindo polegar, indicador e anular, e tinha o mesmo jeito de sacudir os ombros. Dizia que Deus me mandara.
Naquela manhã acordei com ressaca e tomei um banho rápido e tomei um suco de laranja. Quando meu corpo caiu no azulejo frio, em um átimo de segundo compreendi de onde vinha aquele “açúcar”. Na euforia do momento esqueci três pequenos pacotes do veneno no criado mudo. A última mulher, com ela fiz amor. A boca quente dela e suas mãos tateando meu corpo, tudo isto me fez esquecer o resto. No outro dia estava lá a diarista, Rita. Rita, a mão de vaca. Pude ver Rita confundindo o pacote com aqueles dos aviões e dos cafés que eu frequentava. Rita, a econômica. Pude vê-la balançando a cabeça e colocando o pó no açucareiro. Último som que ouço - gargalhadas trazidas pelo vento embalando as flores, as flores roxas adornando-me, a porta da cozinha aberta, e o vento depositando riso lilás na porta. Estendi a mão para discar o número de emergência e no meio do meu torpor, o mundo todo esgazeado, uma ciranda abaixo da árvore.
Uma ciranda de mulheres brancas e aladas rindo do meu fim sem glória, patético ao extremo.
Bárbara Lia 

Tuesday, March 30, 2010

Dos frutos



Deus semeia seres
Como minha mãe
Semeava hortaliças

Deus derrama gelo na alma
Como as antigas geadas
Nas gramas brancas

Lá estava a mãe
A espalhar água nas folhas
Com seu regador de latão

(Degelar folhas no inverno
Molhar a terra revirada no verão)

As folhas a tudo suportavam
Um belo dia floriam
Um belo dia frutificavam 
- súbito - assim - do nada - 
Nas manhãs areadas.


Bárbara Lia

Friday, March 26, 2010

Festipoa



A terceira edição do evento já tem data marcada
Vai rolar de 20 a 25 de abril.
Alguns dos escritores com presença já confirmada: Alexandre Rodrigues, Altair Martins, Amilcar Bettega, Antonio Xerxenesky, Cardoso, Cíntia Moscovich, Laís Chaffe, Lima Trindade, Marcelo Spalding, Monique Revillion, Ronald Augusto, Xico Sá, Wladimir Cazé. O homenageado deste ano será o ficcionista e tradutor Sérgio Faraco. 

Vou participar da Festa Literária de Porto Alegre - lançando meu livro -  A última chuva.
Vou pra Porto Alegre, tchau!
Breve sai a programação e coloco aqui no meu espaço azul.
Meu projeto novo - dos livros artesanais - tenho desejos de sair por aí lançando meus livretos, mas, é livro sob encomenda. Isto não impede um encontro poético em Porto Alegre e que eu leve algum livro para quem desejar -  abro esta possibilidade para todos. O meu projeto pode ser conhecido aqui.
Penso levar até Sampa quando do lançamento da Antologia H2Horas, em maio - ir viajando com eles e apresentando estas novas - crias -Ouro & Céu - toda poesia que saltou da minha pele poros vísceras olhos alma sexo cicatriz pulmões braços pernas espanto encanto mágoa e delírio amor e amor e mais amor, que nunca me falta, vivo encharcada de amor até os ossos.

Thursday, March 25, 2010





Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
pro dia novo encontrar
(Ferreira Gullar/Villa-Lobos)


Pensamos - Viagem!
Ele abre o baú de partituras
e delineia em minhas costas
ou ventre

ou coxas
canções sinfonias
fados tangos.
A que mais amei?
- o trem -
de Villa-Lobos
o trenzinho caipira - corta
minhas ondulações

matas
declives.
Sente o vento?
O perfume da serra?
rasca de nuvens
vão de carona
nos lábios dele
pelas notas
pelos trilhos
pelos pelos
pela pele
e tudo termina
em suor do amor evaporado
borra minha virilha
rasura o Lá extraviado.
A vida palpita
aquém além da cortina
da cabine perfumada

- fim da viagem!


