Sunday, December 13, 2009

ÚLTIMO TANGO EM PARIS

Adormeci ouvindo Piazzola. Ardência que rasga a carne. Lâmina celofane, quase transparente, lacera o coração a descascá-lo como às goiabas da infância. Membrana que desvenda a carne ardente, vermelha. Adormeci com acordes a lacerar dentro ecos de uma ausência, olhos espadas de toureiro a perfurar a carne do touro triste, no caso, da mulher triste.

Paris.

Eram altas as paredes, fossem baixas não acolheriam o porte de quem se insinua em beleza latina: Cortázar. Olhos claros hipnotizadores, negros cabelos, suéter amarillo. As chamas do ocaso adentram a sala ampla e branca de piso encerado sem rastilhos de poeira. Brilha e reflete as minhas pernas. De uma beleza perfeita, longas, sensuais pernas de uma musa de ébano, macias, perfumadas. Fazendo o tecido gozar quando roça em leveza a pele. Branco tecido, diáfano qual o de Marilyn na cena antológica do bueiro. Seios e ancas e pernas em um movimento leve a caminhar com ginga de manequim. Ele, cigarro entre os dedos, sorri atira o cigarro pela janela e me enlaça e me conduz. O tango de Piazzola invade meu sonho... Dançamos pela sala vazia em rodopio nos tornamos um como pede a dança. Os olhos dele na sensualidade perfeita da curva do meu ombro esquerdo fetiche que o vestido permite. Chão farfalha em labaredas brancas reflexo da saia que não combina com a dança. Tango vaporoso, vestido belicoso, pecaminoso. O olhar dele. A música ao longe regendo os passos.

Desperto com o gosto belo do pecado - homem e arte - o gosto de seus lábios argentinos a me beijar ao fim do tango.

Bárbara Lia