Wednesday, May 20, 2009

No caminho com Michel Sleiman


Bienal - 2006








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1.
Tua família foi viver no Líbano quando você era menino. Como foi
iniciar sua educação no país de seus ancestrais?
E quando a poesia começou a ser parte da tua vida?

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Tenho um capítulo importante da infância e dos primeiros anos da adolescência no país dos meus pais. Fui pra lá um mês antes de completar os seis anos de idade para viver com meus avós maternos em Beirute, onde acabei ficando sete anos, dos quais cinco frequentei uma escola primária, de freiras francesas. Estudei o árabe e o francês em período integral, até que estourou a guerra civil de 1975. Em 76 voltei. Cumpri um rito de passagem que parece um tanto comum nas famílias libanesas da primeira geração aqui no Brasil: mandar os filhos ao país dos pais, pelo menos um deles; no meu caso fui eu, o mais velho dentre os quatro irmãos. Mas isso tudo não foi planejado para ser como foi: era para ser um ano -aproveitaria para curar uma bronquite asmática que me castigava na fria Santa Rosa, RS- e acabaram se tornando sete: fui me adaptando bem, aparentemente, me dava bem na escola, não dava muito trabalho aos meus avós e tios etc. E o sétimo ano não era para ser o de retorno, mas a guerra acabou fazendo urgente o retorno naquele ano de 1976, creio que em outubro. O aeroporto bombardeado de Beirute estava fechado. A fronteira com a Síria era controlada por milícias islâmicas. E minha carteira de identidade libanesa estampava meu estatuto civil de cristão ortodoxo, um "rúmi". Me lembro que às 4h da manhã meu tio paterno Jurius, do vale do Bekae, me colocou no táxi de um tal Ahmad, amigo dele, com a recomendação de cruzar a fronteira da Síria em segurança até o aeroporto de Damasco, onde eu embarcaria em avião da KLM. Fechei os olhos, e o Ahmad me declarou às milícias como um filho seu que dormia. "O nome dele é Muhammad", ele disse, e passamos. No aeroporto, despediu-se de mim na descida do carro. Me dirigi até o balcão da KLM. No avião, depois em Amsterdã, onde fiquei algumas horas para fazer a conexão, me virei no francês. Havia um senhor no vôo, acho que amigo do meu pai. Lembro que ele me acompanhou aqui e ali. Lembro ele de meias pretas, tirou os sapatos, chulezinho familiar. Lembro também que as aeromoças holandesas eram muito altas, muito brancas e cheiravam a leite e talco de maquiagem. A chegada ao Rio foi assustadora no Galeão, à porta da aeronave, descendo as escadas, um calor! era um bafo quente de cortar a respiração. Senti tristeza e desolação por alguns minutos. Depois em Campinas, o dia era úmido. Meu tio Elias me esperava no Viracopos e eu achei que ele fosse o meu pai; são muito parecidos os dois e fácil de serem confundidos. Completando a tua pergunta, esse tempo eu passei sem meus pais e irmãos, portanto. Mas era para falar do tempo durante e acabei falando do start e do end. E era para falar de poesia. Mas tudo bem. Acho que isso tudo que disse é um mote para a poesia. Poesia como supra-sumo da vida, e os momentos tópicos da vida são também pura poesia. A lembrança como um ideário, um metapoema. Acho que a poesia começou nesses momentos tópicos, em suma.


2.
Você dedicou teu livro A Arte do Zajal "Para o Éden de Haroldo de Campos"... Além de Haroldo, quais poetas brasileiros mais te encantam?


A minha poesia se divide em antes e depois do encontro com Haroldo de Campos em persona. Com ele, tudo ficou mais complexo. No mesmo tempo, cresci e passei a exercer o poema maior do homem que trabalha e projeta coisas para a frente. Confirmei poesia e tradução, e estas juntas na crítica, e a crítica passou a ser para mim um ato de poesia. Não prefiro uma a outra; simplesmente são extensões uma da outra. O livro Éden do HC, ao qual dedico meu Arte do Zajal, contém o poema que nos uniu, o Cântico dos Cânticos. Quando contatei o Poeta ele me pediu "algo" para ver, e eu levei um dos Cantos que traduzi a partir da versão árabe, que é por sua vez versão a partir do grego, que é por sua vez versão a partir do hebraico, que por sua vez é, polemicamente, versão-criação de alguma outra língua... Foi interessante cruzar o árabe e o hebraico dos poemas que tínhamos nas mãos na língua portuguesa das nossas criações. Aprendi, por exemplo, que a tradução no final das contas é um modo de poetar, que encontra eco entre seus agentes, como a Lua que manda luz para a Terra, que manda luz para a Lua, e essa luz enfim sequer é desta ou daquela, mas do Sol. Aprendi também que a língua da tradução é uma constelação de poemas da qual o tradutor pega algumas estrelas e engasta criteriosamente no poemário seu da vida inteira, lembrando aqui o belo título do Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira.
Li muito durante os anos de escola secundária. Lia o que tinha por perto. Esgotei a pequena biblioteca da Escola onde estudei em Santa Rosa e o que pude da Biblioteca Municipal daquela cidade. Não tinha o que fazer. As tardes eram longas, calorentas na maior parte do ano, assombradas pelo som das cigarras no crepúsculo. Aquilo dava uma tristeza. O jeito era ler: quando as ofertas de romances e poemas da prateleira se acabaram, assaltei os livros de filosofia, psicologia, ciências políticas etc. Fazíamos isso como ato de sobrevivência eu e alguns amigos de lá. Era um tédio. E a cidade ficava no nosso pé. Pelo menos eu percebia assim. Vai ver ninguém tava aí para mim ou o Sacha, mas a sensação era de que a gente não podia ser diferente que a cidade logo se encolhia para nos apertar e nos empurrar para fora dela. E foi o que aconteceu com a nossa turminha de "desajustados". Todo mundo espirrou. Mas isto não tem nada a ver com a sua pergunta... Um poeta que me inspira muito hoje é, não um nome mas uma nação: a da Língua Árabe. Ali tenho tudo que preciso. Essa língua é um mar. E por sorte, o português é um céu! Já citei o Bandeira? Gosto muito dos poetas que portam bandeiras. Pela razão de que poucos portam bandeiras, quando muitos mais deveriam fazê-lo. Os melhores poetas deveriam ser os poetas que portam bandeiras, como Maiakosvki fez, e como fez Whitman, e como fez Darwich. E como fez Haroldo de Campos. E como faz Adonis, erguendo no nariz dos árabes a bandeira linda da transformação (de dentro para fora) daquelas sociedades.

3.
Ontem quando fui ao correio enviar um livro a funcionária do correio comentou que adorava ler. Ela perguntou - Conhece Gibran?
Quando ela citou Gibran, lembrei as belas poesias lidas naquele Diwan que organizamos em 2006, os belos poemas de Adonis, Darwich, Nizar Qabbani. Não existe nenhuma publicação de um poeta como Mahmoud Darwich aqui no Brasil. Alguma explicação para esta ausência da poesia árabe nas prateleiras?


