Saturday, July 12, 2008

Meu tio herói de guerra


Cidade de Montese após cessarem os ataques.
A última vez que falei com meu tio Leonercio foi uma longa conversa por telefone, ele me contava do novo livro que escrevia e que lhe custou muitas viagens ao interior do Paraná. Mais de dez anos antes da nossa última conversa ela havia lançado - Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira. Nunca li seu último livro - O velho estafeta - pois ele estava vivendo um novo casamento com uma pessoa que se fechou em conchas, mudou-se para muito longe após a morte dele, levou junto o livro, e demonstrou que não tinha interesse em publicá-lo. Fico aqui pensando no direito sagrado de filhos e sobrinhos e netos de terem acesso aos bens intelectuais dos seus. Quando tento falar com meus primos sobre o livro eles vivem o mesmo drama que eu. Um casamento dá poderes demais a terceiros e se não se pode contestar o poder do cônjuge sobre os bens da matéria, devíamos ter direito aos bens intangíveis - afinal, está no livro sagrado que o Espírito sopra onde quer... ou não? Eu ainda não havia publicado uma linha e me via lentamente voltando a escrever versos e histórias, coisa que eu tinha abandonado lá pelos meus vinte anos, quando falei com meu tio, dez anos atrás. Percebi o desejo dele, grande desejo, de lançar seu livro. Chegou a perguntar sobre a Lei Rouanet. Uma pena viver em um País onde um livro que resgata história não pode ser acolhido, publicado, lido. Nâo sei se o furor dele no livro anterior era causa da dificuldade de lançar um novo livro. Sempre penso nas coisas que ele narrou sobre a nova história. Fiquei imaginando homens de chapéu de couro em lombos de burros, com embornais de lona atados ao corpo e aos animais, cruzando trechos íngremes para levar correspondências, documentos. Fiquei imaginando todo o tempo em que ele percorreu lugares para pesquisar sobre os estafetas. Senti desejos de ler o livro que nunca li afinal.
Ontem reencontrei o livro dele que eu imaginava perdido. Lembro que senti falta dele em uma mudança. Levaram meu vestido de noiva, uma centrífuga, muitas roupas e algumas quinquilharias de cozinha que eu havia deixado em uma caixa na casa antiga. Quando voltei para apanhar, percebi o roubo e não me entristeci pelo vestido (do casamento que não deu certo), nem pela centrífuga, muito embora ela lembrasse uma infinidade de sucos de cenoura e tomate e de frutas que eu fiz para meus filhos. O rito terno de mamadeiras e fraldas que eu amava, de um tempo em que eu fui loba serena e feliz. Mas, entristeci por pensar perdido o livro, um pouco menos ao imaginar que algum ladrão se interessava por leitura, afinal... Mas, a caixa com poucos livros foi parar no quarto das minhas filhas, e ficou assim, até agora. Para mudar algumas coisas reviraram o quarto de cabeça para baixo e eu fiquei feliz ao encontrar entre - Ensaios e Anseios Crípticos, do Paulo Leminski e um livro de Mário de Andrade - o livro do tio herói de guerra, em uma caixa de papelão, espremido entre tantos outros.
Encontrei referências a ele na internet, sei que o livro do meu tio sacudiu um pouco o orgulho da Feb. Conheci, através de uma amiga, um senhor bem velhinho que até desconfio que era do Exército, que me contou que o livro do meu tio foi retirado da Livraria. Nao duvidei pois o livro foi lançado em abril de 1.985. Lembro que meu pai veio do interior e se hospedou em minha casa, podia notar o orgulho dele. Vez por outra eu fico imaginando o que meu pai diria diante de um livro meu, recomecei a escrever no ano em que ele morreu. Fomos ao lançamento em uma das lojas da Livrarias Curitiba. Li o livro, e soube um pouco mais da II Guerra, por alguém que esteve lá, que voltou com hábitos modificados. Meu tio jamais dormiu em um colchão macio, preferia dormir no chão, ou em tábuas, acostumou o corpo ao tempo da guerra o que causou transtornos em sua vida diária. Mesmo em seu carro ele colocou uma espécie de tapete de madeira no banco, aqueles com pequeninas bolas de madeira. Na Itália, um incidente no acampamento quase se torna causa de uma cegueira. Ele esteve nos hospitais, no front, em muita parte. Como era sargento, quando seu superior foi ferido, tomou a frente do seu pelotão e comandou a Tomada de Montese. Voltou com duas medalhas de herói de guerra, e um belo dia decidiu escrever um livro, muito tempo depois de sua volta.
Não sei quando começou em meu País a corrupção, talvez tenha começado quando desvirginaram nossas praias com caravelas. Para mim, a ousadia do meu tio não espanta, este lado louco de dizer o que pensa tem um tanto a ver com o meu sangue mesmo... O livro começa com a visita de um ex-pracinha a um amigo dos tempos da guerra. Do susto de encontrar o amigo criando larvas e vivendo em um mísero casebre nas imediações de Brasília, sendo sustentado pela mulher que leciona, já velha e cansada também a mulher do ex-soldado. O livro começa, talvez, com uma visita real do meu tio a algum amigo. Meu tio pertenceu ao S.N.I. quando voltaram da Itália ele tinha juventude e inteligência, um pai deputado, o meu avô. Para ele a vida não foi complexa no campo material, mas, foi complexa no campo psicológico, como foi para uma infinidade de soldados que apelaram para o que meu tio chamava - famigerada pensão de major louco de guerra. Acredito nas narrativas e já vivi o bastante para saber que a verdade fica por vezes escondida e nem sempre é propalada. Vou reler o livro do tio, o livro reencontrado.



