Thursday, September 22, 2011

dia mundial sem carro

"Bajaremos del Himalaya en bicicletas
silenciosas y perfumadas, a las doce de la noche"
Vicente Huidobro-Jean Arp

 
 
 

(Piotr Terlecki)





procurei poesias com a palavra bicicleta... segue as que consegui lembrar, ou pescar com olhos de poeta que anda a pé, sempre... mas, vamos deixar os carros em casa, ao menos HOJE!






Vou-me Embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Manuel Bandeira (Recife – 1886 – 1968)

*

os eugênios da paisagem


são cinquenta
séculos (ternos)
são você a vida
exposta a resposta
de bosta e meias-
verdades cáusticas
são os eugênios in-
gênuos a ver navios
e derramar guaraná
com soda na memória
é o rabo da tainha
na bicicleta alemã
zunindo adeuses e
beijos escandidos
da corada mãe-íma
moldura carunchada
espectral gigante
de pira olímpica


uma porção se vingou
a outra virou poção
de estupor dormente
                            (para minha mãe Else)
Sylvio Back (Blumenau – (1937 -)

*


Moça de bicicleta


O céu que é mais um mar sobre a cidade
os pés descolando-se do chão
mergulho de um corpo em cores que são ventos
relva relva verde verde
pneus rilhando o saibro úmido
amarelas margaridas brancas


sons que lavam o ar


(O corpo: um sino ouvindo
e repetindo a paisagem)


Francisco Alvim (Araxá – 1938 - )

*

A BICICLETA




O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.


Alexandre O'Neill (Lisboa 1924 – 1986)


Balada das meninas de bicicleta


Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta – essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.


Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro – 1913-1980)