Wednesday, March 21, 2007

SENTIMENTO DO MUNDO






















no meio do caminho tinha um banco




















uma menina para acalentar o poeta

(Bianca Lima)



















outra menina buscando entender o sentimento do mundo

(Ana C. Spreizner)




Ana C. eu a conheci bebê. Hoje, Ana tem 13 anos e mora em Osasco. No lançamento do NOIR em Osasco ela mostrou seu caderno de escritos. Ana C. mandou um texto, segundo ela a professora mandou fazer um texto narrativo através de uma imagem de uma mulher de rua deitada no banco com a estatua de Carlos Drummond de Andrade. Percebi uma identificação com o que ouvi de Isabel Milano, uma poeta que vive nas ruas. E que escolheu viver nas ruas, batucando em uma velha máquina de escrever. Isabel demonstra estar feliz sem nada,
apenas com a poesia. Conversei longamente com ela no final do ano passado, haviam roubado sua máquina de escrever e eu fiquei um pouco angustiada, sem poder ajudar a moça.
Um dia encontrei a Helena Sut, e ela angustiada querendo encontrar quem uma máquina
para Isabel. Na outra semana Helena disse: - A Isabel já está de novo com uma máquina...
Pelo que ouvi da poeta Isabel Milano, ela decidiu viver na rua, a família não a entende (isto é básico) e ela prefere a rua aos abrigos e instituições...
Foi inevitável, lembrei dela ao ler o texto da Ana, treze anos, buscando entender o sentimento do mundo. Pensei em Drummond vivo e encontrei a imagem.
Depois, "roubei" da página da minha amiga amada Bianca Lima uma foto dela aquecendo o
nosso poeta (2), em aconchego e luz de vida que a Bia tem, morta de saudades dela, que está em Montevidéu. Era para estar lá, treinando o meu espanhol e dividindo uma vida meio nômade meio hippie com a minha querida Bia, mas, meus compromissos por aqui não permitiram passar dois meses no Uruguai. Pena!


Ana C.  - a pequena poeta de Osasco que escreveu o texto abaixo:





Andava pelas ruas, perdida, sem rumo, sem casa,
sem dinheiro, sem amigos, sem família...Apenas
uma coisa fazia me sentir viva, alegre...A poesia...
Não sabe como ela é importante para mim, não
sabe como é bom poder me expressar de alguma
maneira nesse mundo em que vivo...A poesia é
mais sincera do que palavras, pois palavras são
apenas palavras, porque são esquecidas, e a poesia
são sinceros sentimentos que sentimos em tal
momento, são eternos...Então falei
"Já que não tenho nada, vou me dar um presente
do qual jamais esquecerei..." Fui-me para o
Rio de Janeiro, destino: Praia de Copacabana.
Cheguei lá fiquei emocionada por ver tal beleza
da natureza: o mar. Olho para o lado,
já exausta, avisto a tão famosa escultura de
Carlos Drummond de Andrade, sentado num
banco em frente á praia, e em frente ao prédio
em que ele morou até o triste momento de sua
despedida...Sentei-me ao seu lado aliviada por ter
cumprido a minha jornada, por ter-me dado esse
presente do qual ficará para sempre em minha
memória, em minhas duras lembranças, em minha
triste vida... Pois é, tenho que concordar com ele,
"a vida só é possível reinventada."
Me vi ali, cansada da longa jornada...
Então deitei-me no banco de Carlos Drummond de
Andrade, ao lado dele, me sentia tão feliz,
realizada e extremamente cansada, fechei meus
olhos para me transportar para um mundo
onde tudo pode acontecer, onde eu sou alguém...
Somente em meus sonhos...
Sem pensar no que irei comer amanhã...
E a poesia é e sempre será a minha doce e triste,
verdadeira e alegre brincadeira de falar verdades
que temo em dizer...
ANA C. SPREIZNER