Tuesday, July 08, 2008

Para Camille, com uma flor de pedra


Niobide blessée

À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera

O Rio Loire um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma

Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas
Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor

Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas

Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:

Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada

Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.

Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

BÁRBARA LIA

http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_po_b%E1rbara_Lia.htm



Em fevereiro passei alguns dias e noites atada à alma de Camille Claudel, ela enreda os signos e sua vida, neste mergulho na vida de Camille senti a dor dela, tão profunda que me deixou prostrada. Na página da jornalista Ana Lucia Vasconcellos, link acima, algumas poesias destes dias, que eu vesti a pele de Camille. Quando ela foi atirada em um asilo de loucos pela família, quando perdeu o amante Rodin, sofreu um aborto, e naufragou em um tempo dolorido. As esculturas de Camille são poesias que espelham sua dor, enredadas com signos, e nesta troca de experiências, além do tempo, que não existe tempo, tentei dar voz à Camille... Nióbide Blessé, ou Níobe ferida, é uma das esculturas na qual me debrucei para escrever - Para Camille, com uma flor de pedra...



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Níobe, a irmã de Pélops, saiu da Ásia para se casar com outro filho de Zeus, Anfíon, famoso músico que reinava em Tebas. Teve muitos filhos e filhas (a quantidade varia conforme a fonte), e estava tão orgulhosa e feliz com sua prole que cometeu o erro de declarar-se superior à deusa Latona, que tivera somente dois filhos, Apolo e Ártemis.

A deusa se ofendeu e pediu aos filhos que a vingassem. Apolo matou então, com suas flechas, todos os rapazes; Ártemis fez o mesmo a todas as moças. Níobe, cheia de dor, voltou para a Ásia e tanto chorava que os outros deuses se apiedaram dela: transformaram-na numa rocha perto do Monte Sípilo, de onde uma nascente vertia água constantemente.

fonte: http://greciantiga.org/mit/mit07-1.asp

- o rio que nasceu das lágrimas de Níobe é o Aqueloou