Tuesday, March 01, 2011

Diálogo com Emily Dickinson




Os títulos das poesias abaixo são versos de Emily Dickinson - nove poesias do Prêmio Ufes Literatura:





"Sinal cifrado para enovelar o divino"


Trinta e dois ventos
     da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
     do peso da alma
Oito países
     a comandar a Terra
UM Deus louco
    pelas ruas bombardeadas



"A real cicatriz você a tem?"


Signo de Salomão
na palma
Napalm na pele
Da alma
Tatuagem recebida
no berço
Caligrafia de Deus
- risco estrela -
Que oblitera
A pele canela
O mel de flor evaporada
Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata




"O pedigree do mel não diz nada a uma abelha"

O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas morreram
De uma cólera doce
Último zumbido
Acordou o sol
Com a cadência afinada
De uma canção do Vangelis.



"A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la"


O sagrado despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
suas folhas de um azul esmaecido
qual o manto da Virgem de Cambrai.

Os ossos das árvores adoeceram
e elas morreram azuis
antes que tornassem brancos
os seus cabelos



"Ele dançou ao longo do dia pardo"

Guardo

Na ânfora púnica
O suor perfumado

Na saia indiana
O sêmen abençoado

Branca ilha no mar grego
Tua seiva na saia bordada


"O gelo da morte na vidraça"


Láudano para as dores reais
estas que bailam
nos olhos ejaculados
Para as dores invisíveis
chá de espectros
na chávena em chamas

Nunca me livrarei
dos vampiros anêmicos
Nunca os expulsarei
da mesa rústica
de sal e conchas

Ao meu redor -
a dança alucinada -
reverso do tango:

Ódio amornado em mel
Ódio guardado vaporoso
Ódio consagrado em si bemol

Purpurina enfática cai
Nas feridas frias
Como manto de rainha bastarda -
Azul - de ódio adulterado



"Eu me escondo em minha flor"


Baile das harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada




"Escanear os céus com um ar suspeito"



Não olhes o sol
A olho nu

Isto se chama
Violentar Deus

Irado, Ele abrirá
Escaras em tua retina

Abrirá o portal
Do abismo

Para cegar teu olhar
Que ousa afrontar

A Luz!




"Próximo ao âmbar e a um mínimo céu"

Teus olhos sépia
A sinfonia dos cães
O balé dos beija-flores
O sorriso das hortênsias
O som sem igual das palavras:

Bella Bartok
Railway
Ars Amatoria
Unicórnio
Leonard Cohen

BÁRBARA LIA
Prêmio Ufes Literatura

poesias do livro inédito
"A flor dentro da árvore"