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Entardecia, uma tarde nublada, de horizontes entenebrecidos, quando a frota de pequenas embarcações singrou as águas agitadas do Mar de Tirreno, ao longo da costa italiana. À proporção que o cardume de pequenos barcos avançava, mais violento e agitado mostrava-se o mar. Ondas imensas se erguiam fazendo as barcaças desaparecerem nos buracos abertos; a água espumante varria os convéses de lado a lado. Fora dos porões apertados, tinha-se que se agarrar às cordas e cabos de aço para não ser arrastado pelas ondas que vinham e passavam.

Muitos soldados que resistiram bem a travessia do Atlântico, nos grandes navios, ali, viajando nas barcaças, baquearam.

Enquanto as barcaças avançavam beirando as penedias, sobre elas, nas ilhas e nos pontos mais destacados, as antíquissimas ruínas de castelos iam aparecendo e ficando para trás.

Somente ao amanhecer, chegando no porto de Livorno, é que o mar se fez mais calmo.

No porto de Livorno a tropa passou para os caminhões reforçados de transporte do Exército norte-americano, que a conduziu para a área de acampamento, na Quinta Real de San Rossore.

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***
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Um navio carregado de alimentos, atracoou no porto de Nápoles. Navio brasileiro, com comida para o soldado brasileiro.

O Serviço Médico Aliado, examinou a carga:

- e mandou descarregar;
- e mandou espalhar gasolina;
- e mandou pôr fogo.

Achou que não servia:
- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada;
- charque podre...

Depois disso nunca mais mandaram navio de comida para o soldado brasileiro. Parece que houve uma ordem do Comando Superior Aliado: - "Não mandem mais estas coisas!"

Isto foi bom para os dois lados: bom para os que estavam roubando o dinheiro que era para comprar comida de primeira e já não precisavam comprar mais nada; e, bom, melhor ainda, para o soldado que estava guerreando na Itália e não teria que comer

- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada/
- batatinha brotando;
cebola podre;
charque podre e
fumar
- Fulgor, Yolanda e Liberty, molhados e ardidos.
Só que, com isto, o Brasil fez uma bruta dívida de comida que o americano forneceu para o soldado brasileiro. Mas esta sim era comida de primeira. De primeiríssima.

O chato da história é a gente ter vergonha...


Leonercio Soares (Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira - edição do autor)

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Sobre o livro: