Saturday, February 23, 2008

NO CAMINHO COM NEUZA PINHEIRO

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1.

Nuvem vermelha no céu
na terra silêncio
uma ave voava
e o rádio anunciava a Ave-Maria
e dava uma saudade
uma tristeza estranha
uma vontade de chorar...


e a noite descia tranqüila
e a noite envolvia Londrina.

Olha quanta luz no céu
olha um avião voando sozinho
sobre o Perobal
e a sanfona tocava
uma valsa triste
e a cabocla de flor no cabelo
cantava pra lua...


Arrigo Barnabé nesta canção Londrina faz a gente voltar a ser menina. Londrina. O que contém a água de Londrina? Quem dela bebe verte esta luz sublime, de poesia e música. Como explicar tantos talentos? Pinduca, Bortolotto, Garcia Lopes, Neuza Pinheiro, Itamar Assumpção? Poetas tão especiais como o Marcos Losnak e o Maurício Arruda Mendonça e mais tanta Arte que não consigo lembrar... O que Londrina representa para Neuza Pinheiro?



(Neuza): Londrina ainda tem cheiro de água e sertão, cheiro de peito de mãe. Tem o Lago, as árvores, muito passarinho. Passa aquela sensação de que você nunca mais vai sentir frio nem fome, que vai ter colo e acolhimento. Ilusão. Somos um bando de expatriados com medo que escureça. É assim Bárbara bela, lá e além. Mas vale uma investigação líquida-gozosa, um mergulho no Igapó, algumas escavações escatológicas(...), uma pegada, um menir...o déficit de magia nos reduz a pele e osso. Agora...eu te digo que lá tem uns ninhos de altos maffagafos e altas maffagafas que, sem ter seus inventos badalados pela grande mídia grafam e galopam, grasnam e garimpam. Sim senhora, vertem sua luz por ali nos seus guetos; destripados e vampirizados pela mãe permanecem com a mãe. Porque mãe é mãe. E quem cai no mundo vira expatriado, fica sem raiz. Às vezes acordo na noite me debulhando em lágrimas: eu quero a minha mãe..


Soube que Itamar Assumpção, pouco tempo antes de partir, foi a Londrina e, anônimo, andou vagarosamente pelo calçadão, sozinho, em silêncio. Arrigo Barnabé fica sombrio quando fala de Londrina. Fez Londrina, grande valsa; fez Tamarana, falando de jaguatirica, cana e banana; falando do tio Mário. Reminiscências. Estamos tão cansados de ser marmanjões, temos saudade do berço...Eu fiz Araponga, nasci lá onde as arapongas estão extintas. Nascemos aqui, onde a Terra está quase extinta. E ficaremos assim, sem Mãe...Ficaremos assim, sem mãe?

2.
um tigre
quando caminha pelas pedras
vai
como pisando pétalas


Há muitos anos li esta poesia tua, em fevereiro de 2.002 quando a revista Caros Amigos publicou a entrevista – Henfil, O Orfeu das Gerais – uma linda entrevista que você fez com o Henfil. Li que a poesia você escreveu quando o viu caminhando lento – Um tigre. A entrevista é poesia pura, bela e instigante. Nunca pensou o jornalismo como profissão? O que a levou a optar pela música e outros caminhos?


(Neuza): Henfil era tão suave e tão refinado.(Tinha o joelho inchado pela doença, a hemofilia. E caminhava devagar, com dificuldade) Paulinho da Viola também é. Augusto de Campos. Tem pessoas assim...Marcelo Sandmann, Ulisses, a Élida-professora-minhamiga, o “seo” Albino, pedreiro que trabalha na escola onde leciono. Esses caras viajam pelo mundo, vão deixando um rastro forte sem que ninguém saiba no fundo quem eles são. Eu acho que eles nem se preocupam com isso. Vão fazendo e vão acontecendo


Então aquele poema é isso, uma pequena ode aos homens e mulheres tigre, uma dor pelos tigres-tigres, capturados, exibidos nos circos do mundo, abandonados ou abatidos sem piedade no seu anonimato de nobreza, delicadeza e desaparecimento.


