Sunday, May 17, 2009

Lopes Chaves, 546

Anita Malfatti
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Uma luz apagou
Na ribalta do mundo
Quando cerrou as portas
Da vida daquele
Que Anita amava
Nunca mais se ouviu
Outra vez
O piano parisiense
- Henri Herz –
Mário a dedilhar
Teclas e palavras
No n° 546
Da Lopes Chaves
BÁRBARA LIA




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- fragmento de uma carta de Anita Malfatti p/Mário de Andrade:
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...Como você vê, eu tinha perdido o jeito de escrever para você, mas estou achando mais fácil do que eu esperava. Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso, arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo que dão alegria ao coração da gente simples. O grandioso e majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isto me consola, isto me comove.
Não sei ainda como é onde você foi morar… será como?… Deve ser um lugar cheio de poesia, de anjos de vez em quando e… e como é que você escreve hoje? Mudou de diretrizes? Será mais músico do que poeta?… – Parece-me que você bem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
E nós que não sabemos as últimas novidades, porque você sempre foi novidadeiro… Mário. Como poderíamos saber! Ouvir?… sim, mansinho dentro do nosso coração!
Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.
Anita“

em Diário de São Paulo, São Paulo, 1955