Wednesday, August 24, 2005

Uma didática da Invenção.



IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.


Manoel de Barros.
Fragmento de Uma didática da Invenção.



Algumas coisas que me fazem feliz: Os alunos que me encontram e dizem – a professora dos poemas – e não, a professora de História. 
O vizinho do andar de cima que pergunta sempre: Quando sai o outro livro? Ele  amou os meus poemas “profundos e belos”. Os recados que recebo com carinho sincero... A minha poesia é aceita, amada e compreendida pelas pessoas comuns... A minha poesia já está alcançando a rua, ela já cruzou o portal de buganvilias que existe na frente do meu jardim... Não quero fama – enseada oca sem mérito algum – eu quero a bela cobra de vidro, o líquido vidro azul, as borboletas. A fama eu deixo para os tristes. As pessoas me ajudam a guardar as águas, a proteger a beleza. Completo cinquenta anos, ao lado dos que amo, de poetas na alma, que poetas na alma ainda existem, de raros amigos e esses três filhos de ouro – meus mais perfeitos poemas.

La nave va...

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