Wednesday, March 04, 2009

Prosa & verso

Ano passado conheci Izabel Liviski, um amigo comum indicou-me. Izabel optou por estudar uma autora contemporânea, e especificamente o meu livro - Solidão calcinada - para um trabalho acadêmico. No embalo da conversa sobre a dita - escrita de mulheres - saboreando um chocolate quente, conheci Izabel, que também é fotógrafa. Naquela tarde apresentei o meu livro - as personagens femininas e seus diários - e o texto dela começou a ser gestado ali, em uma tarde fria de final de primavera...
Não devo publicar seu texto, apenas a frase final que cita Orlando.
Uma bela experiência esta.
O poeta Márcio Claudino incluiu minha poesia em sua monografia de final de curso e considero o mais completo - até hoje - sobre a minha poesia. Izabel ficou com a prosa e amei o fecho e o encerramento do texto dela, que é mesmo aquilo que faz parte do meu caminho - escrever com todos os sentidos, agregando a alma e o corpo, para que não se torne esta escrita cerebral que espanta o leitor. Escrever e seguir sabendo como é o território inteiro, erguer minha mansarda e continuar apenas assim, dona de mim. Agregar esta precoce situação de ter pessoas estudando seus livros - e mesmo que isto seja o prêmio: os leitores e a escalada toda - sei que é o início, o começo de meu caminho como escritora.
Deixar a frase de Lygia Bojunga sempre diante dos olhos:
É preciso antes de mais nada levantar a casa.

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Estudos Avançados - II - História (Gêneros da escrita: literatura, história e a teoria feminista sobre a escrita de mulheres) - Izabel Liviski

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...emprestamos a frase que Virginia Woolf disse em/para Orlando, e que parece se aplicar também à nossa autora: “Pois, segundo parece – seu caso prova isso -, escrevemos não com os dedos, mas com a pessoa inteira. O nervo que controla a pena enrola-se em cada fibra do nosso ser, amarra o coração e trespassa o fígado."

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DUAS TENDÊNCIAS DA NOVÍSSIMA POESIA CURITIBANA NO ALVORECER DO SÉCULO XXI - MÁRCIO DAVIE CLAUDINO DA CRUZ...
-mínimo fragmento da monografia - Márcio estudou duas tendências - vital e onírica - estou entre os poetas de escrita onírica, embora o próprio Márcio tenha me segredado que muitas poesias minhas têm este aspecto visceral e vital...
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A poesia de Bárbara Lia quer sempre atrair o universo do sonhador para o real, para a rua, para a casa, para os amigos e para o que mais lhe pertence intimamente: filhos, amigos, amores: “guardei nas dobras da alma / os que amo e são meus” (A última chuva, p. 17)
[1]. E por que o real é fato nos McDonald’s da vida e no “fluxo anêmico dos carros (de luxo)” (A última chuva, p. 15), a mística busca dessa poesia é erotizar e sonhar a partir do real, com a espreita ritual da vidente na “água calêndula no ralo” que “revela”: a forma exata do rosto estrangeiro e o sexo formigueiro de prostituta de Veneza... Espie pelas frestas do Zeppelin dos sonhos... Meu mundo: Sem Florais de Bach Feng Shui Mantras.” (A última chuva, p. 15). Revelando formas de rosto e sexo pelo transe e pelos sonhos, o mundo se compõe de ausências, “sem florais de Bach / Feng Shui / Mantras”. Sem esses auxílios místicos para viver. A realidade avistada com estranhamento significa, em poesia, colocar ao lado de um termo real outro surreal. Porque é preciso revigorar a realidade, virando o disco, tocando outra faixa. Estar atento à faixa que emerge súbita, fora do plano cotidiano é tarefa de quem avista, de repente, coisas ditas como: “andando por calçadas molhadas / -uma lâmpada grávida / estremecida de sol” (A última chuva, p. 11), “o algodoal menstrua / sangue branco / antes da primavera” (Noir, p. 31)[2], “meninas nuas em camas de areia / com o pó negro de Kohl / derretendo em prazer / no olhar” (Noir, p. 41), “Como quem olha entre as frinchas de um biombo, / vi tuas mãos – lua de Isfahan” (p. 27). Os elementos em A última chuva são líquidos e noturnos, nota-se o emprego abundante do vocábulo água, além de outros correlatos como chuva, lágrima, gota, pingos, lago, menstrua, bebe, vinho, chá, abraço líquido, vendaval molhou, enxurrada, enxágua, sede, sangram, óleos, barco. A maioria dos poemas traz essa marca indelével, a considerar a partir do próprio título do livro. A poeta prefere a água à areia, pois, dentro do silêncio quebrado pelo ritmo incômodo dos pingos de “uma torneira vazando / enlouquecendo em azul / a noite”, o tempo é marcado pelo elemento líquido que “cai em ritmo de segundos, / tatua o tempo em estilhaços líquidos”.

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[1] LIA, B. A última chuva. Belo Horizonte: Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 2007.
[2] LIA, B. Noir. Curitiba: edição do autor, 2006.