Bárbara Lia
-ed. 21gramas

Sunday, March 21, 2010

Dia de Lorca

José do Carmo Francisco (Portugal)  enviou-me hoje - Dia Internacional da Poesia -  uma bela poesia para Garcia Lorca, que publico logo abaixo. Sincronias. Hoje eu estava embasbacada lendo um pequeno fragmento de uma poesia de Lorca - no livro - Bodas de Sangue - Um belo prefácio que finaliza falando da conferência que Lorca proferiu em Havana em 1930...
...
"Segundo o poeta "duende" é um tipo de poder oculto capaz de falar através  de todas as formas de arte, inclusive da arte da personalidade. "É força e luta; não se trata de idéias ou temas; ou o temos dentro de nós, ou não o temos, o 'duende" vem de dentro, desde a sola dos pés." "Duende" seria carisma, magnetismo, encanto, graça e, ainda "não sendo anjo nem musa, é descendente daquele melancólico demônio de Descartes e do daimon socrático benigno, palpitante, o alterego, em suma"; é aquilo que Goethe dizia ser "um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica". "Solo se sabe que quema la sangre como um tópico de vidrios, que agora, que rechaza toda la dulce geometria aprendida, que rompe los estilos. (...)"
Ao discorrer sobre o conceito em Havana fica clara a consciência do próprio gênio , que Lorca, aliás, já sintetizara em outros versos:

Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas ao meu redor
E a noite me copia
Em todas as suas estrelas.

Presente na sua obra e na sua personalidade de forma avassaladora esse "duende", como atestam as palavras de Luis Buñuel, decorridos trinta anos da morte do poeta:

- De todos os seres humanos que já conheci, Federico foi o mais impressionante. A beleza fluía dos seus lábios. Ele era a paixão, a juventude, o amor. Era como uma chama.
Bodas de Sangue - ed. Peixoto Neto Prefácio de Ilka Marinho de Andrade Zanotto
...

Sobre o livro - O que é Poesia? Um comentário do José do Carmo Francisco - aqui.




...



Lorca no caminho do Montijo


Era pelo Inverno de cinquenta e sete.
No Porto Alto um homem de capuz e oleado
segurava uma lanterna com dois vidros pintados
e fazia alto com a outra mão.
A ponte sobre o Sorraia era de madeira
e só passava uma camioneta de cada vez.
Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz
de cor verde e com a chapa do Estado.
Meu pai saudava o homem entre a chuva
e desejava-lhe uma boa noite impossível. 

Se recordo estes passos e rituais
dos caminhos desse tempo
é porque aquele lugar marcava para mim
o principiar da circulação de uma temperatura
que me fazia lembrar Lorca.
Eu tinha aprendido a ler nos jornais.
Meu pai trazia-os à noite para casa.
Terá sido num «Diário Popular»
que li um texto sobre o poeta assassinado.
Mesmo sem conhecer os seus poemas
comecei a sentir naquele espaço
a respiração do verde e do vermelho,
a relva sem fim e o sangue dos touros,
o pó levantado pelos cavalos breves,
os gritos dos campinos sempre longe
e a noite sempre negra e sempre longa.

Mais à frente, a caminho do Montijo,
respirava o sal de Alcochete,
o sabor conservado de uma angústia serena,
a ideia imaginada de que estes campos verdes,
estas oliveiras e este som da alegria
rente à raiz de tudo
poderiam ter sido caminho
do poeta Federico Garcia Lorca.

Ainda hoje não sei porque cavaram
tão depressa os cabouqueiros da morte.
Sei que entre o Porto Alto e o Montijo
algures entre verde e verde
uma sombra esguia faz sinal aos deuses
e os deuses param.
Lorca poderia ter morrido aqui
à porta desta taberna, a caminho do Montijo.
José do Carmo Francisco

http://www.triplov.com/poesia/carmo_francisco/index.htm




Lorca en mi corazón (Bárbara Lia)

Gazal de espumas
treze constelações rimadas
clave de Fá escondida
na estrela mais clara

Touro triste dança
ao manto de mariposas
vomita rosas, chora arraias

Lua desfia-se
incinera seus raios
em luto andaluz

Corcéis golpeiam
o vento perfumado
que acariciou o poeta
em noites lendárias:

Cinzas levitam
acima do fogo eterno:

Lorca en mi corazón

Saturday, March 20, 2010

Abstrata






Abstrata


O caminho abstrato
leva
às verdadeiras
paisagens

Há quem vá a Roma,
sem ver Roma
Há quem vá ao amor
sem enxergar o amor

Há quem venha a mim
sem ver a mulher inteira
e codificam os gestos
e atiram ao vento meu nome

Nunca me viram no real
espelho
além da carne dos olhos

E eu não tenho a chave
que abre as portas
da minha alma.

