Saturday, October 16, 2010

Constelação de Ossos








Na presença da candura materna eu mergulhava as mãos na terra negra e a ajudava enquanto ela plantava sua horta. Na casa de Layla havia o jardim que alimentava o espírito; na minha casa havia a horta que não permitia que a fome viesse e se sentasse na cadeira vaga.

A cadeira vaga era de Manuel. Manuel não viveu mais que um ano, mas, minha mãe nunca o exilou para o reino dos mortos. Meu irmão mais velho que eu não conheci.

Foi na horta, enquanto ela retirava um pé de chicória que eu perguntei pela primeira vez a razão de meu nome.

Eu tinha sete anos e estava um pouco assustada com a reação na escola. Era a primeira vez que aparecia por lá uma aluna que se chamava Lynx. Minha mãe segurou minha mão e me levou para a cozinha. Um pé de chicória na outra mão. Depositou na pia a hortaliça e começou a lavar suas folhas de um verde amargo. Nunca mais comi chicória depois que ela se foi, fiquei com a impressão de que o céu tinha aquele gosto amargo. Chicória com óleo e sal e os pingos de limão-rosa que ela adicionava. Com paciência só dela começou como sempre fazia, dizendo que tudo deveria começar... Do começo.
- Um gosto amargo de céu - pg. 9

Constelação de Ossos
Bárbara Lia
coleção Anáguas - Vidráguas 2010
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