Friday, December 02, 2011

A poesia de Bárbara Lia...




 
A poesia de Bárbara Lia quer sempre atrair o universo do sonhador para o real, para a rua, para a casa, para os amigos e para o que mais lhe pertence intimamente: filhos, amigos, amores: “guardei nas dobras da alma / os que amo e são meus” (A última chuva, p. 17) 149. E por que o real é fato nos McDonald’s da vida e no “fluxo anêmico dos carros (de luxo)” (A última chuva, p. 15), a mística busca dessa poesia é erotizar e sonhar a partir do real, com a espreita ritual da vidente na “água calêndula no ralo” que “revela”:

a forma

exata do rosto estrangeiro

e o sexo formigueiro

de prostituta de Veneza...

Espie pelas frestas do Zeppelin

dos sonhos...

Meu mundo:

Sem Florais de Bach

Feng Shui

Mantras.”

(A última chuva, p. 15).

Revelando formas de rosto e sexo pelo transe e pelos sonhos, o mundo se compõe de ausências, “sem florais de Bach / Feng Shui / Mantras”. Sem esses auxílios místicos para viver.

A realidade avistada com estranhamento significa, em poesia, colocar ao lado de um termo real outro surreal. Porque é preciso revigorar a realidade, virando o disco, tocando outra faixa. Estar atento à faixa que emerge súbita, fora do plano cotidiano é tarefa de quem avista, de repente, coisas ditas como: “andando por calçadas molhadas / -uma lâmpada grávida / estremecida de sol” (A última chuva, p. 11), “o algodoal menstrua / sangue branco / antes da primavera” (Noir, p. 31)150, “meninas nuas em camas de areia / com o pó negro de Kohl / derretendo em prazer / no olhar” (Noir, p. 41), “Como quem olha entre as frinchas de um biombo, / vi tuas mãos – lua de Isfahan” (p. 27).

Os elementos em A última chuva são líquidos e noturnos, nota-se o emprego abundante do vocábulo água, além de outros correlatos como chuva, lágrima, gota, pingos, lago, menstrua, bebe, vinho, chá, abraço líquido, vendaval molhou, enxurrada, enxágua, sede, sangram, óleos, barco. A maioria dos poemas traz essa marca indelével, a considerar a partir do próprio título do livro. A poeta prefere a água à areia, pois, dentro do silêncio quebrado pelo ritmo incômodo dos pingos de “uma torneira vazando / enlouquecendo em azul / a noite”, o tempo é marcado pelo elemento líquido que “cai em ritmo de segundos, / tatua o tempo em estilhaços líquidos”.

Além disso, a água não trai como a areia silenciosa – sub-reptícia -- “Os pingos alertam / o que a areia silencia – enganosa” (A última chuva, p. 27). A água é um símbolo a ser alcançado, na alquimia da palavra, é a fluência, a limpidez, a pureza. A poeta refaz a metáfora do tempo – areia – para água, “Com o pingar aflito do tempo – água –” (A última chuva, p. 27). Mas nesse ritual de passagem, necessita de coragem: “minha alma silenciosa / necessita de coragem / para a inevitável passagem / de grão de areia para pingo d’água.”( A última chuva, p. 27).

O elemento mágico comparece no poema Chá para as borboletas, cheiros e flores num jardim impressionista, onde a infância, recôndito dos primeiros sonhos e desejos, faz essa poesia sonhar, no mais, com a vida numa dimensão mais doce, amena, tragável:

Chá para as borboletas



Janela – espelho meu.

Fragrância de almíscar selvagem

me violenta.

Menino com aura violeta.

Jovem com juba desgrenhada.

Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel

cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra

dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas”.

(A última chuva, p. 32)





Desse jardim lírico de sonho, a visão salta para outro, tenebroso. A visão da loucura e da morte na metáfora da gaiola absurda do pássaro, um crânio branco, um vôo metafísico, que se apóia na epígrafe Nietzschiana 151, “a essência da felicidade é não ter medo”, a qual se contamina ainda em termos de insânia, quando Nietzsche escreve ou diz no manicômio: “Sejamos alegres! Eu sou deus, e fiz esta caricatura”. 152 Para Bárbara, poesia é ter a loucura bela de um Ícaro, voejar “céus de antes”.

Asas de Nietzsche

a essência da felicidade é não ter medo

(Nietzsche)



Em urdidura silenciosa

escondem o pássaro

no crânio branco

-- arapuca tétrica --

caveira fria.

Asas em valsa colorida de raios

que entram pelos olhos vazados,

e aquecem feito o fogo

as papoulas

da primeira primavera.

Asas de pluma se ferem

No osso-cárcere – sangram;

asas metafísicas

voam céus de antes.

(A última chuva, p. 19)

A metonímia das asas, frágeis, delicadas de plumas são o símbolo maior da liberdade personificada pelo pássaro e a sua quase irrestrita ação de vôo. Seu movimento é preso por algo frio, estático: o crânio-arapuca, o cárcere-gaiola; a imagem é forte: as asas do pássaro em movimento arrastado de “valsa colorida” sendo feridas nas janelas-olhos vazados. A flor símbolo é a papoula, sombria, misteriosa, fúnebre em contraste com a beleza da primavera, a bem dizer como uma recordação do funeral dessa primavera que já passou. Se as asas sangram, esbatendo-se na grade-osso do cárcere, outras asas, metafísicas, ensejam o vôo passado de outros céus.