Há um par de anos, escrevi uma resenha sobre um livro em prosa de um poeta árabe que estava em visita ao Brasil. Eu disse indignado que aquela publicação era um contrassenso típico do mercado editorial brasileiro. Reconheço que aquela minha afirmação parece antipática, afinal publicar um livro de um autor árabe deveria ser motivo de saudação num mercado, como você diz, tão carente de títulos dessa procedência. Mas veja, o contrassenso era uma editora chamar para o Brasil um poeta importante e publicar dele não um livro de poemas, mas uma espécie de relato de viagens, por acaso uma obra menor na história do poeta. O livro veio, o autor veio, e ambos se foram. O que ficou na nossa história literária foi a crônica de uma sombra que passou. Nenhum leitor brasileiro hoje, ou de amanhã, tem como consultar um exemplar da obra em nome da qual se chamou o seu autor para estar entre nós. Como explicar isso? De diversos modos que eu sou incapaz de fazer aqui e agora. Mas fica o sintoma, que tem em si um paradoxo. Não lemos poemas porque não publicamos livros de poemas. E não os publicamos porque não os lemos. Esta situação encontra similitude em outras localidades mas no Brasil é patética. Mas o Brasil, em contrapartida, me parece um país poético, facilmente “poetizável”. Não falo em tom de ironia, de verdade que não. Nossa alma e nossa língua são maiores que o juízo que temos de nós. O problema do Brasil é que a toda hora impomos ao país e à nossa gente um modelo de cultura que não é nosso, que não se ajusta a nós. Dentro desse modelo está o de leitores e cultivadores da dita “poesia”. Na verdade, o gosto nacional passa largo da poesia culta, erudita, que fazemos, nós, uma centena ou algo mais de poetas que puxamos uma tradição de extração livresca. O poema parece ao brasileiro médio uma instituição forânea, tem meneios de dama que a um plebeu passam batidos. O brasileiro a que me refiro gosta e aprecia a poesia; sabe-a de ouvir nas muitas linguagens que nos traduzem: a dança, a poesia oral, o nosso jeito de tomar café e de subir escadas. Aviso também: não faço coro ao mito do homem poeta por natureza. Mas nele localizo um alvo: quando um agente da cultura, um editor, pensa na poesia não vê nela um ponto catalisador do que se acredita ser a identidade nacional. Meu editor sabe disso, ele, um homem culto, sabe que o gosto médio do seu freguês não é o que escrevo como poeta ou como tradutor de poemas.
E então a poesia vai migrando aceleradamente daqui e dali. Poetas são levados a abandonar a forma-poema e as suas virtualidades. Coisas deste nosso tempo. Poetas começam a se aventurar na forma-romance, forma-relato. As pessoas já pouco distinguem, aliás, romance e ficção, pois erradamente se pensa que a prosa é relato de ficção, e o poema (o que vulgarmente chamamos poesia) é tido como depoimento pessoal, expressão idiossincrásica do pensamento de homens e mulheres caprichosos... no bom e no mau sentido do termo. A forma do poema passa a ser entendida como expressão sem arte, desordenada, que agrada a poucos porque não segue os trilhos do gênero artístico verdadeiramente de ficção, que -assumimos- é a prosa. Um equívoco tolo, cavalar, asnal. A forma-poema é ficção levada a um grau exponencial, como o é a forma-romance e suas virtualidades. Lê poemas quem tem cultura de poemas, quem dela conhece a história, sendo capaz de entender o porquê de uma vírgula fora do lugar, da ausência dela, ou da anulação, se preciso, do seu paradigma como modelador da idéia na escrita. Os leitores de “literatura de ficção” são os mesmos professores de Literatura nacionais. Poucos professores encaram a leitura de um livro de poemas e dele se sentem próximos; e poucos são capazes de ler poemas com seus alunos; e poucos são capazes de responder por determinada poética. Para responder a sua pergunta pontual sobre a ausência de Adonis, Alhaj e Qabbáni: poucos traduzimos do árabe, e, desses, poucos embarcam na aventura do poema. Estamos na média, portanto.

4.
Conte sua experiência como editor da Revista Tiraz - revista do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe – USP. E também sua atuação no Icarabe - Instituto de Cultura Árabe
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A revista Tiraz tem um belo nome. É um arabismo que entrou no nosso idioma há séculos e guarda o sentido original de “brocado caligráfico”, que os cortesãos medievais usavam ostentando a marca faustosa do ateliê que o produziu, em geral ateliê mantido pelas cortes de califas, emires ou sultões. Foi assim nas terras da Pérsia e depois em Bagdá, na Síria, no Egito, no Marrocos e no Alandalus. Quando o poeta egípcio Ibn-Saná Almulk, do século XIII, batizou sua coletânea de poemas do tipo “muacha” de “Casa de tiraz”, quis dizer que aqueles espécimes de poemas –dele, dos poetas de seu tempo e dos poetas andalusinos predecessores naquela forma-poema– tinham a nobreza de um tiraz bordado a ouro, prata e fios de seletos matizes. Com esse título, ele evidenciou aspectos de excelência e singularidade daquela arte. Assim quisemos marcar a produção científica de quem entre nós, pares mais próximos ou distantes, lida com as milenares artes e ciências dos árabes. Propusemos uma revista que acolha a produção intelectual como uma preciosidade da “casa das ciências”, bastião, quase que solitário, da pesquisa no país do carnaval.
A revista tem conselho editorial e consultivo, ao qual submete as colaborações recebidas. E trabalha com recursos enxutos advindos da Pós-Graduação. O que garante a existência dela é o trabalho conjunto dos colegas, alunos e colaboradores que atuam sem fins lucrativos, barateando o custo final, que seria altíssimo dada a exigência técnica de sua editoração, como a diagramação diferenciada para cada artigo, com ou sem colunas, inserção de imagens, a edição bilíngue em árabe e português da sessão Fontes, a filosofia de traduzir ao português as colaborações recebidas em outros idiomas e a incidências de diferentes fontes usadas num mesmo artigo, alternando fontes da escrita árabe, de transcrição ou transliteração latina de outras línguas, além do árabe, como sânscrito, russo, turco, entre outras, a depender do conteúdo do texto por editar. Eu atuo nela como diretor editorial e faço o papel de “publisher”, acompanhando sua realização em todas as etapas, desde o planejamento, passando pela editoração e o gerenciamento dos profissionais contratados, até o lançamento da revista.
A experiência com Tiraz é disciplinadora. Desenvolve o senso de trabalho em equipe. Leva a meditar sobre o imprevisto diante das tecnologias. Mas também ensina a trabalhar a poesia das formas como um conhecimento a ser perseguido, controlado e repassado. E amplia o entendimento do trabalho com as linguagens. É impossível diferenciar o zelo que um editor tem com um texto que lhe é confiado e o zelo que tenho com um poema que concebo como criação ou transcriação. O resultado final da revista assemelha-se com o do poema escrito e reescrito até a versão impressa.
No Instituto da Cultura Árabe, do qual sou presidente desde novembro de 2008, coordeno um grupo de diretores da mais alta competência na área cultural quando o assunto é o mundo árabe e o Brasil por ele tocado. O trabalho ali é mais complexo do que na Tiraz, porque as ações do Instituto reverberam muito, e excessivamente por vezes, conforme o “tempo” ou o “clima” dos fatos mundiais, aos quais somos chamados a responder. A demanda por explicar o mundo árabe é constante no nosso país. Sempre foi, mas após o sinal do petróleo, o dito Oriente Médio passou a um dos focos de atenção mais perceptíveis. O século XX foi a estação de desmembramento das terras do antigo Islã, dirigido pelos otomanos. Não bastasse a frágil construção do sentido nacional nesses países, forjado a partir de um projeto, por baixo, muito mal estudado e implementado por França e Inglaterra nesse período, no século XXI esse mundo fracionado agora é alvo evidente de demonização. O cinema norte-americano, ícone maior da alta e média cultura dos EUA, tem um papel crucial nesse processo e o fez à moda da escansão da sicuta, pingando-o gota a gota, de película em película, como de resto esse cinema fez com os russos nos tempos da guerra fria. Por outro lado, as forças de reação do mundo árabe têm encontrado na politização das religiões uma força catalisadora aparentemente capaz de libertar as massas dos efeitos externos vindos de um “Ocidente corrupto e corrompedor”, tornado também, e por sua vez, demoníaco.
As forças vitais, contudo, nos dois polos, parecem estar prontas para derruir o muro que se insiste em impor na linha ficticiamente divisória entre ambos. As ações da cultura são essas forças. E são essas mesmas que o Instituto da Cultura Árabe persegue e busca implementar nas diversas ações que lhe são cabíveis na nossa sociedade.

5.
Um livro de poesias de Michel Sleiman: Notícias, título, previsão para publicação... Conte tudo! E como você encara as afirmações que nós poetas sempre ouvimos:
- Poesia não vende. / Ninguém lê poesia.