Eu enlouqueço a cada segundo, como se nascesse sessenta vezes por minuto. Vejo a mesma árvore da minha janela e isso me assusta porque ela vira nave, vira luz, vira mãe. E queriam cortar minha seringueira secular há alguns dias, um grupo TFP do lugar, dizendo ser ela um “antro de pecado” só porque uns adolescentes do outro prédio vizinho vinham vez em quando no começo da noite trocar uns beijos com suas meninas, incensar o ar e rir bem alto sob os galhos daquela imensidão...Você entende? Era insuportável assistir pela janela o relax, a alegria, o amor. Então decidiram cortar a árvore! Daí transtornei, corri ao poder decisório (a síndica com seu séquito, a cruzada babando de raiva no corredor e naquela de vamos cortar amanhã mesmo) e fui desfiando as palavras: -sabiam que árvores assim grandes, mantém o equilíbrio da região, oxigenam e purificam o ambiente?(indiferença...)-E sabiam que essa árvore acolhe muitas espécies de pássaros, que eles acabam ficando por aqui, já ouviram pela manhã como cantam? (nem te ligo...) – Ah, e já perceberam como por aqui é calmo, não ocorrem assaltos nestes prédios, não rolam brigas nem agressões? Árvores como essa contribuem pra limpar o astral(reação mínima, olhares de soslaio...)


E, vou contar uma história meio trágica mas, por favor, não comentem com os outros pra não assustar(indisfarçável preocupação) Lá na minha terra, há uns 50 anos atrás, aconteceu um fato estranho e terrível, nunca mais cortaram as grandes árvores do lugar por conta disso. As seringueiras, inclusive, foram tombadas como patrimônio histórico(olhares meio aterrorizados e curiosos. Eu procurando inspiração pra continuar e convencer). – Dizem os antigos moradores que alguns imigrantes ingleses decidiram derrubar umas seringueiras próximas das suas casas dizendo não suportar o barulho dos pássaros pela manhã. Foram avisados por nativos (havia sobrado alguns índios por ali, pasmem!) que aquelas eram árvores sagradas, que as grandes árvores são morada de espíritos protetores e curadores, elas são a pele do mundo; ao serem cortadas tudo em volta endurece e resseca. Portanto eles não deveriam derrubar as árvores. No dia seguinte pela manhã se ouvia o ranger da queda. Foi um dia triste, sombrio. Na semana seguinte pássaros desapareceram dali, animais começaram a morrer e, o que é mais terrível, as mulheres do lugar foram acometidas por sintomas esquisitíssimos, secaram, os cabelos cairam, a pele escureceu e as unhas sangravam. Algumas não resistiram...(terror absoluto...) -


- Salvei a árvore, Bárbara.

- Tenho essa alma multifacetada, as coisas acabam não cabendo.

- Música... eu não escolhi a música. Fui abduzida (lembrando meu querido e grande Jairo Batista Pereira)

3.
Banda Sabor de Veneno. É possível nos narrar esta vivência: Cantar ao lado de Itamar Assumpção e outras vozes femininas tão potentes e belas como a tua?


(Neuza): aos 14 anos eu cantava na banda de J. PINHEIRO, meu pai, um dos maiores músicos que conheci. Ele morreu muito jovem sem saber o quanto era genial. E foi esquecido muito rápido. Itamar também será esquecido. A velocidade dos eventos é alucinante, a morte também virou produto de marketing: flores clonadas, caixões estratosféricos, biografias, DVDs, curtas-metragens (aos mortos ilustres, alternativos e não reconhecidos em vida). Quanto ao morto, esgotadas todas as possibilidades de rendimento, ninguém se lembrará...com exceção de uns malucos beleza colecionadores de excentricidades.


Voz? Voz é mistério. Mais que o timbre, a textura, afinação, potência enfim, é o poder de mobilizar, de arrebatar multidões. Toda mulher artista deseja lá no fundo ser diva. Uma Billie Holiday nunca será esquecida.

