Friday, July 27, 2007

ANTIGA PAIXÃO

O primeiro desenho animado da minha vida foi uma confecção caseira dos meus irmãos. Junto com o Kalau (onde andará o Kalau?), criaram uma máquina com madeira laminada, uma lâmpada, o mais rústico projetor que vi na vida. Meus irmãos são exímios desenhistas. Desenharam em papel manteiga com tinta nanquim (que era do meu pai agrimensor, ele também desenhava mapas). Projetaram na parede branca da sala. Na cidade - Peabiru - o lugar que mais frequentei, além da escola, foi o Cine Vera. Éramos bem pobres, mas, meu irmão mais velho foi trabalhar no Cine. Nunca perdi a matiné de domingo. Vivi momentos mágicos no Cine Vera. No início ia com meus pais, com direito de entrar no cinema com meu pijaminha de flanela novo. Assistir Marcelino, Pão e Vinho e ver a emoção da minha mãe. Nossa rotina domingueira era revivida durante a semana, em brincadeiras de imitação. Então nos tornamos Batman, construímos circos, e fomos heróis e bandidos, índios e mocinhos. Até que eu já estava quase mocinha, cansada de brincadeirinha de criança, e no último dia de brincadeira o filme tinha a loucura de Nero. Não queria brincar, e meu irmão louco para reviver Roma e Nero. Entrei e disse - não tô a fim. Fui beber água na cozinha, procurar algo mais interessante e ele se mandou para o quintal, no galinheiro que era nosso QG, pois não existia nenhuma galinha e acabou virando nosso ponto de brincadeira. Estava tranquila, nem aí para o Nero quando ouvi meu irmão gritando: fogo! fogo! Achei que ele estava levando a sério a sua brincadeira isolada de Nero, uma interpretação digna de Oscar. Fiquei intrigada com a força que ele imprimia aos gritos, então fui ao quintal e ele havia realmente incendiado o galinheiro. Era verão, o forro era feito de lâmina de madeira e bastou acender o fósforo. Minha mãe apagou o fogo com baldes e baldes de água, ficamos juntos de castigo, embora eu não tivesse incendiado Roma (o galinheiro).
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Passei o dia de ontem lendo um livro que recebi de Almir Feijó:
- Descríticas - 316 filmes.
Mandei meus livros de poesias para ele e fui agraciada com um livro editado com primor pela Criar Edições. Uma loucura. Passear por uma galeria de filmes que vi, um livro de 553 páginas, com fotos e até autógrafos de alguns mitos de Hollywood. Rememorar filmes, cenas, junto, épocas da minha vida. Foi um prêmio para quem está presa em casa (de novo) sem poder andar. Bem, já estou ficando preocupada com minhas semelhanças com Frida Kahlo. O pé direito de novo imobilizado. Um dia eu saro, ou vou ter que ser a charmosa escritora que vai andar de bengala. Ou então, a vida pede um tempo. Deve ser algum aviso, um pedido para esta mulher - Pare!
Paro.
Ler bons livros, ver bons filmes, que agora posso ver em casa, e escrever, escrever, escrever.
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blog do Almir Feijó: