Tuesday, June 09, 2009

estante #20







Na semana do 11 de setembro ouvi o Everton Bortotti em uma mesa redonda de um encontro de escritores. Uma pessoa incrível, o Everton. Foi a primeira leitura minha em um palco e no final ele disse que - eu li com emoção - pra não criticar a tremedeira que tomou conta de mim, de estar totalmente deslocada em um palco... Veio me dar seu apoio poético com uma ternura explícita. Sai do encontro com cenas lindas, poéticas, vivas. O descompasso de passos lerdos até o Teatro do Sesc. A forma como ele subiu no palco antes do show do Vadeco e os astronaturas - sem a menor cerimônia e sem ser convidado - e recitou um verso que gravei na memória:
ah, criatura. que seria de mim sem seus acordes de piano
Vez por outra eu olho o livro de contos ali espremido entre os livros de capa dura, o livro do Everton nada deve aos outros - o livro artesanal pulsando, com a poesia drops de deus do mário bortolotto no final do livro e no início a dedicatória em letras de poeta visceral. Algumas pessoas você encontra uma única vez e guarda pela vida. Outras você esbarra dia e noite e não te tocam. É o ciclo da vida e das ressonâncias.
Sonhei que nadava em um mar verde com um poeta de um outro país. Sonhei que encontramos uma estátua quase submersa - um pássaro gigante com suas asas abertas - ele dizia que devíamos continuar a nadar e eu dizia que tinha desejos de ficar ali ao lado daquela estátua coberta de verde mar e de musgo. No dorso do pássaro gigante, dois amantes petrificados. Sonhei com águas de tanta água que percorrem para acalmar o coração dos que ficam. O mais difícil é acalmar o coração dos que ficam. O meu vive em suspense desde que minha filha Tahiana começou a voar. H1N1, aviões tombando, a vida um ciclo estranho como um filme de Fellini. Comissária de vôo, ela disse e foi em frente e agora ela é - comissária - Ela ultrapassa a porta e se aninha por uns dias neste lugar onde a paz me acalanta e me cura de todas as agruras. Depois ela se vai e eu a vejo sempre ali, diante do elevador a dizer tchau - o casaco escuro, o cabelo chanel, aquele cachecol que eu teci e eu penso - é isto, viver é isto... um risco. Ela sempre volta e eu penso no descompasso do destino. Por vezes seu filho sai do trabalho e é mutilado em alguma esquina. Ela tem razão quando me diz que morre mais gente no trânsito. Sigo a rezar para que Nossa Senhora dos Passarinhos desvie todos os pássaros de todas as aeronaves, que estanque o virus, que a tormenta se apiede dos homens e suas máquinas frágeis...
...
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Reproduzindo a poesia da contra capa do livro do Everton. Rush na Madrugada, que ele dedicou ao Bukowski
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quando a sujeira dos tempos se agita
..............o pó se levanta fere olhos sensíveis
..........o silêncio sangra entre a distância
.................................das pessoas
tento dizer alguma coisa
................................................digo
já sei que cirurgicamente
..........todo sorriso é perfeito
já vi aquela garota acreditanto em
.............................felicidade fácil
e dizendo que poeta é triste
e que a tristeza espanta as pessoas
...mas garota
..................meu deus
...............................ele se sente
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.................................................tão bem...
Everton Bortotti - Rush na Madrugada