Friday, December 09, 2011

A última chuva - Bárbara Lia






LAYLA


calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.


DESDÊMONA

Olhou-me como nuvem,
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus,
guardei-o em um lago
onde iago
jamais chegará.



OS LOUCOS QUE EU AMO


Os loucos que eu amo
roubam segredos de estrelas
soprando um vento anis
até desfolhá-la inteira
revelando o papiro da alma.

Os loucos que eu amo
esperam, ouvido colado às colméias,
pelo cio das abelhas
e rezam
para que haja mel
daqui 5 milhões de anos.

Os loucos que eu amo
amam
mais que o visível amor
e vestem a invisível pele
de pétalas desfibradas
das rosas desprezadas.



**



Sepultei dois mortos na última primavera.
Cavei minimamente suas covas brancas,
envolvi em lençóis de linho, com óleos almiscarados.
Jamais voltarei aos seus túmulos.
Eles, que não se sabem mortos,
passeiam por paraísos com gueixas
de anis.




ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)




Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.

Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere - sangram;

asas metafísicas
voam céus de antes.



*



A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade e
as cicatrizes de concreto.
No mundo não há quem leve,
como eu, este solar crepitar na alma.

Bárbara Lia
Poesias do Livro - A última Chuva - Mulheres Emergentes (MG) 2007