Thursday, December 31, 2009

Revirando a gaveta...



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Minha mãe nunca permitiu que eu visse o sangue, antes que eu sangrasse. Nunca me permitiu ir de encontro com a cena, rasgar meus olhos de jabuticaba com o vermelho das amoras mortas. Nunca a menina percorreu o caminho que leva ao poço profundo da dor humana. Onde a vida não é a rosa pele das bonecas que eu trucidava. Eu tinha o aroma do início. Eu queria descobrir o início do movimento dos olhos azuis da boneca, do choro latente dentro, rangendo em agudo uma nota áspera. Tolo choro irritante que arrancava com minhas mãos de artesã de fadas. Eu preferia as fadas – dibujos mios - com seus brincos de gotas de orvalho e asas das borboletas da esquina do encanto. Para que bonecas de olhos azuis de vidro? Eu tinha o reino inteiro das farfalhantes musas e dos centauros brancos. Eu tinha arco-íris metálicos onde eu pendia de meus trapézios brancos e valsava com anjos acenando para National Kid do outro lado do globo. O primeiro sangue era a minha alma fêmea de cor ardente forte, rubro, pingente de vida, vencendo a malha, caindo chuva no áspero cinza.

Então veio o tempo de entregar e receber de volta o coração. Esgarçou o zíper, de tanto abrir e fechar, recauchutar as fibras, lavar os cortes.

Minha mãe não queria que eu visse o sangue. Minha mãe plastificou-me por fora. Dentro, eu continuei tecendo liberdade de sangrar sempre. A revisão periódica do meu coração, abrindo e fechando o zíper - fecho éclair gasto. Rezando solenemente às fadas da infância que o anjo celta não me arranque os olhos e nunca examine o mecanismo que faz arder o meu choro, pois eu preciso de uma trégua, mesmo que seja agora - roto fecho éclair, costelas gastas.

A última vez que se estende o jardim e convoca a orquestra. Quem sabe ele é o grande astro que vai encerrar com chave de ouro a festa?



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Cigarras no apocalipse

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Quando o poema emerge

Estridente

Emudece o verão

Escurece a primavera

Incendeia o outono


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Poetas são cigarras

No apocalipse

Sempiterno som

Canto que incomoda

Sacode as esfinges

As filosofias vãs

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Canto ecoa em muralhas pagãs

Invade corredores

Cola ao som o aroma hortelã

Das festas de antes

Arranca lágrima cinza

No silêncio laranja de Guantánamo

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O som ardido trinca o sol

Escorre gema zelosa

Nas chagas das crianças

Da África inteira

Canta a primavera afogada

Da vida ceifada.

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A cigarra segue

No apocalipse sem volta

Anoitece areias de Fallujah

Todas as ruas da Faixa de Gaza

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Cigarras no apocalipse

São poetas em desalinho

Gestados no ventre escuro

Ninfas subterrâneas

Emergem em canto e vôo

Ao som da trombeta

De um anjo sem olhos.

Bárbara Lia