Thursday, February 16, 2006

a mosca azul


Betto fala e Lula ouve,
atento, 1.980 - O encontro.
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Recebi do meu amigo Frei Betto – A mosca Azul – reflexão sobre o poder. O livro é pleno de reflexões, à luz de filósofos e pensadores, desde Platão a Hanna Arendt. Um levantamento de várias questões - a crise da esquerda, e começa com a posse de Lula , o encontro de Frei Betto com Lula, o nascimento do PT... O livro é dedicado a Ivo Lesbaupin, um dos freis dominicanos que esteve preso durante os anos da ditadura. Helvécio Ratton está adaptando para o cinema o livro de Frei Betto - Batismo de Sangue, onde Daniel de Oliveira será Frei Betto, e Caio Blat, Frei Tito - o frei que teve sua alma quebrada por Fleury, humilhado, torturado, banido e exilado, enforcou-se em um álamo em L’arbresle há mais de trinta anos.
O prefácio do livro é um poema – de Machado de Assis - Nesta semana o livro deve ir para as livrarias. Vou me debruçar sobre os 31 tratados do livro, acrescentar algo, enquanto o Brasil inteiro fica ligando 0313131... Pensei nisto agora ao ler o número de capítulos, e de como eles se iniciam...
I - Trata da euforia pela vitória de Lula. Os sinais dos tempos. As lutas do povo brasileiro.
II - Trata da formação política do autor. Recorda Sócrates, o golpe militar e conquistas inovadoras.
III - Trata do primeiro encontro do autor com Lula. O carisma...
Não vou enumerar os XXXI tratados. O livro resume o pensamento de alguém que viveu a realidade deste tempo, que ficou dois anos preso ao lado de rebeldes dos anos sessenta e mais dois na mesma penitenciária de segurança máxima onde esteve Fernandinho Beiramar, em Presidente Venceslau, pela simples razão de que estava seguindo a sua vocação cristã - escoando pela fronteira sul do Brasil pessoas que poderiam ser perseguidas, torturadas, mortas... Nunca empunhou uma arma, é certo que é um homem polêmico, a ponto de dizer que o homem ideal seria filho de Che Guevara com Santa Tereza D'Ávila, e a única coisa que posso dizer é que concordo com o pensamento do Frei, admiro a sua coragem, pois ele se dilui em humanidade, sempre.
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A MOSCA AZUL
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Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.
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E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua, - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.
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Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
"Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que to ensinou?"
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Então ela, voando, e revoando, disse:
"Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor."
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E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
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Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, como todo o resplendor de um paço.
E viu um rosto, que era o seu.
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Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vichnu.
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Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.
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Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhe de mando os aromados seios,
Voluptuosamente nus.
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Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.
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Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpo os corações.
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Então ele estende a mão calosa e tosca,
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.
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Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.
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Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houvesse nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.
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Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil,
Sucumbiu; e com isto, esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.
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Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
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MACHADO DE ASSIS, "Ocidentais",
in Poesias completas, 1.901
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A MOSCA AZUL - REFLEXÃO SOBRE O PODER
ROCCO
FREI BETTO
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Frei Betto -
Escritor, assessor de movimentos sociais e frade dominicano.
Nasceu em Belo Horizonte, estudou jornalismo, antropologia,
filosofia e teologia. Lider estudantil, preso político, morou em
favelas no Espírito Santo, quando deixou a prisão,
publicou 53 livros, foi um dos premiados com o Prêmio Jabuti,
no ano passado, com seu livro Típicos Tipos.
Na minha coluna semanal - SITE VEJO SÃO JOSÉ - minhas primeiras
impressões sobre o livro - A mosca azul: