Friday, September 16, 2011

Borboletas Negras

Sempre pensei - que leitura meu pai faria da minha poesia? Meu crítico essencial está morto, morreu antes que eu começasse a compor versos. Penso nele como o jardineiro que planta a semente e não está por perto quando floresce o jardim. Lembro nossas conversas longas, ele em sua cadeira de balanço sempre com um livro nas mãos. Nos debates ele aceitava o nascimento de uma louca utópica que acreditava em um mundo igual. Ele acreditava em sua Pátria e seu nacionalismo me assustava. Uma manhã eu disse que -  não fosse menina, não vivesse em uma cidade morta do interior, eu iria aderir às fileiras dos rebeldes nos anos sessenta. Ele me olhou com aquela tristeza peculiar, sabendo que eu seria - sim - um daqueles "terroristas" como ele dizia e disse como quem sabe que a filha tem vontade própria desde pequenina e ficou repetindo - eu sei, eu sei, eu sei... Por esta estranha vivência com este poeta, no tempo em que nós dois éramos poetas sem palavras. Ele nunca escreveu poesias, e eu ainda não havia começado a pingar a alma no papel. Por esta memória renitente, quero ver este filme - Borboletas Negras. É isto que são as mulheres poetas, não é mesmo? Liberdade que assusta.

 

O filme conta a trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker que lutou, sem apoio de seu pai que era responsável pela censura do que era publicado na época, contra a desigualdade racial em pleno Apartheid, e que após sua morte teve seu poema "The Dead Child of Nyanga" lido e apontado por Nelson Mandela como um poema de uma das melhores poetisas sul-africanas em seu primeiro discurso ao Parlamento Sul-Africano. 

 

The child is not dead by Ingrid Jonker

 

The child is not dead

The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart

The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride

The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain

The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all Africa

the child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass