Thursday, August 07, 2008

I colori dell'anima


Terça, no Teatro da Caixa, eu vi Enéas Lour e André Coelho no palco, uma leitura do livro - Os Rios Profundos - do escritor peruano Jose Maria Arguedas. A direção de Moacir Chaves, dentro do Projeto Outras Leituras - Ciclo Latino-Americano (Curadoria de Mario Domingues, Nena Inoue e Josely Vianna Baptista). Ao final do debate o diretor Moacir tinha um único exemplar do livro que disse doaria para a platéia. Eu ali, hipnotizando o livro, depois de ouvir a leitura linda dos dois atores, do capítulo que abre o livro - O velho. Vi as ruas de Cuzco, seus palácios e suas cores, a alma tem cor, e o escritor sabe capturar a cor da alma dos pássaros, das flores, dos rios. O rio de pedras da muralha de um palácio Inca, dança diante dos olhos durante a leitura, pedras flutuantes, a lembrar os rios... foi o instante mágico, permeado do idioma quíchua:
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"Eram maiores e mais estranhas do que imaginara as pedras da muralha inca; ferviam sob o segundo piso caiado que pelo lado da rua estreita não tinha saída. Lembrei-me, então, das canções quíchuas que repetem uma frase patética constante; "Yawar mayu", rio de sangue; 'yawar unu", água sangrenta; "puk-tik, yawar k'ocha", lago de sangue que ferve ; "yawar wek'e", lágrimas de sangue. Acaso não poderia dizer-se "yawar rumi", pedra de sangue, ou "puk-tik", "yawar-rumi", pedra de sangue fervente? Era estática a muralha, mas fervia por todas as suas linhas, e a superfície era cambiante como as dos rios no verão, que têm uma crista assim, no centro do seu caudal, que é a zona mais temível e poderosa. Os índios chamam "yawar mayu" e esses rios turvos, porque mostram com o sol um brilho em movimento, semelhante ao do sangue. Também chamam "yawar mayu" ao tempo violento das danças guerreiras, ao momento em que os bailarinos lutam.
- Puk'tik, yawar rumi! - exclamei diante da muralha, em voz alta.
E como a rua continuava em silêncio , repeti a frase várias vezes."
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Encantada com o livro e o texto poético de Arguedas, hipnotizei o livro e ao final na hora de sortear aos que estavam ali ergui a mão e ganhei o livro - Os Rios Profundos - de Jose María Arguedas. Uma publicação da Assírio Alvim, tradução de José Bento.
Ontem fui ao lançamento do livro Cantares de Manoel de Andrade, abri o livro em um poema Hiroshima, lembrei a data - 6 de agosto - fechei o livro, e passou uma nuvem cinza ao lado... Hiroshima ainda queima.
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de repente nos teus ares
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares
gritos, fogo, turbilhão.
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O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia
...
Na volta, liguei a tevê, em um dos canais da Net passava um filme sobre Modigliani e uma avalanche de poesia, rios, agonia, êxtase e encanto que se pode viver em menos de 24 horas, basta ver uma peça de teatro, ler um livro, e contemplar o êxtase no qual os grandes pintores mergulham, e confirmar que há mais vida na alma italiana, destes ragazzos que entontecem tudo ao redor, como o vento ghibbli da Tunísia, o vento que gira gira em torno das pessoas e causa uma sensação estranha. Modigliani. Modigliani. Modi.