Mas, ela não soube disso. Entrava pela porta dos fundos por ser negra, cantava para os brancos. Sofisticadíssima. Poderosa. E frágil como uma libélula. Divas são tão frágeis. M. Monroe...Falo e isso me comove. Foi-se o tempo das divas. Porque? Era raro o talento nu e cru, ali, ao vivo. Eram raras também as mulheres que se atreviam a sair da penumbra. Divas eram concebidas sob sedosos véus de magia, de mistério. Em torno delas se criava uma aura beirando o divino. Elizete Cardoso...Edith Piaf...

Hoje, dezenas de cantoras medíocres e saradas entram num estúdio de alta tecnologia e saem dali em poucos dias com um cd cheio de efeitos, de firula. Tem o lance de parentesco também, filha do fulano, prima do beltrano. Tem o lance do visual, da gostosura. Ah, e a vocação para o escândalo, a fofóca; a disposição de escrever asneiras em blogs imbecis...Muitas atrizes e cantoras estão aí. Enfim...é preciso manter o interesse aceso nem que seja pra pintar os pentelhos de rosa choque em praça pública. Diva? Nunca mais. Tem gente pagando pra ser aberração.

Bom, e quem poderia ocupar o status de diva contemporânea, Madonna? No Brasil...quem poderia? Eu votaria em Rita Ribeiro e sua tecnomacumba, como reencarnação contemporânea de Carmem Miranda


Antes que me esqueça: admiro Madonna e me impressionou muito o seu papel no cinema como Evita Perón


Sobre Sabor de Veneno ganhar o prêmio de melhor intérprete em nível nacional foi mesmo a glória. Mas entrei em pânico. Eu era jovem demais, sertaneja demais e carregava um arsenal de culpa.

Me lembro que o Arrigo dizia “você não pode voltar agora pro Paraná, não pode mesmo”. Mas eu voltei. E essa é uma longa história.

Inclusive, o livro de Fábio Giorgio “Na boca do bode-Entidades Musicais em trânsito”, lançado no final de 2006 pela Atritoart, conta histórias impressionantes sobre esse povo todo que saiu do Paraná.

É um dos livros mais completos sobre a saga de artistas paranaenses saídos de Londrina em busca de reconhecimento.

4.
Mulheres Amarílis


Acenam
açucenam
suas raízes

Já foram mais felizes
a céu aberto

Mulheres Amarílis

Milhões de anos
e este deserto.



A poesia? Li poemas esparsos teus em alguns sites, na antologia “Other Shores”, na Coyote nº1. Por favor, não diga que você nunca tentou mandar um livro para um editor? Em nome de tanta gente que ama a tua poesia conte aí - quando vai acontecer o teu livro?

(Neuza): Você sabe que anos depois de ter escrito esse poema fui descobrir que amarilis e açucena eram a mesma flor?

Eu nunca pensei que pudesse publicar um livro. Quando ficava pronto desmontava tudo pra começar com outro título, numa outra ordem, em outro século, num outro mundo. Ou pensava: não é nada disso...


Aí ficava questionando até meu nome, já não me soava bem, não reconhecia meus versos, era um tal destempero...


Às vezes penso que sou só uma caipira em busca de si mesma, num mergulho sem fim, sem fundo. E que de nada me vale a poesia que faço, a voz que me veio de herança, as canções que já criei.



Comprei uma viola neste ano de 2007. Se soubesse antes, teria tocado viola a vida inteira.

Meus primeiros poemas foram publicados graças ao Ademir Assunção e ao Rodrigo Garcia Lopes(em 1988, na folha de Londrina)Foi Ademir Assunção quem me avisou sobre o Premio Lucio Lins.

Bom, juntei toda a coragem que tinha nesse final de 2007, montei um projeto, “PELE & OSSO e um punhado de trégua”(uma idéia que tem mais de década) e enviei pra João Pessoa, concorrendo ao Primeiro Prêmio Lúcio Lins de Literatura. Lúcio Lins, poeta paraibano que se foi em 2005 , um poeta que quero conhecer melhor, quero saber tudo sobre Lúcio Lins. Esse prêmio foi instituido pela Fundação Cultural de J Pessoa, cujo diretor executivo é o poeta Lau Siqueira.


