Sunday, July 17, 2011

Identidade Bárbara

Quando comecei a ouvir a palavra Globalização eu pensei na utopia de uma menina que sonhava um mundo sem linhas nos mapas. Com o passar dos anos virei uma incrédula. Viver é puxar uma pequena mangueira da beleza e respirar um milímetro de ar por dia. A mangueira da beleza guarda a alma dos últimos sonhadores. O ideal pululando ao redor, os jovens que ousaram bravamente morrer para fazer História. A Poesia que escorria pelo Viaduto do Chá no Sermão do Viaduto do Álvaro Alves de Faria:

Tenho quarenta cruzeiros
e quero beber uma estrela.

*
Estou aqui, amigos, estou aqui:

e amo entre os escombros.


No tempo em que os jovens bebiam estrelas e não coca-cola, que rasgavam o peito para mostrar um coração pulsante. Nada é mais brega que a "perfeição" dos dias de  hoje. Todo mundo tão fofinho que enjoa. Tão corretos e tão cheios de ótimas intenções. A Internet uma fotografia que cada qual vai retocando como quer para ser alguém que deve ser aceito. Não ser aceito é o suicídio da década. Acostumada a ser suicidada eu vez ou outra penso - O que ainda faço por aqui? Fico por conta de algumas pessoas que existem e possuem uma Identidade. Encontrei várias neste caminho da Poesia. Colocando na balança: Posso dialogar com pessoas únicas, isto vale TODO O RESTO. Saudades do tempo em que existiam apenas pessoas humanas caminhando em busca de algo.
Nunca fui à Flip e nem sei se algum dia vou para lá - fazer turismo - como dizia o grande Roberto Piva. Neste ano penso que perdi algo que pela primeira vez me tocaria em humanidade na Flip - o valter hugo mãe. A primeira pessoa que me falou dele foi minha amiga Luciane Heleno. E ainda não li valter hugo mãe, quero ler, é claro. Quero ler tantos novos autores e não consigo, quem sabe até ficar mais velha eu possa ler e escrever as coisas sonhadas. Assisti ao vídeo do encerramento da mesa _ Pontos de fuga_ e a leitura que ele fez em homenagem ao Brasil. Então eu pensei nesta palavra quase sepultada - Identidade. Busco manter a identidade Bárbara. E a leitura dele é apenas isto... Um Ponto de Fuga para um lugar onde cada qual se reconheça. Em alguns dias, enleada pela loucura da modernidade, das falas e dos muitos e-mails me convocando para tantos lugares (que nada tem a ver comigo) eu me perco de mim. Esta parada é para pensar nisto, no desejo de ser quem ainda busca respirar o último ar do tempo em que o coletivo era outra coisa. O coletivo era um país encarcerado, crianças morrendo na África, pessoas a nos chamar em algum lugar acenando com mãos verdadeiras. Ainda existem mazelas no mundo, mas, estão todos muito ocupados em retocar sua própria imagem que aparece para o mundo inteiro. O mundo anda muito fake.
O escritor diz que quer ser pai e que ama o Brasil. Ele acha as brasileiras bonitas, e somos. Ele é apaixonante e se eu não estivesse fechada em conchas até o fim dos séculos, me apaixonaria por ele, teria trinta anos e faríamos o filho que ele sonha. Ia ser uma menina luso-brasileira sapeca, poeta e bailarina. EU acho. Brincadeiras à parte, ele simplesmente colocou na mesa um coração sensível, com verdade e memória que é a matéria de todo bom escritor. Com desejos saltando à flor da pele, com humor que é sempre necessário. Todos choram e nem percebem que ele apenas deixou aflorar a sensibilidade. Apenas isto. Ser sensível é proibido e cada qual vai colocando uma capa acima da pele e do olhar para ninguém notar que o é. Lembra Admirável Mundo Novo do Huxley. Afinal, não está tão longe assim do coração ser apenas uma máquina. E o valter hugo mãe apenas veio lembrar que ainda há tempo de ser UNO ainda que vivendo nesta aldeia global, chata e arrogante, mas, com pequenos tubos de belezas pendurados pelo ar.




o vídeo da flip

http://www.youtube.com/user/flipfestaliteraria?gl=BR&hl=pt