As evocações de ritos celebratórios, de passagens, de símbolos, da hora feiticeira, do ânimo alterado pela comoção compõem atmosferas para além do real. O poeta projeta em si uma imagem de arauto de si mesmo, premonitório. A alma do poeta a tudo assiste em seu devaneio noturno; encanta-se por sua condição de vidência; celebra essa condição em um rito de passagem, à hora máxima da viragem; recorre à memória, justifica a retomada da vida, seguindo viagem compreendida apenas pelos que fazem o mesmo caminho, os poetas, visionários de sede sem fim.

À meia-noite chorarei



À meia-noite chorarei.

Porque sou poeta,

chorarei.

No sonho verei velhos amores,

pensarei no infinito finito,

e seguirei.

Vez por outra lembrarei

a voz do irmão caçula:

Esta estrela de Davi

Na palma esquerda

Significa – protegida pelos céus.

(...) sou uma maluca elegante

que bebe a vida

(...) E segue sede gritante,

mochila gasta atrelada às costas,

poesia minha bagagem

sendo apenas compreendida

pelos que fazem a mesma viagem.

(A última chuva, p. 24)

A poeta sonha com o acalanto maternal, um tempo onde havia proteção e força e, diante da inconstância dos atuais estados anímicos, preza à poeta descrever-se assim: “um dia sou cinza, / em outros, cata-vento, / e entre eclipses sazonais: / topázio.” (A última chuva, p. 36). A alma rende-se à instabilidade “sem o mel que me cobria” (o mel dos olhos de sua mãe), alternando os estados de ânimo. Antes, de posse ainda do olhar de mel de sua mãe – que a via inteira – ela era “- um cata-vento topázio eclipsando o cinza”. Por oposição ao cinza, cor da tristeza, da morbidez, o amarelo do topázio em forma semovente do cata-vento, motivado pela força natural do vento; assim se quer o sonho do “presente impossível”, ansiado, um otimismo que invalida o que é cinza, num tempo em que já não pode tê-lo mais, pois a mãe já não existe.

Em seu primeiro livro de poemas, O sorriso de Leonardo153, Bárbara Lia aviva estranhamentos quando vibra na sintonia da corda onírica, no entanto, parece haver uma divisão do sujeito lírico entre um onirismo abrupto, que surge em meio às coisas reais, conforme já mencionamos, seguido de um retorno às coisas cotidianas, da vida, dispersando a linha onírica.

Há um constante ir e vir entre o fluxo do sonho e da realidade, os fechos dos poemas são, em geral, retornos dispersivos às coisas comuns. Talvez isto se explique por uma reivindicação ideológica, expressão que quer entremear-se nos poemas, dizer a sua grita; então essa pontuação obedece seu desejo imediato de manifestar-se, em alguns casos, atenuando a força onírica que vinha sendo conferida ao poema, quebrando o melhor do vórtice onírico com sua interrupção.

Veja-se, por exemplo, o poema Mãos de abrir nuvens (O sorriso de Leonardo, pp. 6-7), título por si só sugestivo de ação surreal, onde as imagens e os atributos do visionário, daquele que “rompe o velcro de baunilha”, promovem uma combinação sinestésica visual/olfativa da ação desejante, ao unir a imagem do gesto inaugural, de certo modo violento, com a agradável sensação do aroma que se desprende do interior do que acaba de ser revelado. A surpresa do gesto decidido se revela em “espiar / Dentro a catedral / Dos sonhos / Um rito de encanto / Crianças e lagos / e mapas emaranhados”. Laços oníricos são bem definidos dentro da visão deslumbrada da poeta, pelo encantatório, o rito, um ambiente epifânico onde se descobrem imagens edênicas de “lagos e crianças”, mas o baralhamento do devaneio logo cruza à frente dessas primeiras imagens dóceis para indicar que há “mapas emaranhados”, para em seguida escrever que

A sexta avenida

Deságua no Eufrates

E as barcas cruzam

De Bagdad ao Mojave

As mãos se enlaçam

Negras brancas

Amarelas azuis.

(p. 6)

Dentro do fundamento não-racional do ver, o inusitado pode acontecer. Quando estica a linha onírica através da figuração impossível de um intermédio geográfico, isto não é uma imagem apenas, uma interpolação surreal. É o suporte da idéia social-fraternal da comunhão entre os povos do oriente e do ocidente. A cena é puramente dos sonhos, imagine-se a Sexta avenida americana “desaguando” no Eufrates, o rio bíblico. Ou então, o efeito surreal d barcas que cruzam de Bagdad ao americano deserto de Mojave. A poeta está sonhando, mas é com um território de livres, um interregno de conflitos, com a paz dos povos. A poeta acrisola a vontade social de seu poema com as imagens potentes dos sonhos, e de uma só tacada encontra o duplo sentido da palavra “sonhos”: o devaneio das imagens de algo impossível de realizar-se e o sentido do sonho como desejo, aspiração, algo que pode vir a se concretizar na realidade.

