Monday, January 01, 2007

MOURID BARGHOUTI



















MOURID BARGHOUTI NO PROGRAMA RODA-VIVA

A TV Cultura reprisou nesta primeira noite de 2.007 o programa de 15 de agosto. O escritor e poeta palestino Mourid Barghouti sendo entrevistado.
Você liga a TV e ouve a palavra - poesia - em seguida - Palestina - em seguida esquece o filme que alugou para ver, os filhos que não telefonam para dizer a que horas vão chegar em casa, escala o túnel do seu umbigo, poço de lágrimas respingadas de 2.006 - o ano da desolação... Senta-se e ouve, e retorna ao seu antigo amor - a cultura árabe. Allah é mais próximo de mim que Deus, mesmo que sejam UM, Allah traz um povo que está ainda agarrado às barbas de Deus, que por Ele esquecem casa, mulheres, filhos, como pede a Escritura. E toda a poesia da busca pelo conhecimento do mundo árabe retorna em ondas sonoras de um tempo que não é meu, de países que não visitei... Já fui criticada por falar de paises que nunca vi, e Neruda dizia que ao poeta é permitido falar de oceanos que não conhece, tenho para mim que o poeta tem dentro de si o ponto universal que estava no porão de Carlos Viterbo, sim, temos nosso Aleph pessoal, que nos mostra todas as dores/amores/glórias/derrotas... Traduzir o cenário do mundo...
Entre os que estavam no programa Roda-viva - Safa Jubran, da USP, fez duas perguntas muito inteligentes. Se não me engano de nome e pessoa, ela traduziu ao árabe - Lavoura Arcaica - e era a voz dela no video que Michel Sleiman trouxe para nossa noite árabe...
Ela perguntou a Mourid...
Como é morar no tempo e não em um lugar?
Pelo que explicou Safa, Mourid viveu em trinta casas durante trinta anos, em seu exílio antes de retornar a Ramallah, trinta anos depois. Ele escreveu - Eu vi Ramallah. Esteve na Festa Literária de Paraty, e o programa foi em agosto, ele estava aqui para participar do evento em Paraty, esteve com Ferreira Gullar em uma mesa de debates, mediada por Alberto Mussa, o poeta que traduziu - Poemas suspensos...
Mourid respondeu que viver no tempo significa que o lugar mudou e se tornou memória, mas, uma memória que não é tua, que é contada por outros, no seu retorno... Há uma geração que é uma idéia da Palestina. Pessoas que, segundo ele, nunca viu nas ruas, nas lojas, nas festas... que ele não viu crescer, é uma experiência verbal, passada de geração à geração.
Safa falou sobre o livro dele, onde mostra o cidadão comum palestino. Pois o mundo só conhece o mártir e o terrorista. Então, entra o momento verdade, de Mourid dizer que a cabeça de Rumsfeld não é o dicionário da humanidade, e que a CNN não é dona da verdade. Que para a mídia, o povo palestino é um problema, e ele frisou que diante da cultura árabe a CNN é recém-nascida, e isto é verdade... Então ele falou que há amantes palestinos, escritores, avós, pais, pessoas fiéis, pessoas infiéis, poetas, e toda espécie de gente, como em todos os países... Segundo Mourid, assassinaram o caráter palestino na mídia...
Gostei de uma colocação sobre a poesia de resistência... Em mim ferve um rio azul de esperança, e meu primeiro blog tentou ser um blog de resistência e voz política, então, eu lembrei Clarice Lispector - a função do escritor - que se parece com o que foi falado por ele com poucas palavras. A função do poeta e escritor é produzir boa literatura. Clarice sabia disto. Quando não levantam bandeiras, são criticados, mas, a atitude é de resistência, não é necessário que o trabalho espelhe isto, penso que foi isto que ele quis traduzir...
"Poesia não é uma expressão geográfica, é uma expressão universal, tem a ver com humanidade"
"Um intelectual que não se coloca contra as injustiças sociais não pode ser chamado de intelecual"
"Podemos cometer erros em nossa resistência, mas, o erro original foi a ocupação"
"A raiz ( do conflito Israel-Palestina) é uma terra que foi ocupada à força"
"Me recuso a incluir a poesia em outra batalha que não seja a poesia"
"Se os poemas pudessem libertar uma aldeia, teríamos libertado cinco continentes."
Toda a origem está na desigualdade... Mourid frisou a desigualdade entre as forças militares de Israel e os Palestinos. Não é uma guerra, configura um massacre.
Dá para pensar na desigualdade que existe aqui, e na preocupação com este estado de guerra que se configura. No país onde a desigualdade social é a maior do planeta. Onde há mais elasticidade entre a maior e a menor renda... O centro do Brasil começa a entrar em convulsão... E o poeta, onde pode chegar com sua humanidade, para que sua voz soe? Ou o poeta é descartável em tempos de globalização? Ferreira Gullar ergueu sua voz nos anos sessenta... Escrevia contra a repressão... O que escreveremos contra a opressão do mundo sob as asas da águia, submisso e conformado? Até que estourem nosso coração em uma explosão sobre quatro rodas... talvez haja tempo de fazer como as crianças palestinas, agarrar umas pedras pelo caminho, atirar contra o inimigo, que pode ser a podridão da máquina administrativa, o abuso contra os direitos humanos, a interferência internacional, ou até um patrão explorador... qualquer coisa que tire a dignidade, a humanidade, e a poesia do nosso chão...


Exceção

Todos chegam
rio e trem
som e navio
luz e cartas
telegramas de consolação
convidados para jantar
o malote diplomático
o navio do espaço
todos chegam / todos exceto meu passo em direção ao meu próprio país.

Translated by Lena Jayyusi and W.S. Merwin /

Bárbara Lia (p/português)
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INTERPRETAÇÂO


Um poeta escreve num Café
A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.
A adolescente, que escrevia para a namorada.
O menino, que desenhava.
O comerciante, que planejava um negócio.
O turista, que endereçava um cartão postal.
O contador, que calculava suas dívidas.
O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.

Mourid Barghouti
Translated From Arabic by Safa Jubran
http://mouridbarghouti.net/Mouridweb/index.htm