Friday, August 18, 2006

michel sleiman

Antimônio


Pego-me a colher o eco da onda quebrada já sem espuma
no instante sem tempo entre o escuro e o primeiro raio
pedra bêbada da água marinha
gasta mas ainda sedenta por cantoria
do ir-e-vir do grande ventre do mar, fêmea prenhe
ferida pelos dentes de Netuno.

Ó mar de esbelta figura
acossada pela loucura do sal excessivo...
queriam-te a concha do molusco
a escama do peixe
o couro da baleia
a areia a calçar o leito do monte invertido no fundo
queriam-te...

Manhã.
Foi levado à escola
- forçoso rito da civilização.
Levado no colo da menina guardiã.
Ali, no mar desencontrado das ondas
dos anfíbios sobre rodas...

deixou-se ir por tais ondas
a ouvir a sereia nas cordas dos anjos

o menino Tiago de 30 meses
confundiu o sangue na baba do mar

Ó mar queria-te a lágrima de Iemanjá riseira...
Por que Antígona ali assaltou a cidade

grito engolido pelo freiar no asfalto?
Michel Sleiman

Michel Sleiman leciona Literatura Árabe na USP.


Conheci Michel na UFPR em 2.004 em um curso universitário sobre Cultura Árabe, e o diálogo poético prosseguiu. Ontem quando recebi um e-mail contando sobre a morte de seu sobrinho Tiago, aqui em Curitiba, fiquei triste. Em julho estávamos um tanto preocupados, era o início da invasão do Libano, mas, havia sol na praça Santos Andrade, pude rever meu amigo que estava aqui visitando os familiares. Agora tem uma chuva em Curitiba, penso que é uma benção para a cidade esturricada, também é um rio de lágrimas pelo amigo poeta e por sua família enlutada.