Thursday, August 23, 2012

 
 
 
 
 
O diretor do filme Curitiba Zero Grau - Elói Pires Ferreira -diz em entrevista que ele dialoga com Rio 40 graus. Ontem vi o filme. Uma surpresa e tanto. O cotidiano da minha cidade. A real Curitiba com seus ônibus lotados e a luta pela sobrevivência. O enredo passeia por várias vidas retirando dali a humanidade crua e nua. Felicidade é coisa rara, mas, brilha no enlace da família que mora na favela e vive a catar papel pela cidade. O contraste do momento da refeição na casa do Tião (Lori Santos) onde a mãe entrega a filha pequena seu mínimo pedaço de pão, quando o pão da menina vai ao chão, enquanto na casa do empresário todos brigam à mesa e se levantam e nem ao menos se alimentam meio aos conflitos. O enredo enlaça sutilmente alguns trajetos e mostra as sincronias do Universo para dar a alguém uma retomada do caminho, na trajetória de Ramos (Jackson Antunes) um motorista do ônibus bi-articulado que acaba sendo transferido para a linha do Interbairros. Minha vida de passageira destes ônibus dentro da cidade tornou o filme de uma realidade gritante. O motoboy Márcio (Diego Kozievitch) e o empresário Jaime (Edson Rocha) completam o time de protagonistas. Ao redor destes gira a fina nata curitibana de atores da melhor qualidade e isto faz com que o filme seja impecável. A ex-mulher do motoboy é Uyara Torrent (A banda mais bonita da cidade), Enéas Lour é o funcionário corrupto que tenta subornar o empresário Jaime. Rosana Stavis a mãe de Daiane a personagem de Uyara. Otávio Linhares e Andrew Knoll em pequenas participações. Rodrigo Ferrarini e Veronica Rodrigues excelentes como o casal que chega a cidade sem eira nem beira. Para acompanhar esta roda-viva de encontros e desencontros. Poesia e dor. Buscas e perdas. Só vendo o filme. Melhor ainda para quem vive a cidade. Amo Curitiba, foi para ela meu primeiro canto público, quando a UBE RJ premiou minha crônica "Se essa rua, se essa rua fosse minha". A vida não dá trégua. Mas, é preciso retomar o caminho, seguir na noite como quem tem esperança. Abandonar cenários sem futuro, cuidar das crianças pequenas. Escrever os dias com a fé, ainda que com um endereço desconhecido entre os dedos, como o moço que chega sem norte com a familia à tiracolo. Curitiba Zero Grau veio lembrar o quanto é minha esta cidade. A real cidade que aparece na tela. E sai do cinema com minhas próprias cenas, a minha rotina de mãe e leoa. A parte mais bonita de mim, os filhos que aqui cresceram. O neto que aqui nasceu. O verde espalhado pelas esquinas, o vento que chega nas noites e nos obriga a aquecer o corpo, derramar o espírito sob os edredons e sonhar.