Wednesday, November 14, 2012

Prendimi l'anima - Bárbara Lia



No táxi ela recordou o signo: Um selo com o personagem daquele filme da tarde que se encontraram no cinema. Sincronias. Na tarde em que ela foi aos Correios viu o moço retirar os selos da gaveta e atirar diante dos olhos dela aquela imagem que evocava o encontro com o amante. Comprou o selo, pensou em postar uma carta com ele. Depois, decidiu presenteá-lo - um signo. Qual aquele outro filme onde o personagem de Carl Jung entrega a Sabina Spielrein uma pedra e pede que ela a guarde. A pedra pequena representava sua alma, ele disse. E ele pediu que ela levasse sempre a sua alma com ela. Como a mulher no táxi se sentia tênue e quase dissolvida, sua alma era de papel. Sua alma era um selo dos Correios. A imagem daquele mito ali impressa, suas palavras de asas, as mesmas que ela ouviu abismada naquele cinema onde se conheceram. No táxi o silêncio da noite compactuava com o seu espanto e com a certeza de que ele a tinha entre seus dedos. Esquecera o signo ao encontrá-lo, esquecera a promessa de entregar a ele aquela memória que a representaria. Esquecera tudo. Só lembrava o corpo dele e aquele filme onde Jung e sua amante estão enlaçados. Só lembrava ela e ele enlaçados e loucos e aquele outro casal enlaçado do filme. Da importância de dar sua alma para alguém levar pela vida e daquele filme e dos corpos nus e do gosto do sexo dele ainda brilhando entre seus dedos e o calor que evaporava de seu gozo ainda aura de luxúria em sua roupa... Não sabia quase nada dele. Embarcara em uma jornada de corpos. Não podia dizer-lhe não desde que as primeiras palavras de desejo pingaram em sua tela por conta de insólitas sincronias de imagens. O cinema é culpado. Por muitas horas de sexo, por muitos beijos, suspiros, encontros, lágrimas, gozo, gozo, gozo. O cinema... E ele era culpado por ser pura doçura envolvida em magnetismo daqueles homens que olham e enlaçam, alma a alma. No caso deles, pele a pele, corpo a corpo, gozo a gozo. O silêncio da noite e as lâmpadas pálidas. Ela pagou o taxista, entrou quintal adentro leve feito pluma. Girou a chave na porta, entrou e abriu a bolsa. Sua alma dançava na bolsa grande como a lembrá-la que era preciso entregar, entregar a alma nas mãos dele... Sabendo que já a entregara ao ficar ao lado dele naquela cama larga, nus e enlaçados, qual no filme Sabina & Carl. Tudo estagnado naquela hora agoniada - La petit mort... 
Amanhã ela enviaria pelos Correios a sua alma-papiro, sua alma-poema, sua alma-louca, sua alma-fêmea...

Bárbara Lia