E...venci! Soube pela internet na noite de Natal. Portanto, vou publicar meu primeiro livro. Gostei muitíssimo que tenha sido lá no Nordeste, onde sou quase uma ilustre desconhecida. E mais: tem uma alma minha que andou por lá, que já viveu naquela terra.


se você leu a entrevista que fiz com o orfeu Henfil vai perceber que logo na abertura, comentando personagens dele(Graúna, Bode Orelana, etc.),eu já vou tomando as dores e as coisas de lá, a sede, a fome e a arte de lá, como se fossem minhas, como se eu fosse filha dali.


Nos jornais de escola meus textos sempre vinham ilustrados com a graúna, eu sonhava ser ela, chorava e ria por ela, sempre foi minha musa, terapeuta, amiga, mãe. Tinha que ser lá, ainda bem.

5.


*Voz absurdamente original, carregada de um páthos que comove e assusta, a exigir ouvidos dispostos a romper com hábitos de escuta e a lançar-se na vertigem. Há anos esperamos um disco de Neuza Pinheiro, para termos bem perto sua voz, sua música, sua poesia. Olodango, longamente gestado, põe termo a tal expectativa. O CD surpreende pela concepção musical e pelo repertório, pela variedade dos gêneros praticados, pelas parcerias. Neuza, felizmente, evita a tentação de tantas cantoras, a de revisitar alguns clássicos de sempre, por vezes com nova intenção e roupagem, freqüentemente com o apelo fácil à memória e aos afetos imediatos do ouvinte. É que Neuza, além de cantora, é também inspirada autora, e o caráter autoral do trabalho vem logo para o primeiro plano...* (Marcelo Sandmann)


(Neuza):


Marcelo Sandmann é um artista de rara sensibilidade e um cara muito generoso. Foi o primeiro a comentar sobre o Olodango e fez essa leitura holística, amorosa, repleta de vida e cor que você citou aí.


Ele não pode avaliar o quanto fiquei feliz. Eu sei que o querido Ulisses Galetto falou e tocou Olodango num programa da Rádio Educativa aí em Curitiba e não consegui ouvir. Mas ele vai me enviar a cópia pelo correio. Jairo Batista Pereira, poeta dos bons aí do Paraná, fez um longo e impressionante comentário sobre o Olodango. Daniel Brazil também, editor da Revista Brasileira de Música(virtual) aqui em Sampa, que me surpreendeu da maneira como falou sobre o meu primeiro trabalho solo.


A Rádio Universidade Fm de Londrina tocou o cd inteiro, intercalado com comentários meus, no Dia Internacional da Mulher. Patricia Zanin, jornalista sensíbilíssima e novidadeira propôs isso e foi bom.

E você, Bárbara Lia, abrindo espaço, abrindo alas/asas pra que eu borbulhe e borboleteie...ahahah!!


Mas, olha só, ainda não fui convidada a lançar o Olodango em Londrina nem em Arapongas, onde nasci. Recebi convite do Espaço Cultural Cidadão do Mundo em S. Caetano, do projeto Caixa de Som no Sesc V. Mariana, lancei o Olodango no 21º Salão Nacional Psiu Poético em Montes Claros-MG, tudo isso em 2007. E atenção: procuro patrocínio pra registrar em cd o trabalho PROFISSÃO DE FEBRE, poemas de Paulo Leminski que venho musicando há mais de vinte anos. O projeto foi inscrito na Petrobrás em 2007 mas infelizmente...

...

6.
Olodango. Li que foi uma palavra que você ouviu em sonhos. Conte passo a passo, desde a idéia do CD – ele não ia se chamar Vermelhô? – Mas, enfim, conte desde a idéia de lançar o Cd até o lançamento.

(Neuza): “Vermelhô” é um projeto que eu alimento e um dia vou realizar. É o meu ser tribal, de avós indios e negros. Ritmo, percussão de voz e tambores, transe.


Olodango foi palavra ouvida em sonho há uns 15 anos ou mais.


Não encontrei significado, não encontrei a palavra. E guardei pra usar em algum acontecimento importante.