Bárbara Lia


Foto do poeta Isaias de Faria 

Alto Madeira

clique para ler

Tuesday, March 16, 2010

das perdas

Chorei a semana inteira estas perdas precoces. Meu primo Zé estava de aniversário, o primeiro depois de sua morte. Minha amiga Ângela morreu, lá em Recife. Quase uma década sem sentar com ela e falar das coisas que mães batalhadoras falam. Um nó na garganta. Não dou conta da minha vida, de tudo que acontece assim, tsunamis - uma hora pétalas; em outras punhais e dores. Saudade.
Saudade do Digão, como o Cássio Amaral dizia. Pra mim foi sempre Rodrigo. Um amigo. Um site-homenagem foi criado e fiquei feliz em saber que vamos agora rastrear os passos  do menino que tinha um cachorro azul e um amigo chamado Rimbaud. Passei a semana a sós entre estas paredes brancas lembrando as tardes com minha amiga Ângela, quando ela dividia sua casa e seus filhos comigo, naqueles domingos onde os  meus filhos pequenos iam visitar o pai. Natais onde eles não estavam comigo e ela dizia - venha pra cá comigo e os meninos. Lembro do meu encanto quando vieram de Recife e os filhos a chamavam de mãinha... um mundo diferente, ela foi casada com o poeta Carlos Barros, ela morreu cedo demais. O Rodrigo morreu cedo demais, meu primo Zé Tadeu, tanta gente vive como um cometa, rasga a saudade quando vai, mas, fica assim esta evocação silenciosa, esta vontade de dizer da falta e o desejo de que estejam em paz em outra esfera. 


PRÊMIO UFES DE LITERATURA 2009/2010

 
 
Recebi um email com o resultado do Prêmio UFES de Literatura, mandei algumas poesias com a esperança de ganhar livros (Livros da ed. UFES - Universidade Federal do Espírito Santo) estou entre os selecionados, dez poesias inéditas vão para as páginas da antologia que vai ser lançada em abril.



Por ordem de classificação, abaixo relacionamos, a título de conhecimento:

Lino Machado
Maria Amélia Dalvi
Bárbara Lia Soares
Márcio-André de Souza
Sonia Maria Martins Cezaro
Rubens Cavalcanti da Silva
Isabel Florinda Furini
Cezario Caldeira Saiter
Carlos Alberto Pessoa Rosa
Nelson Martinelli Filho

Ilha do medo


-

Começou quando vi Leonardo Di Caprio interpretando Rimbaud. Apagou a imagem adolescente-perfeito do Titanic. Começou com uma sequência de papéis que ele agarrava e interpretava apagando lentamente aquela saga adolescente e navio e enamorados flanando acima do mar verde.
O novo filme de Scorcese vem consolidar - pra mim - esta força da interpretação de Di Caprio. O filme fantástico dá de dez a zero nos oscarizados e imprime do primeiro ao último minuto o pavor dentro da gente, transporta-nos a alas de psicóticos e dentro de uma ilha com o clima de filme horror e medo. A potência de um cineasta que te insere na trama, você mergulha - à revelia - no enredo e por mais que seja denso, no final tudo evapora em  uma cena quando a paz brilha - sentimento vivo. Como se também saíssemos de um labirinto escuro pra um dia qualquer, sentados em uma escada ampla e esperando que os fantasmas do tempo nunca voltem.
O elenco é fenomenal e foi uma espécie de redenção pra quem anda meio desanimada com os filmes em geral.


A última chuva





 
À MEIA-NOITE CHORAREI


À meia-noite chorarei.
Por que sou poeta,
chorarei.
No sonho verei velhos amores,
pensarei no infinito finito,
e seguirei.
Vez por outra lembrarei
a voz do irmão caçula:
Esta estrela de Davi
na palma esquerda
significa - protegida pelos céus.
Eu não sou mesmo
uma folha perdida,
nem fera ferida,
nem livro esquecido na estante.
Sou uma maluca elegante
que bebe a vida
bebe a vida.
E segue - sede gritante -
mochila gasta atrelada às costas,
poesia minha bagagem,
sendo apenas compreendida
pelos que fazem a mesma viagem.


- A última chuva - Mulheres Emergente/2007

Sunday, March 14, 2010

O sal das rosas






O QUE ME PERTENCE


O que é maior que eu
faz parte de mim.
A chuva cabe no mar,
a areia no deserto.
Sempre foi assim.


O que é maior que eu
abraço feito fosse Deus.
As coisas pequenas vazam.
Choro por elas, uma noite talvez.


No outro dia
sol clareia a alma.
Descubro o que é meu


para sempre. Os sonhos, as lembranças.
Nossos passos calmos na areia.
O riso dos meus filhos, isto me pertence.

Bárbara Lia
 
(acordei pensando nesta poesia)

Friday, March 12, 2010

O rasurado azul de Paris - Poesias para Rimbaud

Catedral de Rouen - Monet
.
.

.

quando ele corria

pelos telhados de ardósia

as pombas arrulhavam

em ventania

seu casaco - vela sacudida

estremecia

a maré da monotonia

.

Bárbara Lia

La nave va...

A Poesia no tempo do El Niño

  “Não a terra não pode escolher – conclui ambiguamente. Mas depois se vinga.” ( Clarice Lispector )   Delírio da Terra:  Expelir luz das en...