O ápice do poema poderia ser surreal, mas não resiste a entregar-se à ideologia do ecumenismo entre os povos das nações conflitantes: “As mãos se enlaçam / Negras brancas / amarelas azuis”. A mesma mão que toma parte na real ação do enlace, “abre nuvens” e responde à indagação “Quem possui mãos de abrir nuvens?”, pela metáfora na persistência de acreditar nos sonhos, de “regar pedras”, e sonhar na altura de realizar feitos extraordinários: “E pesca pássaros / Em tempestades / E ancora no alto / Da montanha mais alta / Suas caravelas.”

O pecado de não manter a tensão da linha fica patente com o desfecho do poema. O Surrealismo herdou do Romantismo a exaltação à mulher, e esta condição é reivindicada na indisfarçável intenção gênero-social, de todo feminina (feminista?), inserida no contexto social, que não se reprime nos versos finais do poema: “Mãos de mulher livre / A abrir o velcro / Da humanidade encantada”. Análogo a este, outro poema configura o início onírico e final ideológico, suspirante pelas mulheres e suas conquistas:

AVES DE ARREBENTAÇÃO

Pássaros renascentistas

Libertados por Da Vinci.

Invadem minhas pálpebras

Que meditam em silêncio

De monja e

Louvam as aves

Do terceiro milênio.

(...)

Das mulheres que venceram

O jugo secular

E cruzaram as linhas

E abriram os braços

Aves de arrebentação

A flanar entre

As azaléias púrpuras

E o grito ardente

Da libertação.

(O sorriso de Leonardo, p. 8-9)





Mas há também um lugar integral em alguns poemas, demarcado pela linha onírica. Em dois deles, salvam-se imagens aéreas, telúricas e líquidas. No primeiro,

DEUS SORRINDO NA VARANDA

O quintal de Deus é o céu.

Um paraíso em uma ilha.

Alcançaremos quando formos náufragos.

Aguaçal encoberto de dor,

nascituro rompendo em harmonia

a eternidade – Deus sorrindo na varanda.

(O sorriso de Leonardo, p. 20)

há um raciocínio silogístico, sequencial no terceto inicial, porém sua linearidade é quebrada pelo dístico sucedâneo, e a idéia de eternidade é retomada no verso final. Principalmente o dístico medianeiro é de influxo surreal, interpola as outras duas partes do poema que se relacionam diretamente.

Os dois versos abrem outra perspectiva, aparentemente alheia ao resto do poema, saem do escuro da poeta, parecendo exprimir o cerne, o melhor, como se aflorasse subitamente por uma vontade imperativa, sobrepondo-se, chamando atenção para si pela “orfandade” de sua carga vigorosa, enaltecida pelo caráter urgente de sua aparição estranha, como um gato em ninhada de coelhos; as relações que podem se estabelecer são variadas, conforme uma interpretação do inconsciente; “nascituro rompendo em harmonia” é um verso bastante deslocado do resto do corpo do poema, mas isso de um ponto de vista pragmático, objetivo, plástico até; pode-se, por exemplo, tentar relacionar “harmonia” com “paraíso”, “Deus” “eternidade’ ou mesmo com uma “varanda” onde tudo é harmonioso pela presença divina que sorri; “nascituro” pode nos levar a pensar em uma outra vida, para a qual se nasce, no “céu”, no “paraíso”, para “Deus”; também se considerarmos a passagem desta vida para outra, onde se chega no paraíso, o “nascituro” compara-se à trajetória de um “náufrago” em seu alcance desesperado, como se nascesse de novo, como se se salvasse; já “Aguaçal encoberto de dor” retoma diretamente a porção líquida que dialoga com “ilha” e “náufragos”.

No segundo,

BEM-TE-VI



Ramagem arranha a minha janela.

Sonho: Aeroporto fantasma.

Espíritos náufragos do Titanic.

Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,

entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi

na manhã de sol.

na mesma paisagem.

(O sorriso de Leonardo, p. 21)

existe o sonho declarado, ainda mais seu conteúdo. Um horror maior, digno de um thriller de terror, entre todos os horrores presentificados no sonho, o de se ver “na mesma paisagem”, acordada por um aziago bem-te-vi (como não lembrar aqui do corvo de Poe?). O sonho dentro do sono entrando vida adentro, quando se acorda. As cenas de violência lembram o anti-herói Lautréamoniano, Maldoror, em seus desiderativos criminosos do enforcado e da menina violentada154.

Pequeno Fragmento que fala sobre a minha obra poética na monografia - DUAS TENDÊNCIAS DA NOVÍSSIMA POESIA CURITIBANA NO ALVORECER DO SÉCULO XXI - Márcio Davie Claudino da Cruz – Monografia – Curso de Letras – Português – UFPR – 2007 –– Prof. Orientador - Dr. Edison José da Costa – 12 Poetas curitibanos em duas vertentes: onírica e de expressão vital. Este texto está publicado no site da SEED _ PR.