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. Arte: Andy Warhol
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Todas as mulheres queriam ser Bárbara, foi o que me segredou a mais próxima de mim, caminhando ao meu lado pela areia. Eu disse a ela que estava muito difícil encontrar azeitonas na praia. Durante o percurso inteiro eu vi apenas uma encravada na areia suja. No mais, era uma sujeira que a onda atirava: restos de redes de pescadores e sargaços. Não havia sol e estávamos em algum lugar da Bahia. Todo mundo queria ser Bárbara e eu era Bárbara, tinha certeza disso. Na casa, o perfume de plantas e ervas tornava o ar quase sólido e as pessoas preparavam uma festa. Crianças corriam e se divertiam, menos o menino quieto, pequeno, de cabelos longos, vestido como um garoto do século XIX, de suspensórios e calça nos joelhos. Encantei-me com ele, e não deixaram que eu o tirasse do quarto. Havia uma cama antiga e um menino que queria brincar, proibido de brincar. Entre as cenas de ciúmes de um casal, deixo a casa, pensando em onde estaria Calabar? No caminho, vejo conchas violáceas, finas e transparentes espalhadas pela areia. Eu as coloco em uma pequena cesta de vime e sigo me encantando com a cor das conchas, suas formas estranhas.
(Sonho da noite passada, à moda de Jack Kerouac anotei o sonho. Calabar era de Pernambuco, não da Bahia. Bárbara era sua amada... Outro dia falei com a Lindsey Rocha sobre peças de Teatro e falamos desta peça. Das músicas da peça que cantam a Bárbara, a que me enjoa um pouco, por se tornar um refrão que todo mundo repetia quando me conhecia: "Bárbara, Bárbara, nunca é tarde; nunca é demais". E tem a outra, "Cala a boca, Bárbara!" que me significa.)
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Cala a Boca, Bárbara
Chico Buarque / Rui Guerra
Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer,
em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai
Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara