Saturday, August 21, 2010

O exílio na ilha e a coruja triste





Ana & o Mar

Oito canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras

Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco

Lembro um filme de Babenco:

Ana e o voo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre


Bárbara Lia
Ilha do Mel - agosto / 2010
  

Fui pra Ilha com minha amiga Ilse, escrevo um novo romance no qual algumas cenas se passam na Ilha do Mel... Mar calmo e praia deserta. Na noite um voo escuro acima de nossas cabeças, diante da pousada no banco rústico, em uma conversa impossível em outro lugar - sob um céu estrelado (não há estrelas na cidade). Meio tonta e quase tendo torcicolo eu passei algum tempo com a cabeça voltada para os astros. No dia seguinte dei de cara com o pássaro escuro e lúgubre  - uma coruja - coruja que mora na árvore, segundo o menino esperto neto da dona da pousada. Então, cá estamos de novo a trilhar caminhos tentando tirar o passado de dentro das rochas, nas pegadas e nos grãos de areia, para narrar um tempo Ficção que desabrocha dentro como rosa inevitável. 
Depois de um tempo de prosa e sem poesia, brotou a poesia que publiquei acima. Os oito canhões do Forte, as gaivotas e a lembrança de cenas de um filme que evoca um dos poemas do Pinduca que eu mais gosto.
Vamos seguindo, escrevendo, trocando palavras, versos e planos com os amigos e tocando a vida com garra, como o verso do Gonçalves Dias que o pai repetia.
 
 
A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos

Só pode exaltar.




5 DIAS PARA MORRER (Ademir Assunção)

para Hector Babenco


morreremos loucos, Ana
os sapatos
novos
em cima da mala
— mala notte
o dia, a pior
foto: olhos úmidos
no vídeo
flashbacks:
a virilha imunda
do marinheiro
os eletrodos frios

nas têmporas
as pílulas coloridas
peixes
num aquário
cujo vidro
quase se quebra
toda vez

que o tocamos
sim, Ana
morreremos loucos
mas

esta noite
dormiremos
juntos



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