Friday, October 12, 2012

Helena


Caixinha de Música - Helena Kolody
SEEC - PR - 1996



Há cem anos nascia Helena Kolody. Entre os dias 08 e 11 a Biblioteca Pública promoveu a - Semana Helena Kolody 100 anos. Helena era meiga e calma. Nasceu em Cruz Machado, viveu em Curitiba, lecionou no Instituto de Educação. Nunca se casou, não teve filhos. Foi noiva e seu noivado foi rompido por ela, pois o poeta com quem ela se casaria tinha o hábito de beber. Helena viveu a poesia e conviveu com levezas. Abraçou isto para si e sua obra é o espelho de seus passos: Filosofia e beleza. Nada ralo, nada pobre. Era extremamente rica a alma de Helena e cada qual só pode dizer de sua própria alma. Um poeta não precisa escrever sua vida, ele pode ser lido em seus versos de forma nítida. A primeira vez que li um verso dela eu não sabia que era dela. Por muito tempo eu olhava para um muro extenso e escuro onde estava grafado o poema acima - Para quem viaja ao encontro do sol, é sempre madrugada. Como álcool que a gente pinga na ferida viva. Quando eu me atrasava e precisava ir voando para o trabalho eu chamava um táxi e perdia meu olhar naquele muro e um ruído estrondava. Gravei palavra a palavra. Naqueles dias eu havia me separado, meu pai e mãe haviam morrido, eu estudava Psicologia na Tuiuti. Estudei apenas um ano e desisti. Tinha três filhos e sustentava sozinha a casa, a escola das crianças, meu curso. Eu buscava outro caminho. Só não havia ainda me rendido ao que gritava em mim desde menina - A Poesia. Foi justamente a poesia que murmurou ecos, estrondou verdades. Para quem viaja ao encontro do sol... Eu vivia a escuridão do caos, os atropelos da vida, estava perdida. Sairia deste momento de perdas para os braços do Poema - Minha Madrugada. Este foi meu primeiro encontro com Helena Kolody - Um verso-recado em um muro marrom a questionar o caminho. Alguns anos depois eu fui ao lançamento de sua Antologia. Entrei no Teatro Londrina e esperei. Na fila com meu filho pequeno entre senhoras curitibanas com suas roupas finas e penteados e jóias. Eu vestia uma camiseta do Congresso de Poesia, um jeans surrado e destoava um pouco daquele cenário. Quando entreguei o livro para Helena ela olhou meus olhos de Poesia, a camiseta do Congresso de Poesia de Bento Gonçalves e disse: _ Você é poetisa. Eu disse que sim, embora até ali minha única aparição como poeta foi justamento no Congresso puxada pela mão pelo poeta Carlos Barros. A fila que esperasse. O domingo que fechasse as portas. Ela tinha algo a me dizer. Com calma enquanto escrevia com sua letra pequena - À inspirada poetisa - Bárbara Lia - ela deu um recado: Quando comecei a escrever eu guardava folhas de papel. Juntei muito papel A4 para imprimir meus livros. Não desanime com nada, vá juntando o material que você precisa para imprimir seus livros. Ela contou rapidamente sua experiência. Lição de vida, sem se preocupar com nada. Como se  no mundo existisse apenas ela e uma poeta que chega, um livro em uma das mãos e o filho na outra. Domingo de sol e o murmúrio de pessoas no Largo da Ordem. Aquele recado: Persevere, mesmo que seja preciso guardar ano após ano o papel para seu livro. Foi assim meu encontro com Helena Kolody. Quando trabalhei por algum tempo no IBGE, fechada em um lugar cheio de papéis e meninos universitários, conheci o neto do poeta que Helena amou. Com um orgulho nada disfarçado ele me disse que - poderia ser o neto de Helena Kolody. Contou-me que seu avô era o poeta que quase casou com Helena. Quase disse - Mas, se Helena se casa com seu avô - você nem existiria. Calei. Que importa as leis da biologia e a realidade se um sonho bonito vive na alma de uma pessoa. Eu apenas sorri ao quase-neto de Helena. 
Somos totalmente opostas - Helena e eu. Só a Poesia que passeia em nossas veias nos une. Meu único marido gostava muito de beber, não era o genro sonhado por meus pais, nosso casamento não foi adiante. O que eu sei de mim é que eu sou louca e Helena era luz. Eu vivo mais a minha humanidade: ela vivia mais a sua porção divinizada. Curitiba a ama e com razão. Alguns em Curitiba me detestam, nem sei se eles tem razão. Nada importa. Sempre quis mergulhar na realidade anímica nua e crua. Para ser eu mesma, eu dispo os véus, peço licença à Deus, mergulho em mim. Admiro quem não desgruda sua alma das coisas puras e quem consegue abdicar. Eu nunca abdiquei. Sempre abracei o risco e fiz questão de colocar à prova o meu sentir, o meu querer, o meu desejar... Sei que os anjos estão extenuados. Sei que dou muito trabalho a quem cuida de mim - se é que existe quem cuida da gente neste chão. Admiro Helena e seus versos que são diamantes rascantes. Vão tocando a alma e a carne e seus recados são ternos, são precisos, são a voz de quem passou a vida a meditar a mergulhar nas águas límpidas da beleza. Ah! Quem me dera cem anos e a paz do Paraíso. A mim restou o pequeno inferno e os barcos naufragados, esta poesia de chama e lágrima. Alguma luz que salta, uma flor votiva, uma canção dos Beatles ecoando ao longe. Um caminho de espinhos e uma cama serena. Amantes, primaveras, filhos. O meu poema é um grito sem resposta. Uma interrogação de aço. Minha alma casa mais com Frida ou Hilda Hilst, não deixa de esconder dentro, dentro, dentro, onde apenas alguns tocam, aquele sereno azul celeste da alma de Helena...