Monday, February 02, 2009

Claricianas




Para te escrever eu antes me perfumo toda.

Clarice Lispector (Àgua Viva)

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CLARICE
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Dois corações selvagens
na selva do impossível
tão perto que o respirar
deles é transfusão de sangue.
Depois da noite nuclear –
amantes

rompendo o ventre
da laranja mecânica -
a mostrar viva as entranhas

do céu,
nego-me a escrever versos

para amores lúgubres
plenos de tédio
de flacidez no olhar e no abraço
no passo e no sorriso
Depois de deus...
Quem me levará ao paraíso?
Prefiro o inferno na selva.
Dois corações selvagens

Perto.
Perto.
Perto.

(do livro - A Última Chuva)

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p/ Rebecca Loise



A porta do elevador se abre e todas as paredes mostram o rosto dela e as palavras. Clarice jovem, Clarice adulta, Clarice em suas últimas fotografias. A penumbra azul traz de volta um pensamento recente: O céu não é baunilha, luz, campos e regatos. O céu é uma penumbra. As mais belas horas vivi na penumbra. E Clarice me sussurra na penumbra "sinto que sou muito mais completa quando não entendo" e "viver ultrapassa todo entendimento". Entrei na penumbra azul da exposição de Clarice sabendo que em mim, como em tantos, nada permanece igual depois que se respira "o mistério e a chave do ar" - Clarice.
E a Estação da Luz fechou por alguns instantes (segurança papal). Não eu não quero ver o Papa, quero ver a palavra viva, fluída, que são regatos escondidos em gavetas escuras. E chorar lendo o poema de Drummond, que resume Clarice no último verso: mistério e chave do ar.
Há que se escolher o ar, e respirar puro. A exposição no Museu da Lingua Portuguesa - A hora da estrela - é pura penumbra, e ao mesmo tempo luz. As fotos que ela tirou em sua polaróide. E as inúmeras fotos de Clarice, sua obra, seus passos, seu itinerário completo. Não pude fotografar como fotografei a exposição da obra de Guimarães Rosa. Em um momento da entrevista dela, ela se confessa cansada. Impressiona. E como ela se mostra humana, frágil, impressiona. Então respiro o ar, a penumbra dos gestos e palavras e o pensamento volta. Vivi instantes de céu, na penumbra asséptica entre verdes lençóis, quando o filho nasceu e contra todos os prognósticos, viveu. Acordar em uma certa madrugada, esquecida de onde estava, da penumbra ver a luz pequena que cai sobre a mesa o vulto do amor a compor poemas - Céu. A penumbra de um porão salpicado de pétalas e poesias, a penumbra sempre... E toda a atmosfera delineia esta idéia que anda vagando em mim - é bem estranho o céu, é uma penumbra, caminhei pelo céu esta tarde. pelas relíquias, documentos, acervo pessoal, cartas, e sorrisos discretos dela. Clarice, a estrela.


(maio/2007)

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LENDO CLARICE LISPECTOR
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Mulheres
Sofrem meio às rosas
Espinhos escondidos
Em seus cabelos
Seios nus
Beijados pelo amado
Lençóis ao vento
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera


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Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre


Bárbara Lia


(do livro - O Sal das Rosas)