Fui convidada por dois músicos mato-grossenses, Luciano e Ângelo Galbiati, que já conheciam meu trabalho e haviam tocado comigo. Eles inscreveram um projeto no PROMIC(Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina), o projeto Sonora, contemplando alguns compositores de Londrina como o grande instrumentista André Siqueira, o compositor Marquinhos Diet, o pianista e compositor Mário Loureiro...Foi um processo difícil, vários partos mal acabados, abortos...até chegar ao filho inteiro ,Olodango. É um trabalho autoral, com exceção de duas faixas: Londrina, do Arrigo; e Aranha Mecânica, dos irmãos Galbiati. Selecionei o que mais parecia eu e meu. Havia recursos materiais minguados e talento demais das pessoas que participaram desse trabalho: os irmãos Galbiati, Marcos Santos, Marco Scolari, André Siqueira, André Vercelino, Felipe Bharten, Roberto Souza,músicos de Londrina, inventores da mais alta estirpe.

Foi laboratório, dois anos experimentando, os irmãos Galbiati e eu totalmente entregues, fechados num estúdio. A gente desenhou junto, coloriu, temperou. E destemperou também...

Toquei violão em algumas faixas, fiz até baixo no meu violão em 2 canções pq não havia grana pra pagar baixista. Os arranjos de backing, tb fiz e executei. A gente fez loucuras, fez magia, fez milagre. É uma longa história, daria um livro.

O resultado ficou surpreendente. Às vezes não me reconheço ali, estranho a voz, os efeitos, o instrumental...tenho certeza de que um dia o Olodango será reconhecido como deveria.


Tem algumas parcerias fortes: duas com Arnaldo Antunes(Pensamento 2 e Dúvida 3) e uma com Paulo Leminski(Cabeça Cortada) que é atávica, veio dos confins das cavernas dos meus mais longínquos ancestrais. Termina com um ritual xamânico fabuloso, os galbiati e eu em transe a ponto de, no final, haver uma fala, um dialeto, sabe-se lá, que não sei de onde tirei. Jamais vou conseguir de novo articular aqueles sons, aqueles grunhidos...


Eu gostaria muito de relatar cada momento, cada flash dessa história.


Quem sabe...

7.


Se eu pudesse me inventar de novo, meu amor
virava bálsamo pra tua dor
Agora vê, meu amor, os astros como estão nus.
Vênus me deixa tão leve
lá no azul..
Agora vê os astros, meu amor, como estão nus,
Vênus te deixe bem leve,
lá no azul...


Esta poesia você dedica aos filhos Pedro, Lia e Mariana. Como é ser mulher e mãe neste tempo onde nós preferimos a emoção ao silicone, uma lágrima verdadeira em lugar dos cremes? A solidão abraçada à nossa poesia por não concebermos uma era de poetas pop-stars? Como é ser mãe/mulher/cantora/poeta neste milênio de securas?

(Neuza):- ah, eu me vejo dançando, literalmente, sob uma chuva de napalm, e as feridas e queimaduras já se fechando como em Matrix mas em seguida um míssil balistico já me atinge pela retaguarda, detona a minha aldeia aí saio eu e os meus, mal costurados, uns monstros...mas saimos assim, criaturas bioluminescentes, tipo um peixe-dragão-do-mar-profundo ou uma medusa periphilla, meus filhos ouriços e lírios do mar, numa visão espetaculosa de luz e cor, num movimento estranho de radares e antenas, ligados às coisas do mundo, arrancando tudo que possa de música e poesia, fazendo bálsamo e colocando nas feridas de quem venha. Porque é preciso compaixão. Além de paixão. E no dia-a-dia vamos reciclando o nosso lixo, economizando nossa água, tentar salvar a nossa casa.

Do meu lado, quisera Ter alguns bichos. Mas sou uma mulher sem cão, sem pássaro. Moro em apartamento...E uso sombrinha no verão pra proteger a pele.



8.


Você é socióloga e detonou pensamentos cristalinos em sua arte e nas coisas todas que li. Considerando que Neuza Pinheiro por Neuza Pinheiro (que é sempre um tópico que coloco nas entrevistas) já está dissecado no item acima. Como você narraria este tempo de luta tardia pela preservação do meio ambiente e a total ausência de grandeza nas hostes políticas. No mundo globalizado, alguma luz?