Títulos não faltam; e não faltam poemas organizados em livros. Mas isto não basta. Publicar um livro é, entre outras coisas, uma ação política, comercial e pessoal. A primeira é esta, a da ordem pessoal. O livro requer mover uma energia que convença o autor a sair de si, primeiramente. O próximo passo é o reflexo deste: convencer o editor e manter-se convencido à medida que o tempo passa e o livro não sai, enquanto as finanças das editoras e as oscilações do mercado financeiro acenam para recessão da economia, e enquanto, claro, menos se vendem livros, menos o editor recebe pelos livros em consignação nas livrarias. Não esqueçamos de que falamos de livros de poemas, que os editores são unânimes em afirmar só os poetas lêem. E eles têm razão: nós escrevemos para um leitor com entendimento da história do poema.
A outra ação é a comercial. Editar para vender onde, se os livreiros não expõem livros de poemas? Agora vale a ironia: afinal são livros volumosos, enchem prateleiras, bla-bla-bla. É conversa, sabemos. Mas caberá a mim e a você o papel de ser “promoter” das editoras junto às livrarias? Isto é demais, não?
A terceira ação para um livro de poemas ser editado é política porque implica tomada de posição diante o que se quer para a nação como um todo. Que projeto cultural têm o Brasil, seus dirigentes e seus cidadãos? Não quero ser eu a dizer que não têm projeto algum. Não direi. Não direi mesmo que não há um projeto cultural para este querido país. Bom, já disse.
Há, contudo, os projetos dos poetas que levantam bandeiras. Esses para os quais eu tiro o chapéu. Agentes de si mesmos, contudo, não repercutem suas ações salvo em torno do próprio umbigo. E o fazem bem, mas não são editores. Portanto, continuamos sem projeto cultural. Sem política editorial. Sem poemas. Não sem poesia. Esta existe e vai bem, obrigado, porque ela existe como ação política de quem escreve e perscruta o mundo. E ainda que tal poesia não fale a língua nacional, é ainda a língua de muitos: assim tem sido a história milenar desde a invenção da escrita.
Tenho um livro a sair pela Ateliê, chama-se Ínula Niúla, que o poeta meu amigo Horácio Costa faz preceder com um texto seu de apresentação. E estou trabalhando em várias frentes de tradução de poemas árabes antigos, contemporâneos, além do sempre inspirador Alcorão, mãe-das-linguagens. Finalmente dei uma versão que me agradou muito do longo Poema dos Árabes, de A-Chánfara, do século VI ou VII, e estou terminando a tradução, com transliteração da recitação solene, do segundo capítulo do Alcorão, a chamada Sura da Vaca, cujos primeiros 143 versículos publiquei em Tiraz 5, do ano passado. E estou engrossando uma antologia da poesia árabe em perspectiva histórica das suas formas-poemas. Tudo virá a seu tempo.

6.
Michel Sleiman por Michel Sleiman


Gostaria que os brasileiros de origem disso e daquilo não fôssemos tanto, até extinguir-se, brasileiros árabes, brasileiros judeus, brasileiros negros. Isto é uma coisa ruim, e um retrocesso, uma abdicação do que temos sido ao longo da nossa história. Gostaria de lutar por um país mais justo e democrático, pra valer: que tivéssemos condições similares para fazer cultura, sendo agentes e esperando menos das ações que vêm de cima, não por não querê-las, mas porque em geral tais ações subtraem nossa capacidade de agir por nós e, com isso, de decidir por nós, de lutar por nós e por sonhar por nós. O que tiver de vir de cima será mais uma ação vinda de outrem e de alhures, sem o direcionamento vertical a que somos tão afeitos, desde que o mundo é mundo e desde que deus se fez deus com letra maiúscula.
Este meu depoimento destacou a ação em detrimento da reação. Entendo esta a política das políticas. Como o amor, quando saímos em busca dele nos vemos presas dele, e quando não o buscamos nos assusta, porém, a sua chegada ou sequer o identificamos como tal... É por ser uma ação que o amor não se deve buscar nos outros nem cavoucar no íntimo ensimesmado. A ação é condicionamento do querer. E este não é exatamente a ação. Algo parecido se dá com a literatura dos poetas: um livro que se escreve com afinco e se publica na medida de sua hora, de seu lugar, no tempo e no espaço de todos os agentes que o tornam l
ivro, autoria, produto e consumação.



Michel Sleiman nasceu em 1963 em Santa Rosa, RS. Participou de livros coletivos de poemas, mas ainda não publicou um livro individual. Tem dois livros de crítica e tradução da poesia árabe-andalusina: A Poesia Árabe-Andaluza (Coleção Signos, da Perspectiva, 2000) e A Arte do Zajal (Coleção Estudos Árabes, da Ateliê, 2007). Dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio e preside o Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo, onde é professor doutor de Língua e Literatura Árabe da USP.
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Animália
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Gato porte ferino
descendo lombas de braços
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Cão de pêlo aos pés
não para calçá-lo
mas cuidar-lhe o salto célere.
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O sol me vem confunde
penso-o à tarde
- Precipite-me
até a vala do corpo
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Potro pêlo lustroso
convida ao prado, vejam-no
a ceifar trigo novo
a saber-lhe a haste
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Ovelha, nos ouvidos,
Ali Babá e seu balido de chave mestra
- Abre-te, salão!
Olhe-se-lhe o mármore.
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Vaca órix, olhos vergados,
tinteiro de farol a sua mirada
- Espiem-lhe a láctea pele
no café 100% arábico
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Tal amor cavalgou dorso selvagem:
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nem tigre, nem dragão.
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Michel Sleiman
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