#(Neuza) Eu respondi, de alguma forma, lá em cima? A gente precisa se adequar à idéia de que tudo pode ir pelos ares a qualquer momento


E de que nós não somos o superman nem o batman e não se inventou ainda o teletransporte. Ninguém poderá migrar para outra galáxia, para outra dimensão. Fada também não existe. E os deuses...sem comentários. Nós criamos e alimentamos o caos, fomos sempre permissivos, alienados, predadores cruéis e umas criaturinhas arrogantes, megalomaníacas. Sabe, eu ando paranóica com sacos plásticos, esses sacos de supermercados que todo mundo usa. Tenho pesadelos sobre um mundo terrível, todos enterrados em montanhas de sacos de lixo de supermercado, sob o domínio de uma horda brutal e armada até os dentes, procurando uma gota dágua...


Exagerei? Olha, nas profundezas abissais dos oceanos, aquele breu total, os animais foram se adaptando e conseguem sobreviver. Foi preciso milhares...milhões de anos. No deserto do Atacama(Chile) onde fica 50 anos sem chover, há vida, sim senhor! As serpentes do deserto, pra manter o corpo resfriado, pra não explodir, mergulham na profundeza da areia procurando algum ponto mais suportável.

Mas nós não somos serpentes, não somos anêmonas.


Somos fragilíssimos, isso sim!

É preciso acordar, olhar pra dentro, abandonar o apego a esse invólucro, aos adereços, pinduricalhos, batata frita, refrigerante e hot-dog . A questão transcende o político. Não se trata mais de adivinhar quem vai levar vantagem em tudo, quem vai ficar com o pedaço maior. A pergunta é: como vamos nos manter vivos? E os nossos filhos, netos, bisnetos? O que vão encontrar por aqui?

A globalização é um meio poderoso de reunir, discutir, criar alternativas de sobrevivência, de salvação.

Mas nós preferimos ver reality shows, espiar os blogs egocentrados e recheados de baboseiras, as vidas alheias dos que contam o que comem no almoço, com quem transam no jantar, qual a preferência de cor, religião, se roncam e soltam pum qdo dormem, coisas do gênero.


Será que essa espécie que se autodenomina Homo Sapiens merece ser salva? Pior: nós queremos ser salvos? E, por favor, não me venham com citações do Apocalípse, não me venham fazer apologia dessa ou daquela religião. Na semana passada vi uma mulher jovem com sua filhinha(a cça devia ter uns três anos) andando pela avenida repleta de carros em pleno meio-dia, um sol de rachar, praticamente arrastando a criança pela mão, sem sombrinha, enfim...perguntei a ela se não poderia ao menos andar na sombra ou proteger a criança, carregá-la...a mãe me olhou com grande rancor e respondeu:” # não precisa nada disso; Deus cuida.”


Era uma fanática religiosa, dogmática. Não há nada tão letal quanto isso. Milhões de pessoas estão nesse barco, nessa ignorância, acreditando piamente poder alcançar a salvação, salvar a própria pele...ou melhor, salvar a própria alma. E dane-se o resto, é assim que “raciocinam”. Eu sinto muito por todos nós, pelo devir. Que devir??

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Neuza Pinheiro, cantora, compositora, poeta, participou de revistas como Coyote, Babel, Et cetera, Medusa...Trabalhou com Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Seu texto "O metaformoso" consta no livro A linha que nunca termina(ed. Lamparina, 2005), homenagem a Leminski. É socióloga, parananse, vive no grande ABC (Santo André). Breve seu primeiro livro solo: “PELE & OSSO e um punhado de trégua” livro de poesias vencedor do Primeiro Prêmio Lúcio Lins de Literatura.



O psicólogo paulistano Luiz Couto(do Nhocuné Soul) quem criou a comunifade no orkut e Página no myspace sobre o trabalho Olodango:

http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=152132013


Poesias no Pop Box e Zunái
http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/neuzaverso.htm


www.revistamusicabrasileira.com



... as letras das canções - Londrina e Lá no azul,
retirei do cd Olodango
e Amarílis da Revista Coyote n° 1,

foto - Roberto Parizotti